Isto Que É Festa!

carnaval

*Por Guilherme Martins

“Está parecendo um carnaval”.

Sim, uma expressão, dentre outras, que passou pela minha cabeça no final da manifestação. Engraçado foi justamente um grupo de indivíduos proferir o mesmo pensamento, mas colocando em um contexto de diversão. Diversão! Não quero falar mal de todo o movimento que ocorreu ontem (20 de junho) em Brasília. Sim, de fato, ocorreram tantos atos de verter lágrimas de felicidade, bem como verter lágrimas interioranas de tristeza e biológicas (em razão do gás). Mas, achei necessário fazer levantamentos pessoais sobre o que está acontecendo. Não vou entrar muito em uma forma de resumo do contexto social que passa no Brasil desde a semana passada. Focarei apenas na quinta-feira, 20 de junho, em Brasília. Até porque pretendo ser breve na exposição.

Estou, junto a diversas pessoas queridas, me dirigindo a tão esperada manifestação que ocorrirendoria (ler O Restaurante no Fim do Universo, de Douglas Adams). Pessoas já se encontravam lá, outras estavam chegando e, em um momento posterior, havia aquelas só apareceriam já no estágio que considero banalizado. Assim como outras manifestações, não tinha, em nenhum momento, uma pauta específica. Fui lá com o desejo de repudiar a criminalização dos movimentos sociais (mais em relação ao apoio ao MTST e o B&D) bem como a tentativas futuras de considerar terrorismo esses movimentos durante a Copa… caso tenha uma. Olho para direita e vejo aqueles que se dedicam a causa LGBT. Olho para trás e vejo alguns com intuito de reclamar da Copa e o “investimento” desnecessário. A minha frente estavam aqueles indignados com o transporte público. Senti um pouco de desorientação. Mas, me acostumei e me sensibilizei em ver todos se mobilizando a favor de seus ideais. A felicidade maior foi chegar no gramado do Congresso e ver um grupo de indígenas levantando cartazes, lutando por seus direitos. Uma miscelânea de grupos, objetivos, pensamentos. Ou seja, bem como tem sido divulgado na internet, não havia de certo um foco muito bem estabelecido. Existia ali uma nuvem não muito clara, pois tinha formato de coelho ou de dragão. O importante é que tinha um formato de alguma coisa!

Agora a parte triste. Depois de um momento, não lembro muito bem o horário, essa mesma nuvem foi perdendo os contornos. Suas linhas foram sumindo, dando espaço para alguma coisa não muito concreta. Sabe aquela nuvem que você olha e não consegue ver um aspecto de nuvem? Que parece mais uns fiapos e não um algodão doce? Pois, foi exatamente isso que aconteceu. As diversas vozes que estava presenciando tornaram-se somente uma. Uma voz sem contorno. Presenciei apenas uma manifestação sem muito sentido. Veja, não quero generalizar para todos os indivíduos, mas de onde estava as outras vozes foram silenciadas. Escutava, na maioria das vezes, a mesma porcaria que os políticos falam: “mais saúde e educação”, “vamos acabar com a corrupção”. Na minha opinião, a utilização dessas expressões ficou como um xingamento entre amigos, ou falar que ama alguém só para ser fofo… ou seja, algo bastante sem conteúdo, um vazio. Não bastassem os gritos, tinha que observar cartazes com a única intenção de zombar com as figuras políticas. Cadê aquelas vozes que tinha escutado no começo? Acho que estava em um lugar errado na manifestação.

Essa transformação do plural, do diferente, para o uno, o igual, deu margem para, em diversos momentos históricos e até mesmo literários “fictícios”, apoio a verdadeiros golpes contra o que se queria na verdade: democracia (palco de conflito de interesses; não aceitação de uma única vontade). Cheguei a ler em outros blogs onde os escritores faziam um paralelismo com as ditaduras passadas. Estão mais do que certos! Por que pedir a todos usarem branco na segunda (17 de junho), por exemplo? Assistiram o filme A Onda e acharam legal por acaso? (fugi um pouco do contexto). Enfim, essa (não) delimitação do vazio faz com que eu fique com o pé atrás. Foi assim uma das sensações no momento.

Outra coisa que me deixou muito aperreado. Não posso dizer triste, pois foi uma confusão de sentimentos. Estava com raiva, confuso, pessimista. Um aglomerado de coisas nada boas, diga-se de passagem. Quando não suportava mais esse vazio, essa perda de um objetivo bem definido, fui em direção ao carro (por sinal estava bem perto do Congresso… lá no Museu da República). Na caminhada refletia sobre o que estava acontecendo e reparei na mesma massa de indivíduos caminhando em direção a lugar nenhum. Estavam ali, jogados no meio-fio, bebendo cerveja, conversando… Não parecia nada mais nada menos que um carnaval. Sim, carnaval! Com direito a comida e bebidas no caminho. Li o comentário de alguém no facebook que parecia uma festa junina. Acho que é mais cabível essa denominação.

Estava ocorrendo até uma festa gratuita no museu (acredito que já estava estipulada) e as pessoas saíam do movimento para ir lá divertirem-se! O que aconteceu ali? Fomos ou somos programados para fazer manifestação e depois curtir a noite em uma festa que ocorre ao lado, por assim dizer, da mesma manifestação? Isso só mostrou a falta de compromisso que muitos dos que estavam ali possuíam. Ovelhas que procuram seguir ideias. O perigo de se seguir o deturpamento democrático e adotar pensamentos como a tortura é algo legal, bem como a punição é o único meio de salvar/proteger a sociedade, podendo se agravar a uma ideologia em que 2 + 2 são 5…

 manifestações

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