Nem tudo é música aos ouvidos delas: machismo em 7 tons e várias escalas.

          

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 Por Ingrid Martins e Ladyane Souza

 “Já tive mulheres, de todas as cores…”

Nem tudo é música aos ouvidos delas – estudantes, professoras, advogadas, prostitutas, médicas. Muito da produção musical quer nacional, quer internacional, lança mão de uma imagem de mulher que é objeto sexual ou simples reprodutora – submissa aos ditames masculinos. Uma mulher que não é dona do seu corpo – o próprio Martinho da Vila já teve mulheres de várias idades, de muitos amores. Mas como assim teve? O homem, desde os tempos mais remotos, é o senhor do poder e da palavra, aquele que rege a família e os negócios, o detentor do pátrio poder. Para além da violência física à qual a mulher é vítima, a dominação masculina encontra na violência simbólica outras formas de se impor.

Não raro, as próprias mulheres incorporam essa relação de subserviência ao homem como irreversível em suas vidas, tornam-se Mulheres de Atenas*. É tão naturalizado, que cabe a elas o papel de “objetos receptivos, sensíveis, atraentes e disponíveis”, que na dominação masculina todas devemos ser “femininas, isto é, sorridentes, simpáticas, atenciosas, submissas, discretas, contidas ou mesmo apagadas” (Bourdieu, 2007, p. 82). “Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas, vivem pros seus maridos, orgulho e raça de Atenas” – dizem, com outros termos, mulheres em discursos moralistas, em pleno século XXI, a outras que optam por subverter a dominação – “VADIAS!”

A violência sofrida enquanto dominada é reproduzida, muitas chegam a acreditar que, realmente, “por trás de um grande homem há sempre uma grande mulher”. Uma mulher que é secundária, é cereja de bolo, é aquela que cumpre os valores da família tradicional, é apresentável aos amigos – a acompanhante ideal ao triunfo profissional do marido. “Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas. Geram pros seus maridos os novos filhos de Atenas. Elas não têm gosto ou vontade, nem defeito, nem qualidade, têm medo apenas, não têm sonhos, só presságios”.

A posse sobre a mulher é tamanha, que nem todas podemos dizer adeus e ir com os seus numa turnê quando se trata de relacionamentos. O não da mulher – sempre disponível – não é levado a sério e, nesse sentido, somos todas Lily Braun. Aquela Lily dos versos do Chico: “mulherão”, sedutora, objetificada, comível com aqueles olhos de comer fotografia. E, por vezes, nos amassam as rosas, nos queimam as fotos, nos beijam no altar, daí em diante, nunca mais romance, nunca mais cinema, nunca mais drinque no dancing, …, uma rosa nunca mais, nunca mais feliz. Quero que meu “NÃO!” tenha força, que o casamento seja cumplicidade e divisão de responsabilidades domésticas – dispenso ser “dona do lar”, não quero sair de cena do meu próprio palco.

Quero ser como a outra Lily Braun, a real, não personagem. A qual era feminista, juntou-se ao partido socialista alemão e lutava para que as mulheres não vivessem apenas com a expectativa de serem mães e esposas. Integrou o início das lutas para que a voz de nós todas fosse ouvida – não como secundária, sombra, muito pelo contrário, desde então até hoje queremos o holofote, o nosso mérito pelo que de fato fizemos. Não somos frágeis como bibelôs, “Não somos mais machos que muito homem”, somos fibra e garra femininas, dispensamos uma linguagem em que o forte é, cristalizadamente, masculinizado.

“Minha força não é bruta – Não sou freira, nem sou puta…”. A mulher hoje, ao se afirmar como tal, enfrenta julgamentos de toda parte, olhares impiedosos e cheios de superioridade de mulheres e homens ultrapassados… Nosso rechaço a isso. Acima de tudo, nossa vontade de sermos respeitadas, nas ruas, nas festas, no trabalho – mais do que um corpo, temos sonhos e muita, muita personalidade. Nossa vida é nosso próprio palco, não somos palhaças do teatro alheio: temos nosso próprio roteiro, e estamos na direção, nossa vida é um caminho, não damos a nenhum homem a ilusão de nos guiar. Cada uma, na sua unicidade e personalidade sabe levar a si própria. “Sou rainha do meu tanque, sou Pagu indignada no palanque”.

Donas de nós, respeitando nossos anseios e nosso valor, nós assumimos! Se ser livre é ser vadia, SOMOS TODAS VADIAS! Convidamos a todas/todos a construírem um mundo de mais amor, mais intensidade e menos preconceito! Vem pra rua marchar com a gente! Somos Mulheres. Universitárias. PETianas. Vadias. Da Lola que fez letras na USP, que adora sexo e é dona de uma personalidade autêntica, até a Lola que gostamos que escreva, Lola, escreva, e diz sobre a marcha em outras cidades: “eu me senti muito amada”. Somos muitas Lolas, entre Lilys – a alemã – Ingrids, Ladyanes, Noharas, Sorhayas, Hannas, Julianas, Lumas, VADIAS.

Fica o convite do PET- Dir a todas/todos para amanhã, conosco, gingar entre músicas e refletir sobre a mulher a partir destas, compor cartazes e, então, marchar juntas/juntos na Marcha das Vadias do DF.

Girls just wanna have fundamental rights.

  O que? Quando? Onde?

– Oficina de cartazes do PET-Dir para a Marcha das Vadias:

22 de junho de 2013 | 10h | Na Faculdade de Direito da UnB

– Marcha das Vadias do DF

22 de junho de 2013 | 14h | Em frente ao Conjunto Nacional (Praça do Chafariz)

Fontes:

BOURDIEU, P. A dominação masculina. Tradução Maria Helena Kühner. 5. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2007.

http://escrevalolaescreva.blogspot.com.br/2013/05/vadias-marchando-por-todo-o-pais.html

http://lolabenvenutti.blogspot.com.br/?zx=289557e4e875a7a5

A história de Lily Braun – Chico Buarque
Mulheres – Martinho da Vila
Pagu – Maria Rita
Mulheres de Atenas – Chico Buarque

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