“…Tive Brasília entre os dedos, era um rabisco e pulsava”.

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*Por Edson J. D. de Sousa

Rende-se, pouco a pouco, a luz. Também o céu de Brasília se apaga – nuvens de fuligem. Faróis repletos de noite vão e vem ocupando as penumbras que o dia não desfez; interdição de espaços – em nada. Cidades inteiras subservientes à Reis Momos coloridos e cintilantes; verdes azuis amarelos; reivindicam deferência, vermelhos de cólera. Engarrafados, os olhos mortos dos carros piscam uns aos outros. Chacais que se enrodilham em semáforos – vorazes. Ocupam palácios a céu aberto – recortam cidades e tesourinhas; delimitam poetas e versam em quadras. Ditam trajetos; dão ordens. O espaço urbano torna-se uma grande estrada – História de mão-única. Trilhas possíveis desnudam-se todas em sentido monolítico; movimento pré-determinado, o conforme.

No entanto, a Brasília que vive e vibra, desdobrando-se sobre suas próprias fraturas, sob o Sol rachado e o solo cerrado de sangue, insurge-se. Braços, pernas e cartazes revestem de esplendor o outono dos crepúsculos dourados. As ruas iluminam-se de manifestantes. O clarão de ideias intercepta a barra de concreto; enverga a aritmética lacônica do sonho modernista – a cidade-relógio, a cidade-tic-tac. O juízo analítico das linhas retas – da lei – fracassa ante o desejo de vida que brota em cada quintal ou pixação. A Brasília-que-respira apropria-se, como os lírios indolentes, do solo que habita; floresce em marchas de revolta, todos os dias, pelo solo e pelo asfalto que a nutriu. Apenas uma de tantas primaveras, a manifestação do passe livre (19), da liberdade de trânsito em contraposição ao trânsito livre, é expressão menor das rebeliões cotidianas do povo brasiliense que tira do chão de barro batido – e da arte que roubou pra si – o seu sentido de liberdade: o Direito à Cidade nasce onde o Direito nasce das Ruas.

 
claro calar sobre uma cidade sem ruínas (ruinogramas)
     
     Em Brasília, admirei.
Não a niemeyer lei,
     a vida das pessoas 
penetrando nos esquemas
     como a tinta sangue
no mata-borrão,
     crescendo o vermelho gente, 
entre pedra e pedra, 
    pela terra adentro.
 
     Em Brasília, admirei.
O pequeno restaurante clandestino,
     criminosos por estar 
fora da quadra permitida.
     Sim, Brasília.
Admirei o tempo 
     que já cobre de anos
tuas impecáveis matemáticas.
 
     Adeus, Cidade. 
O erro, claro, não a lei.
     Muito me admirastes,
muito te admirei.

[Paulo Leminski]

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