“Salve-se quem quiser, perca-se quem puder!”¹ – Marcha pela Vida e pela Família (04 e 05 de junho de 2013.

*Por Edson J. D. de Sousa

primavera-em-preto-e-branco_1991_ricardo.cruzeiro_brEstamos plenos em outono. Brasília, a Flor do Cerrado, quedou-se, inerte, ante o peso de suas lutas – e de suas marchas. Seca fria; matreira. Plena em outono, plena em transições e flores caídas ao chão. O outono é o período da desova das folhas, o momento em que a Roda da Fortuna, entre ganhos e enganos, dá novos significados à vida – mas nem sempre é simples encontrar sentidos que inovam enquanto rumam a desfiladeiros de ignorância e inverno. Pés ignotos, enraizados, pisaram Brasília. As quadras e espaços vagos atulharam-se, desta vez, não de margaridas, mas de malafais e cercas velhas; de cânticos e cartazes e imprecações. Em apenas dois dias, centenas de milhares de pessoas apinharam-se, umas sobre as outras, e se espalharam, como limo, em marchas pela vida e pela família. Estiaram-se carícias, abraços, toques, transas – diversidades – em nome de dogmas recalcitrantes. Fórmulas fastidiosas, monolíticas e sem sex appeal foram defendidas, do púlpito, por pastores deputados bolsonaros. Discursos inflamados fulminaram o colorido de nossas famílias. Família de um só botão. De dois. De três. De quatro – pecado. Extirparam a variedade – e o Kama Sutra – de nossos amores. Invadiram meus vícios, danaram minhas perversões; ‘melhor morrer de vodka do que de tédio!’², disse a folha intrépida, antes de se embebedar de ventania.

Opressões iníquas foram prolatadas nas marchas pela vida e pela família; em marcha ré, a opinião pública percorreu as trilhas pantaneiras do Planalto. Sob o tremor dos passos ruidosos dos cruzados, o Estatuto do Nascituro – e a ‘Bolsa-Estupro’ – foi aprovado pela Câmara dos Deputados, aguardando apenas o aval da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) para ser colocado em votação perante o Senado Federal. Aquartelados em suas certezas, a quimera consome os que creem no fim das estações – parciais. É o outono metade anjo, metade diabo. Manso, ameno; inquebrantável, porém.  De caráter agradável, faceiro, a temporada das folhas que caem é a alvorada – fatal – do reencontro de Brasília com seu colorido e com seus ipês roxos de feminismo. A Brasília outonal, plena de si, é a cidade que se resguarda do arfar mortal enquanto suas raízes e seu caule encastelam-se à espera do combate – desejável. O ciclo da vida perpetua-se. Padrões bulas valores mandamentos dissolvem-se; o amor transborda famílias em qualquer taberna, em qualquer suruba, em qualquer sentir-se.

Por enquanto, prevaleceu a ‘cultura da morte’; o tempo da lei em contraposição ao tempo do amor. A igreja – e suas bruxuleantes marchas pela vida e pela família tudescas – como templo insigne da recusa, do embotamento, do descompasso. A marcha pela vida está em outro lugar; o amor bebe d’outro cálice – não, certamente, da taça de sangue que nos oferecem.  A família a ser perscrutada é a que dá asas e violinos aos seus filhos e filhas, não a que castra e dilui sonhos em penitências. Marchar pela família é sair da caverna asfixiante da estirpe patriarcal e imaginar outros mundos possíveis; é acreditar na ideia radical de que mulheres são gente. Crer na vida como caminho – e projeto político – também é defender o aborto irrestrito em alto e bom som, é exigir normas jurídicas que resguardem amores e dissabores diversos, além de pretejar a alvura monocromática de nossas universidades brancas brancas; acreditar na vida é questionar a própria vida vivente. Outonos se estiolam, folha por folha, e, mesmo assim, a ‘cultura da morte’ opõe resistência – áspera. Faz-se, portanto, ainda mais necessário que todos e todas, bem juntos, marchem. A Última marcha será – frutificada em barricadas salpicadas em arco-íris – uma grande confraternização em que todas as cores e todos os amores, enredados, celebrarão, entoando em uníssono a mesma cantilena, a chegada à estação e ao evento para os quais todas as lutas e todos os esforços de todas as eras levaram: a Primavera dos Povos, aguardada sempre, entre jasmins margaridas poesias.

“[…]Os amores na mente
As flores no chão
A certeza na frente
A história na mão
Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Aprendendo e ensinando
Uma nova lição”

[Pra Não Dizer Que Não Falei Das Flores – Geraldo Vandré]

(1)  Paulo Leminski, o punk parnasiano.

(2)  Vladímir Maiakóvski, o Colombo de novos continentes poéticos.

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