Comuna de Paris – seus artesãos, suas artesãs*

Por Edson de Sousa    

Barricade in the Rue Castiglione

As ruas de Paris foram já muitas vezes tingidas de sangue rubro e popular, mas nunca talvez como ocorrido durante os pouco mais de dois meses em que se transcorreram a ascensão e a queda do governo revolucionário da Comuna de Paris. Calcula-se que mais de 30.000 pessoas foram sumariamente fuziladas pelas dezenas de tribunais marciais instaurados nos bairros populares da Paris insurgente após a derrota do novo regime. Outros tantos e tantas tombaram anônimos nos campos de combate ou não resistiram ao duríssimo cerco mantido pelas tropas francesas na metade ocidental da cidade – o território oriental então estava controlado pelo poderoso exército prussiano, resquício da guerra recentemente perdida[1]. Os e as sobreviventes ficarão encarcerados ao longo de todo o périplo francês de colônias penais. Dezenas de milhares serão deportados e nunca mais retornarão à sua terra natal. A maior parte será esquecida. A dura repressão oficial não se restringiu a matar a parte viva da cidade de Paris, mas também mortificou a história e os motivos dos comunardos.

Comuna tratava-se de um ato revolucionário total[2]. Também a insurreição de Paris, como antes e depois, inicia-se a partir da voz de revoltosas. São mulheres as primeiras a se levantarem contra o esfacelamento da França em interesses de mercado injustos. As mulheres de Montmartre – um bairro pobre da capital parisiense –, ao se colocarem entre o canhão do populacho[3], atrás, e as baionetas dos soldados franceses, à frente, conquistaram a simpatia de vários populares que engrossavam as fileiras dos batalhões oficiais; com a adesão desses soldados, a revolta se espalha rapidamente, e de forma espontânea, por todos os bairros populares de Paris. A ‘efervescência vulcânica’ das mulheres de Montmartre ateia fogo à capital do mundo do século XIX. Outros grupos profanam retumbantes as avenidas limpas e largas em que a burguesia se exaltou ao construir. “Todo o espaço está já ocupado pelo inimigo…” [4]. A Comuna de Paris é a grande Confraternização dos Povos; por dois meses a capital da Festa e da desforra da classe trabalhadora de todo o mundo sobre seus opressores. Também os estrangeiros confraternizam-se. Além dos poliglotas e inflamados integrantes da Internacional Comunista, bem atuantes durante o período, houve a preponderante participação de contingentes de negros argelinos durante a insurreição. A Tropa-Negra, como ficou conhecida essa guarda durante a Comuna, era inicialmente um grupo de atuação local presente na Argélia colonizada; combateram como bucha de canhão na Guerra Franco-Prussiana; milhares morreram incógnitos. Oprimidos em seu território, os Spahis desempenharam papel militar e político inquestionável durante os dois meses de revolta. Vários de seus lideres ascenderam a postos de confiança no exército revolucionário e como delegados no regime. Eram a ponta-de-lança das forças populares frente ao exército francês mais bem equipado – e que, assim como nas lutas por emancipação de seu próprio país, foram silenciados e excluídos pelo discurso da História Universal.08

A Comuna foi uma poderosa manifestação de vontade popular, o que, por si só, já questiona profundamente a conservadora cultura política europeia que até aquele instante mantivera-se incólume à ascensão de líderes da raia miúda. A participação dos Comitês Distritais ao longo de toda Paris – que em muito se assemelharão, futuramente, à participação ativa dos sovietes durante a Revolução Russa – garantiram a emergência de um governo eleito com a maioria de seus representantes oriundos das classes trabalhadoras. Os operários e artesãos pobres de Paris, com o sufrágio, puderam eleger representantes seus autonomamente – os comunardos não pautaram a presença de mulheres nas eleições desde o inicio do movimento insurrecto. O surgimento de diversas cooperativas de trabalhadores, sem patrões, engendrou avanços incomensuráveis na forma como o trabalho era gerido pelos moradores e moradoras da capital francesa – autogestão. O produto do esforço dos diversos produtores seria igualmente apropriado por todos e todas – não mais privado por alguns. As oficinas comunais e os comitês distritais de deliberação contribuíram para a metamorfose das práticas sociais em um cenário no qual ‘o trabalho, a alegria, o ócio, a satisfação das necessidades – e antes, das necessidades sociais e das necessidades de sociabilidade – não se separam mais’[5].

