Sobre permanências e rupturas: uma Democracia a ser revisitada

Por Aurélio Faleiros, Ladyane Souza e Luiz Carlos Lages

Marchas, movimento, indignação. Parcela do povo toma as ruas. Eis que contra a mobilização popular se ergue a face desfigurada do Estado: repressão policial, crua, brutal.

O que está por trás da atuação da polícia nos recentes protestos que tomam o país? Que ranços, preconceitos, temores, as faces blindadas escondem? Não nos deixemos levar por respostas fáceis: Não nos basta apenas invocar a ditadura, esta pode ter sido um marco, mas é contígua com o que veio antes, e com o que restou até hoje. Autoritarismo e violência são como convidados que excederam sua estadia, mas que lembram sua utilidade com serviços ocasionais, de forma que só o Estado, que toca a casa, tolera suas excentricidades.

O que a atuação da polícia revela, de si e do próprio Estado? Uma pessoa nas ruas, um inimigo a ser perseguido? Fica evidente o tipo de treinamento que a polícia militar ainda recebe: Eis o inimigo em potencial, aqui tens a chance de ser “útil” e aplicar tudo aquilo em que fostes treinado. Cumpre teu desígnio: Doma este caos, nos dê a “ordem”. Dantesco que um órgão de proteção tenha desviado de sua essência, de seu centro, a proteção do ser humano, e afastado tanto de si esta diretriz que tornou-se inclusive incapaz de decidir o que é humano e o que não é:

os manifestantes não são rostos, tornam-se alvos, sob os quais irá pesar uma rígida bota, insensível àquilo que esmaga.

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E assim tornam-se também bandidos. Têm suas ações publicamente criminalizadas como forma de legitimação do uso da linguagem da violência. Colocados como vândalos, baderneiros e criminosos  são desumanizados e têm seus direitos negados. Assim como na favela e na periferia, executa-se a violência como forma legítima de diálogo contra aqueles que já não são dignos de direitos, já não são vistos como humanos. Outra incoerência se revela, um país que utiliza-se de um discurso criminalizante para legitimar suas ações de exceção.  Se reproduz a violência de nossas prisões. “Policia é pra ladrão, manifestante não!”, há que se subverter esse grito, polícia pra ninguém! Não queremos uma polícia que nega os sujeitos e seus direitos, uma polícia que destina apenas a linguagem da violência a determinados grupos. Não queremos essa polícia a serviço de um governo que responde com bombas e pancadas às nossas reivindicações. Uma policia que nos oprime não somente como cidadãos mas também como humanos. E assim,  contra gritos de “sem violência!”, contra flores, contra sorrisos e docilidade, a resposta é única. Poderia ser outra, com o modelo policial que temos?

É preciso dar um basta, não somos criminosos, e mesmo se o fossemos, ainda seríamos cidadãos e temos direitos. Merecemos ser ouvidos, merecemos um Estado que não tente nos calar à força.  A luta é por direitos, por reconhecimento e por visibilidade.

As autoridades soltam a polícia como cães, ou pior, já que os cães ao menos são amigos do homem. A repressão é sem limites, a despeito do nome democracia, ela se esconde no anonimato das fardas para abusar do poder e reprimir manifestantes, jornalistas, toda a sociedade civil. O que diferencia os policiais brasileiros daqueles da Alemanha que tiraram seus capacetes e uniram-se aos revoltosos? Estarão nossos policiais de acordo com os desmandos estatais? Ou o uniforme terá lhes toldado a visão?

Liberdade é nossa palavra de ordem. Não há possibilidade de progresso sem respeito a nossa expressão. Somos o povo. Milhões em marchas, unidos por aquilo que acreditamos ser justo. O sustentáculo da democracia em luta com ela própria, sendo enfrentada pela rigorosa mão estatal, munida de bombas de gás e balas de borracha.

Podemos invocar os tempos já idos da ditadura para justificar os atos, culpar nossa frágil democracia, e mesmo culpar todo o torpor gerado pelo poder de portar armas – “e o fascismo é fascinante deixa a gente ignorante fascinada”, mas a verdade é que cabe a nós, agora, questionar esse comportamento, questionar nosso modelo de polícia e de democracia, e perguntar a todos, com gritos e cartazes: onde está nossa liberdade?

As ruas, dominadas pela vontade popular, são alvos de comentários de todo tipo, do caos gerado que atrapalha o trânsito, que se levanta na contramão atrapalhando o sábado, e isso é interpretado como violência. Mas o importante é reconhecer que a violência vem antes, a violência vem da falsa democracia que nos bate à porta todos os dias, que aumenta o preço de passagens de gente que não tem nem o alimento básico garantido e espera silêncio. A violência vem do estado ineficiente, da falta de educação e do nosso nada saudável panorama social, do povo oprimido nas ruas, nas vilas, favelas. Violento é um Estado que responde com bombas e pancadas à demandas essenciais que são negadas por ele próprio.

Aprendamos pois a chamar depressa de realidade o que vemos hoje, e nos apressemos em tomarmos a parte que nos cabe dela, gritemos, cantemos, um brinde a despeito de toda forma de opressão.

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One thought on “Sobre permanências e rupturas: uma Democracia a ser revisitada

  1. Polícia para todos! Todos não só têm direito como merecem a boa polícia, aquela assevera a segurança das pessoas e bens, sobretudo através da aplicação da lei.

    Não há dúvida que essa instituição, assim como todas as existentes, possui inúmeras deficiências e tem cometido inúmeras falhas, assim como há vândalos que não representam a filosofia da manifestação. Agora, será que uma militância eficaz e justa é feita tratando a “polícia” como um todo uniforme, como um todo condenável? Mesmo sob essa análise, será a polícia braço autônomo do Estado ou será que ela basicamente responde aos comandos desse cérebro? Diante dessas considerações, será ainda que é razoável exigir do policial brasileiro a mesma forma de atuação de um policial alemão (sem falar que a analogia não se aplica por diversas variantes fáticas)?

    A Polícia somos nós! A Polícia anda de ônibus e também se alimenta a duro custo!

    https://www.facebook.com/video/video.php?v=637452516282283

    A militância, quando mal feita – mesmo nas melhores das intenções- reduz-se a uma espiral do uso da linguagem da violência. Atenção!

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