A páscoa, o Cristianismo e o deputado

Por Fernanda  Potiguara   

04Feriado religioso… É a páscoa, o momento em que o comércio de chocolate bomba, as pessoas pagam felizes pequenas fortunas para trocarem ovos de páscoa (que de cristão não têm nadinha). De vez em quando um programa de televisão solta um documentário sobre como Cristo foi um excelente líder político e como seus discípulos construíram a figura do Deus na terra, calando Maria Madalena, sua possível amante… Teoria famosa por Dan Brown. Mas COM CERTEZA, nesta páscoa, tudo isso teve um gostinho diferente.

Com o tumulto causado pela escolha do Deputado e Pastor Marco Feliciano para ocupar o cargo de presidente da pequena, mas não menos importante, comissão de Direitos Humanos e Minorias, não era possível se falar em religião durante esse feriado sem tocar neste assunto emblemático. Passemos a ele, portanto.

03Não se pode negar que assim que o pastor foi indicado para a Comissão começou-se uma verdadeira caça às bruxas, deslocando o foco de outras questões políticas importantíssimas, como, por exemplo, a presidência de Renan Calheiros no Senado… De todos os lados saíram notícias que comprovavam matematicamente que o pastor era não só racista e homofóbico, como um estelionatário de primeira. Houve verdadeira varredura na vida passada do deputado, para se coletar tudo, absolutamente tudo, que o pudesse denegrir. E de fato, não foram poucas as acusações encontradas, e multiplicadas em tamanho pelo “excelente” trabalho que a mídia faz sempre que está particularmente interessada em um assunto. Foram negritadas frases do twiter, pregações no púlpito, que revelavam pensamentos ofensivos não só aos/às homossexuais, mas aos/às negros/as e às mulheres.

Apesar da identificação imediata feita nas conversas informais entre esses posicionamentos do pastor com o Cristianismo em si, tais conexões passam longe de uma similaridade.

Por exemplo… Definitivamente, foram, no mínimo, estúpidas, as postagens twittadas pelo pastor quanto à descendência amaldiçoada de Noé, que teria recebido a marca da negritude. A única vez que a Bíblia trata de uma marca colocada por Deus antes de Noé se deu em Caim, depois do assassinato que cometeu contra seu irmão, Abel. A marca não era uma maldição, mas uma proteção contra quem quisesse matá-lo para vingar Abel, e nada tem a ver com os negros. A passagem que o pastor trás é da maldição que Noé profere contra seu filho Cão, por ter ele caçoado de seu pai, que, num ato de embriaguês, ficara nu. Essa é uma maldição oral, nada tem a ver com marca física ou cor de pele.

De fato, o afirmado contra os negros não passa de uma teoria teológica sem o menor fundamento bíblico.

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Da mesma forma os comentários sobre a condição feminina passam longe daquilo pregado pelo próprio Cristo, que colocou as mulheres numa situação tão peculiar à época. Foram elas que mostraram lealdade, permanecendo com Cristo durante a crucificação, sem medo do ônus que isso causaria, e foram elas que se dispuseram a, findo o sábado, preparar o corpo de Cristo. Toda essa fidelidade não ficou sem recompensa… A visão do Cristo ressurreto foi dada duas vezes às mulheres antes mesmo de ser anunciada aos discípulos.

Durante toda sua trajetória, o cuidado com as mulheres foi excepcional, como o caso da mulher adúltera ser apedrejada, a mulher prostituta que derramou alabastro aos seus pés, ocasião na qual Cristo a exalta como superior à elite que o acolhia em casa, ou no caso da viúva que depositou uma oferta miserável no templo, que era condenada pelos que a viam mas que foi exaltada por ele, ou a cura da mulher com fluxo de sangue… Tantos casos de honra a nós mulheres perante os sacerdotes homens da sociedade, que tornaram muitos dos seus atos incompreendidos.

02Não há episódio expresso de Cristo quanto à homossexualidade, mas como alguém que cumpriu na íntegra a lei judaica, sabemos que sua posição era a de que tal conduta não era a maneira planejada por Deus para os/as homens/mulheres. Mas o seu ensinamento não foi de luta contra “carne ou sangue”, ou seja, não foi de humilhação pública ou violência. A sua arma era a transformação pelo amor e não pela guerra.

Que neste finzinho de feriado lembremos disso. Que a postura do pastor Marco Feliciano foi, eufemisticamente, infeliz, destoando bruscamente do que seria seu papel à luz da Bíblia. Que o que Cristo ensinou foi a amar, a ensinar em amor, a aconselhar naquilo que era o propósito de Deus para os/as homens/mulheres; que é a felicidade em plenitude.

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