Comuna de Paris, ao buscar implantar-se enquanto espaço de integração e de participação da população parisiense, inaugurou uma nova maneira de se compreender o fenômeno político na sociedade contemporânea. O espaço social, sua arquitetura, sua distribuição e sua gênese, seus recortes, seus símbolos e seus monumentos inertes, mas não inocentes, são expressões do político.  A cidade de Paris em sua totalidade – seus bairros e suas periferias incultas, as avenidas limpas e salubres do Barão Haussman, o ‘Intendente de Paris’[6] – são fruto de equilíbrios, assimetrias e estratégias de classe. A cidade é palco e, concomitantemente, objeto na luta de classes latente na França. A expressão de Henri Lefebvre – e do movimento situacionista[7] – faz-se verossímil: ‘A Comuna representa a única tentativa de um urbanismo revolucionário’[8]. Os comunardos romperam com a Cidade-Dominadora quando de seu combate à contradição de termos da vivência de uma Paris que integra desintegrando seus habitantes – que inclui ao segregá-los. A importância universal que adquire a Comuna de Paris deve em muito à possibilidade que ela instaura na busca por alternativas à concepção capitalista de Cidade. Os revoltosos se colocavam enquanto anticapitalistas e representantes da soberania popular dos parisienses sobre Sua Cidade. Enquanto construtores conjuntos, no anonimato do dia-a-dia, os artesãos e artesãs de Paris recobravam com Sua revolução o valor de uso – em contraposição ao valor de troca – ao se apropriarem e ao dizerem sua cidade. A vontade dos insurrectos de ‘tomar sobre si o destino e a estória de suas vidas, não somente no que concerne a decisões políticas, mas também ao nível da cotidianidade[9]’ perpassava sua prática urbanística. As transformações implementadas ao longo dos dois meses de governo do Comitê-09Central[10] desmascararam o racionalismo autoritário das melhorias cívicas e as mazelas da fruição estética que sustentava a separação da população de Paris em bairros ricos e pobres.  A Comuna criou seus símbolos próprios. Erigiu, ou tanto melhor, apropriou-se, de Sua própria Obra – todas as ruas, todas as avenidas e todos os edifícios da capital do mundo. Ser anticapitalista é, segundo a lição eloquente dos comunardos, revalorizar a Cidade e o espaço social todo enquanto Obra da classe trabalhadora mundial – e sua por direito. Direito à Cidade.

Comuna de Paris, segundo Lefebvre, confunde-se mesmo com a ideia de Revolução. Replica-se: principalmente por suas derrotas. Ela apresenta as contradições e os fracassos de um processo amplo e profundo de transformação do real. Possui a participação massiva dos diversos grupos unidos pela exploração capitalista – e mesmo anterior – e segregados pelas fraturas sociais construídas ao longo de gerações. Abismos de incompreensões e incongruências limitam – e mesmo neutralizam – a capacidade revolucionária das camadas populares atuais e passadas. Ainda assim a Comuna de Paris se impôs. Mesmo diante da impossibilidade fática das grandes transformações, a Comuna logrou seus louros e adentrou a História. Em ato, antecipou o possível e impossível em suas propostas políticas, mesmo que não aplicadas ao contexto de sua confecção. Congregou o impossível de ser unido – homens e mulheres, estrangeiros, negros e crianças em uma mesma frente de luta. Sob a mesma chuva primaveril avançaram e recuaram. Pereceram lado a lado. A Comuna de Paris, revolta espontânea, é revolucionária exatamente por não ser possível. ‘A maior medida social da Comuna foi a sua própria existência em ato… Paris, toda verdade, Versalhes, toda mentira.[11]’ A Comuna de Paris foi uma Festa, a maior do século XIX[12]. Confraternizaram-se todos os artesãos e artesãs que diariamente mantêm viva a tradição e o caráter da Cidade como espaço de convergência, como lugar de livre fruição de todos os sonhos e todas as utopias que, certamente, serão possíveis algum dia. Cidade e Revolução entrelaçam-se, carnalmente, fraternalmente, na Festa. A Comuna de Paris era uma participação festiva da multidão que desfrutava de Sua Obra; neste sentido ela é imortal, neste sentido a desforra dos comunardos e a nossa ainda não acabou, 142 anos depois.

