Ter razão…

Por Felipe Pereira   

monstro1Em o “Médico e o Monstro”, R. L. Stevenson expõe o trágico destino do Dr. Jekyll ao tentar isolar, em duas personalidades distintas, tudo o que havia de moral e amoral presente em si. Nesta tentativa, deu origem a Mr. Hyde, figura sombria, livre de qualquer limite estabelecido pela moral – restrita somente a satisfação de seus próprios desejos. Como contraparte, porém, restou Jekyll, cuja personalidade permaneceu, entretanto, inalterada – era a mesma pessoa que sempre fora. As aparições de Hyde, antes determinadas pelo médico, começaram a se dar de modo alheio ao seu controle, tendendo a dominá-lo por completo.

 A proposta a qual Jekyll se submete – isolar em entes diversos as manifestações de mais alta (e ausência de) moral – não se difere muito de tendências perceptíveis na nossa realidade. Sob o pretexto da busca pelo esclarecimento, acabam-se por criar verdadeiros monstros – intransigentes e intolerantes.

Dentro desta analogia, entretanto, Jekyll mostrava-se mais franco quanto aos seus propósitos: sabia o que estava criando e tinha consciência do meio através do qual esta se manifestaria, em oposição às máscaras que pretensiosamente buscam encobrir ideias segregadoras sob uma face supostamente universalizante (e que acabam por travestir-se daquilo que buscam, de fato, combater).

monstro3Estas, quando vistas como a única solução para o mundo, tem efeitos nos humanos semelhantes aos da poção de Dr. Jekyll. A negação do diálogo, a clausura ideológica, a busca incessante por separar “o joio do trigo” – desse modo, o monstro nos consome, e esteriliza o potencial transformador contido neste pensamento. Afinal, o que de bom pode vir de uma ideia que não busca contemplar de melhor maneira possível a coletividade? Que se vê como eleita e exclui por tabela toda e qualquer contribuição positiva que possa se fazer presente nas outras?

Na própria obra, a oposição que Jekyll faz a Hyde demonstra que não necessariamente o contraponto ao “mal” puro não é o bem, imaculado; mas, sim, o que aquilo que é capaz de fazer um intermédio entre esses extremos. Da mesma forma, uma ideia só é capaz de sobrepor a um pensamento totalitário se aquele que a defende o faz numa perspectiva aberta a transformação, submetendo-a a um exercício de autocrítica.

monstro4Todos são capazes de criar este monstro. Independe de posicionamento político, convicção religiosa, orientação sexual… Aliás, talvez esta seja a única característica positiva que ele possui – não é produto exclusivo de uma corrente ideológica, mas surge a partir de qualquer espécie de crença que se vê como solução hermética para os problemas que enfrentamos.

O monstro é inevitável. A partir do momento em que se abraça uma razão, ele vai estar lá, num grau controlado, ou pronto para bater de frente com o que tenta lhe contradizer. A história de Jekyll nos aponta o erro – tentar negar esse monstro só o reforça e dá ensejo para que ele tome o controle. A solução é saber controlá-lo – mantê-lo lá com força suficiente para que a ideia não morra, mas subjugado ao diálogo e a crítica necessárias para que esta seja passível de transformação.

…é impor

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