Um dia ordinário.

*Por Gustavo Lamounier.
loneliness

Dia de Sol. Uma piscina a sua frente. Olhou pro lado e viu uma ruela. Foi até lá. Um carro quase o atropelou mas alguém puxou seu braço. Era ela. Tentou falar alguma coisa, mas ela abriu a boca antes. Saiu um som irreconhecível de dentro dela. Que porra é essa?!

Acordou. Já se faziam algumas semanas em que acordava sonhando com ela. Assim, ela sempre era o primeiro pensamento do seu dia. Não dava pra saber se era o último, pois toda noite ele ia dormir depois de ter bebido. “Ir dormir” é bem que um eufemismo! Ele praticamente desmaiava depois de tanta bebedeira. Levantou. Chegando ao banheiro lembrou-se de uma frase de um livro de auto-ajuda que tinha ouvido no dia anterior: “ A vida está cheia de desafios”.

Estava de pau duro e de frente à privada.

–   Filha da puta.

Se arrumou. Foi até a cozinha. Pegou uma lata de cerveja que estava em cima da mesa e que havia sido aberta no dia anterior. Deu um trago.

–  Hmmmph, resmungou.

Foi até a pia e cuspiu. Saiu de casa comendo só um pão mesmo.

Passava pela portaria. Ainda caía alguns pingos d’água do céu. Tirou do bolso da camisa um cigarro. Acendeu. Uma mãe, que estava levando seu filho pra escola o cumprimentou.

–   Bom dia, respondeu

–   Fumar faz mal senhor, disse o menino.

–   Ser chato também.

A mãe o lançou um olhar de fúria enquanto puxava o braço da criança com força para longe dele. Saiu do prédio e foi andando em direção do ponto de ônibus. O tempo estava úmido e ameno. Um tempo mais frio sempre o deixava de bom humor.

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Entrou no ônibus. Pagou. Ficou em pé ao lado de duas senhoras. As únicas pessoas que conversavam no ônibus inteiro. A gorda falava e a cada 100 metros que o ônibus andava ela aumentava em 1 decibel o seu tom de voz. A mais gorda ainda ouvia, mas não conseguia disfarçar a enorme vontade que estava de falar alguma coisa.

–  Aham,……..Aham,………sei,……….pois é menina,………aham,……..aham,…….é,…….

Algumas pessoas no ônibus ainda dormiam. O vento frio entrava pela janela do cobrador. E as duas senhoras continuaram conversando.

–  Ficou sabendo da Angélica?

–  Que que tem? Acho ela linda, aquele cabelão..

–   Virou puta menina.

–   O QUÊÊÊ?!?!

–   Virou puta.

–   Nossa Senhora!

–  E eu?! Eu sempre desconfiei! Aquelas roupa curta, aquele jeitão, a mãe veio chorando me contar tudo ontem

–   Sabe o que que é isso aí?! Não ia na igreja! E eu sempre falava “cumadi, a senhora tem que trazer Angélica pra igreja”, deu no que deu..

Puxou a corda e desceu.

Chegou na firma. A firma na qual trabalhava há 15 anos.

–  15 anos de lixo, pensou.

Entrou. Cumprimentou alguns colegas. Acendeu outro cigarro. Pegou um café e foi direto para sua mesa. Tinha acabado de botar o rabo na cadeira.

–  CHICO!!!!!

–  Senhor?

–  Preciso que você vá até o cartório e consiga a assinatura do tabelião nesses documentos.

Jogou uma pilha de documentos em cima de sua mesa.

–  O cartório provavelmente vai estar cheio, MAS FODA-SE, não me interessa se você vai gastar 3 horas na fila e mais o horário do seu almoço, VOCÊ TEM QUE CONSEGUIR ESSA MERDA!!!

Pegou a pilha de documentos e saiu.

Chegou no cartório. Se surpreendeu com o fato de a fila estar pequena. Em 30 minutos conseguiu a assinatura do tabelião em todos os documentos.

–  Obrigado.

Parou na porta do cartório e olhou o relógio. Virou a cabeça pro lado e viu um grupo de velhinhos jogando dominó numa mesa de pedra que ficava no centro da praça. Aproximou-se.

–  Tem lugar pra mais um?

–  Depende, um velhinho mais ousado respondeu, você tem um cigarro?!

Puxou um banquinho de madeira enquanto botava a carteira de cigarros em cima da mesa.

Ficou jogando, rindo, e ouvindo as histórias e piadas dos velhos.

