Mundo sem Mulheres: sobre pessoas e papéis

Por Gabriela Tavares[1]   

No último dia do mês de março estreou no Fantástico o quadro “Mundo sem Mulheres”. A trama consiste em tirar onze mulheres de seus lares durante uma semana e filmar a vida das suas famílias nesse período. O objetivo é, meramente, aguentar a vida cotidiana.

Em um primeiro olhar, apenas mais um enredo chamativo e divertido para o programa de domingo na rede aberta. É um tanto quanto engraçado assistir aos maridos tentando conversar com as crianças e completamente perdidos nas tarefas mais básicas: manter a casa limpa, preparar comida e cuidar dos filhos. Olhando mais atentamente, contudo, percebe-se que há várias implicações interessantes dessa experiência. Comecemos pela propaganda da internet:

“O Fantástico quer saber: será que eles vão aprender a ser mais compreensivos, mais pacientes? E a valorizar o sacrifício que nós, mulheres, fazemos pela família? É o que a gente vai ver a partir do primeiro episódio da nova série do Show da Vida!”

06Compreensão e paciência são atributos exclusivamente femininos na visão do Fantástico. Além disso, o trabalho que a mulher faz dentro de casa pela família é chamado de sacrifício. O que o Show da Vida propõe de maneira leviana nos faz pensar: existe um papel reservado às mulheres dentro de casa? Na sociedade? Se sim, qual é esse papel?

Após a saída das mulheres os maridos remanescentes preparam uma grande festa com o tema: finalmente! Parece um sonho em comum se livrar de suas esposas. É meio estranho, afinal, casamento é algo consensual hoje em dia e não há mais motivos para ficar com alguém que se quer ver pelas costas. Façamos um esforço para entender isso apenas como uma piada.

Primeiro dia. O pai prepara a comida do filho que faz uma expressão de insatisfeito e conta formigas no purê de batatas. “Formiga faz bem para a vista”, responde o pai, enquanto reclama de ter de preparar almoço, janta e, ainda por cima, limpar a cozinha duas vezes por dia.

Algumas palavras são comuns durante o quadro. Sobreviver é falado algumas vezes. O questionamento é se homens com seus 30 a 50 anos conseguem sobreviver durante uma semana sem mulheres.

A resposta é óbvia: claro que sim! É bem fácil viver sem mulheres, muita gente vive. Difícil é manter a família de televisão com almoço na mesa todo dia, camas feitas e filhos saudáveis. Isso sim é reservado às mulheres. É responsabilidade delas manter o lar aceitável para os padrões de comercial de sabão em pó. Tente ser uma esposa que não faz isso e verá o que será dito. Na sociedade, a mulher deve se “sacrificar” pela sua família, não o homem, nem os filhos.

05Até hoje a família não representa uma célula de esforços conjuntos para atingir um objetivo. Pelo contrário, os papéis de cada pessoa são fechados e determinados. A esposa cria os filhos e cuida da casa, ela pode trabalhar se quiser, mas não pode se desleixar com sua posição. O marido trabalha e sustenta família, se for um excelente marido ajuda nas tarefas de casa. Os filhos obedecem aos pais. Isso é família da propaganda de sabão em pó.

Por óbvio, não é essa a crítica que o Fantástico propõe com o quadro. O esperado é que depois de três ou quatro dias os maridos admitam que não conseguem viver sem as mulheres, pois são incapazes de fazer o que elas fazem. A partir disso, a lição de moral é: valorize sua mulher. Não é de tudo uma mensagem ruim, mas isso pode ir além.

09Não espero que, efetivamente, um programa de domingo na televisão aberta proponha uma discussão aprofundada sobre papéis sociais e a importância de se subvertê-los para uma sociedade mais igualitária. Longe de mim esperar isso!

Da mesma forma, não espero que o programa adentre nas diversas perspectivas que uma célula familiar pode agregar. A programação na televisão aberta é heteronormativa por excelência, portanto, não acredito que haveria o quadro “Vida sem Parceiro/a”, no qual o cotidiano de casais homoafetivos seja abordado sem preconceitos – apesar de tal experiência ser bastante interessante para analisar, justamente, os papéis definidos nesse tipo de relacionamento, as opressões, as vantagens etc.

O que eu realmente espero é que esse programa que alcança milhares de famílias, incluindo a minha e a sua, possibilite uma visão crítica de nós mesmos quanto aos nossos companheiros, irmãos e pais. Se dez pessoas que assistirem ao programa puderem repensar suas expectativas quanto cada um dos membros de sua família já estaríamos dez pessoas mais perto da liberdade.

A cultura determina os papéis familiares e sociais. Questioná-los significa procurar de que forma essa determinação ainda é adequada à cultura atual. Na minha opinião, não se justifica a separação homem/mulher dentro de um relacionamento, uma vez que não existe a necessidade de plantar, caçar ou proteger nossas ocas. Além disso, não há mais religião que determine nossa forma de viver, pois deus está morto para o Estado – em teoria. Questionemos, pois, e observemos como se dará a vida desses maridos durante uma semana sem uma escrava em casa.

01As reminiscências desses papéis, geralmente, representam uma estratégia muito perversa de opressão e reserva de poder a um determinado grupo. Por essa razão, sempre tento me determinar independente disso – respeitando os limites do meu paradigma, obviamente. Portanto, quando chegar a hora de construir uma família, pretendo fazê-la do zero: sem esperar nada de alguém pelo seu gênero, idade, posição social. Um mundo sem papéis é um mundo de liberdade, no qual cada indivíduo desenvolve suas capacidades naquilo que lhe é mais prazeroso ou necessário.  Um mundo sem papéis permite reinventar, reconstruir e reorganizar a todo momento. Nesse mundo, o quadro “Mundo sem Mulheres” se quer faria sentido.


[1] Essa pessoa é absolutamente viciada em reality shows, e poderia passar uma tarde inteira assistindo a um programa que filma comedores compulsivos de azeitonas. Além disso, feminista assumida não consegue olhar para nada sem perceber as nuances de gênero envolvidas. Portanto, não há imparcialidades aqui, só pensamentos bastante subjetivos.

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