Dona A.

Por João Victor Fiocchi

Da caminhada, o encontro.
Pelo só fato de ser, ensinou.
Não pela idade avançada
– os sábios são inférteis
nos limites dos muros.

Ensinou.
Eram as suas marcas.
Elas falavam e impunham sua existência.
Ela as trazia consigo.
Ela as trazia: olhe!

Mãos trêmulas tropeçam na assinatura:
o embaraço.
Pressão latente transborda:
a lágrima aprisionada, a pausa.
Idade avançada, família pra cuidar, processo:
o medo.

Corpo danificado
para além da ação do tempo.

Você, trabalho vivo mortificado
Você, corpo gasto pelo(a) Capital
Você, à flor da pele
Você, presença viva:
dialética exposta de uma promessa que nunca foi.

Acompanhar-te é expor-me,
é segurança momentânea, talvez
Despedir-me é expor-te
novamente, e como sempre,
à suspensão habitual.

Esqueço-me de que lhe é corriqueira a suspensão,
E me despeço de ti com um beijo no rosto,

Dona A.

Como quem se despede de gente.
Mas não é facultado rememorar que se é.
Não a você.
Você é.
Na calma branda e suave
de quem se subleva e grita sem fazer ruído algum:
Aqui estou!

Grito inscrito na mão trêmula.
Grito de uma lágrima proibida.
Grito da família a sustentar.
Grito do corpo que se apresenta.
Aqui estou!

maos_cansadas

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