*A Comuna de Paris iniciou-se, nos bairros populares da capital francesa, em 18 de março de 1871. Desde então, a Primavera retorna – já 142 vezes – trazendo seus brotos, suas flores e seus encantos para ornamentar ainda mais a bela confraternização que certamente chegará um dia.


[1] A guerra em questão foi a chamada Guerra franco-prussiana ou Guerra franco-germânica (19 de julho de 1870 – 10 de maio de 1871) foi um conflito ocorrido entre França e o Reino da Prússia no final do século XIX. Durante o conflito, a Prússia recebeu apoio da Confederação da Alemanha do Norte, da qual fazia parte, e dos estados do Baden, Württemberg e Baviera. A vitória incontestável dos alemães marcou o último capítulo da unificação alemã sob o comando de Guilherme I da Prússia. Também marcou a queda de Napoleão III e do sistema monárquico na França, com o fim do Segundo Império e sua substituição pela Terceira República Francesa. Também como resultado da guerra ocorreu a anexação da maior parte do território da Alsácia-Lorena pela Prússia, território que ficou em união com o Império Alemão até o fim da Primeira Guerra Mundial.

[2] (Henri Lefebvre, La Significacion de La Comune, 1962).

[3]Guarda Nacional, força de defesa popular do território francês, durante a Guerra Franco-prussiana, durante o cerco final das forças germânicas sobre Paris, adquiriu diversos canhões com recursos dos próprios combatentes. Com o fim do conflito, o exército francês requer a artilharia comprada com recursos não públicos, provavelmente pelo medo que pairava já então de uma revolta popular dos moradores e moradoras de Paris e arredores. O impasse se dá quando um grupo de mulheres, as Mulheres de Montmartrese coloca entre as baionetas dos soldados impedindo que o canhão do populacho seja levado. A insurreição da população de Paris tem inicio a partir desse episódio da questão do armamento da Guarda-Nacional.

[4] (Guy-Debord & Outros, 14 Teses sobre a Comuna, 1962).

[5] “Se metamorfosea de um salto em comunidade, em comunión, em el seno de la cual el trabajo, la alegria, el ócio, la satisfacción de las necesidades – y ante todo de las necessidades sociales y de las necessidades de sociabilidaded – no se separarán más.” (Henri Lefebvre, La Significacion de La Comune, 1962).

[6] Georges-Eugène Haussmann (Paris, 27 de Março de 1809 — Paris, 11 de Janeiro de 1891), largamente conhecido apenas como Barão Haussmann – o “artista demolidor”, foi prefeito do antigo departamento do Sena (que incluía os atuais departamentos de Paris, Hauts-de-Seine, Seine-Saint-Denis e Val-de-Marne), entre 1853 e 1870. Durante aquele período foi responsável pela reforma urbana de Paris, determinada por Napoleão III, e tornou-se muito conhecido na história do urbanismo.

[7]Internacional Situacionista (IS) foi um movimento internacional de cunho político e artístico. O movimento IS foi ativo no final da década de 1960 e aspirava por grandes transformações políticas e sociais. A primeira IS foi desfeita após o ano de 1972. Tem como um de seus nomes mais expressivos, Guy-Ernest Debord (1931-1994), escritor de A Sociedade do Espetáculo. Um dos contribuintes mais importantes à IS foi o próprio Henri Lefebvre.

[8] “La Comuna representa hasta nosotros la única tentativa de um urbanismo revolucionário.” (Henri Lefebvre, La Significacion de La Comune, 1962).

[9] “[…] La vontad de los insurgentes de volverse los dueños de su vida y su historia, no solamente em lo que concierne a lãs decisiones políticas sino al nível de la cotidianeidad.”

[10] Entre as principais medidas do Comitê-Central, encontram-se: Fixou a remuneração mínima do trabalho; foram tomadas medidas de proteção do trabalho e de luta contra o desemprego; de melhoramento das condições de moradia e do abastecimento da população. A Comuna preparou a reforma escolar, fundamentada no princípio da educação geral, gratuita, obrigatória, laica e universal. Tiveram extraordinária importância os decretos sobre a organização de cooperativas de produção nas empresas abandonadas por seus donos; a implantação do controle operário; a elegibilidade dos dirigentes de algumas empresas estatais. Na sua política exterior, a Comuna se guiou pelo empenho de estabelecer a paz e a amizade entre os povos.

[11] (Guy-Debord & Outros, 14 teses sobre a Comuna, 1962).

[12] (Guy-Debord & Outros, 14 teses sobre a Comuna, 1962).

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