–  Eu posso tá ruim no jogo, mas pelo menos to melhor que o Geraldo.

–   Quem tá ruim é você.

–   Cê tem Parkinson!

–   E aí?! Ontem mesmo fui mijar e acabei gozando

–   HaUhuahuHaHuhuahuaahuhUHaAUuhaUuaAuhU

Sentiu a barriga apertar. Levantou-se e se despediu.

–  Até mais rapaz, os velhinhos falaram em coro.

Foi até o restaurante. O mesmo no qual havia conhecido ela. Pediu um pf. Sentado na mesa do seu lado estavam dois advogados. Deduziu isso das roupas e da conversa. Advogados sempre conversam sobre as mesmas coisas.

–  Aí eu tive que ir lá na Vara pois o pedido da minha cliente foi indeferido bla bla bla bla bla

–   Mas qual é a legitimidade disso?! Pois na jurisprudência bla bla bla bla bla bla

–   Depois que todo mundo saiu fiquei tomando whisky com o chefe bla bla bla bla bla bla

Quando colocou a 2ª garfada na boca, uma menina, com uniforme de escola pública se aproximou. O fato dela falar muito rápido, quase mecanicamente, e baixo foi o deixando irritado.

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–  Quê?

–  Gfebweyvcuweyb,muitafome’hdewbyuvcewuyvuycveycv’medáumdinheiro,fiehbwyey

–  Senta aí, apontou-lhe a cadeira.

–   Brigada’bewicewbcubrevervewhjewbcuewb’muitafome’hbewiufbeic

–  Só pago o almoço se você calar a boca.

A menina abaixou a cabeça e obedeceu. Os advogados fizeram que não ouviram.

Terminou o almoço. Saiu deixando a menina para trás. Acendeu outro cigarro. Foi direto para a firma com os documentos. Entrou. Foi direto para a sala do chefe.

–  Chefe?

O homem falava ao telefone. Fez sinal para ele entrar e apontou um canto da mesa onde devia botar a pilha de papéis.

–  Chefe, posso sair pro almoço agora?

–   Vai vai vai vai vai vai vai, falou rapidamente enquanto fez um gesto com a mão para que saísse da sala.

Foi. Saiu. Deu a volta no quarteirão. Parou perto de um estabelecimento escuro. Sentou-se.

–  Uma cerveja por favor.

Já estava na terceira garrafa. Já tinha pedido outra carteira de cigarro. Ficou sentado lá. Ficou sentado lá pensando nela. Ficou sentado lá pensando nela e coçando o saco. Na mesa da sua frente, um casal brigando.

–  Devem ser casados, pensou.

O homem era careca, um pouco gordo e mais velho que ela. A mulher era alta, e ouvia com resignação, era muito bonita.

–  Ei amigo!

O homem virou-se para encara-lo. A mulher fez o mesmo.

–  Você não quer fazer isso. E daí que ela demora demais pra se arrumar? Olhe pra ela, ela é linda! Você dificilmente vai conseguir algo melhor.

–   POR QUÊ VOCÊ NÃO CUIDA DA SUA VIDA?!?!?!

–   Tá bom.

O homem voltou-se para a mulher e continuou a reclamar. Ela foi girando o corpo lentamente enquanto lançava um pequeno sorriso.

–  Está na minha hora, pensou.

Voltou para a firma. Entrou, bateu o ponto, saiu. Foi andando até o ponto de ônibus. Esperou por um ônibus da linha certa. Desceu a alguns quarteirões de sua casa. Tinha ido até a zona da cidade.

–  Alguma de vocês se chama Angélica?
 
–  Pssssiu, uma das putas o chamou.
 
Andou até ela. Morena, cabelo grande, bem bonita, é essa.
 
–  Não fala o meu nome aqui não seu doido, aqui eu sou conhecida pelo meu nome de guerra.
 
–   E qual é o seu nome de guerra?
 
–   Luciana.
 
–   Você é nova aqui não é?
 
Passou o braço pela cintura dela e começaram a caminhar juntos
 
–   Sim, comecei a pouco tempo
 
–   E como é o esquema Luciana?, perguntou
 
–   70 a hora, não beijo na boca.
 
–   A título de curiosidade Luciana, quanto você cobra a mais pra dar o cu?
 
Ela deu-lhe um tapinha no ombro enquanto soltava uma risada safada. Foram caminhando juntos em direção a casa dele.
 
O Sol se punha.
 

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