As grades (curriculares) e a multidão

Por Sorhaya  Rodrigues   

laeducacionprohibida01-601x275E a “multidão*” olha para os muros das escolas e universidades e percebe que o aprendizado não deve se restringir a fases da vida ou a instituições, as boas ideias, as inovações devem transcender os muros destas e de outras instituições, a possibilidade de transmitir conhecimento não deve estar restrita a poucos iluminados, mestres, doutores e seus diplomas e certificados, pois o conhecimento deve ser fluido, livre e acessível e não aprisionado em grades curriculares.

Nesse contexto de transformação das percepções acerca dos processos educacionais tradicionais, assistimos ao surgimento da percepção de que “a educação continua a mesma coisa; útil para que a cultura permaneça sempre igual e sempre se repita”[1],  a percepção de que o paradigma educacional que nos foi imposto possui funções não declaradas e  que “… a escola e os processos formativos não são apêndices da sociedade, mas parte constituída e constituinte dela”[2], surgem novas alternativas de aprendizado que vão se desenvolvendo fora das salas de aula, ocupando parques, jardins, coletivos, o chão das universidades, plataformas on-line e ganhando cada vez mais destaque.

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Estamos caminhando a passos largos para a realidade cada vez mais concreta do conhecimento colaborativo, do Crowd learning, do Crowd Funding, do Crowd Sourcing, do MOOC (Massive Open On Line Course), das técnicas de aprendizado baseadas em execução de projetos, das escolas democráticas[3], da extensão e mais uma infinidade de inovações que procuram subverter a lógica verticalizada, hierarquizante, antiquada e tolhedora de potenciais da sala de aula tradicional, local onde o/a aluno/a não é, de maneira alguma, elemento ativo, participante na construção do saber, e sim adestrado através da repetição, adestramento que poderá levar ao “êxito” em vestibulares e concursos.
(Cabe aqui falar sobre a lucrativa lógica da competitividade impregnada no atual sistema de ensino, contudo, poderíamos nos perder do tema central do texto, as inovações que subvertem a lógica da sala de aula. Porém, deixo aqui uma sugestão de filme que ilustra bem a lógica da competitividade no ensino: “Os Três Idiotas” – deixarei o link do filme completo ao final do texto[4].
Só a título de curiosidade: na Índia os/as  jovens morrem mais de suicídio do que de qualquer outra causa. A competitividade do sistema é insustentável para muitos/as.)

Segundo Tião Rocha, educador, antropólogo, fundador do Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento, organização não governamental sem fins lucrativos, criada em 1984, em Belo Horizonte (MG),  “é possível fazer educação sem escola”, entendo aqui a palavra escola no sentido da atual configuração do ensino básico, médio e superior.  “Não precisamos de sala, precisamos de gente. Não precisamos de prédio, precisamos de espaços de aprendizado. Não precisamos de livros, precisamos ter todos os instrumentos possíveis que levem o menino** a aprender. Não podemos ter um modelo como a escola, que deixa a maioria para trás, aproveita o mínimo e vai “informando” gente que não é crítica, que não pensa, que não age, que não é bom cidadão.” . Esta fala do educador  Tião Rocha me faz pensar em extensão. Na prática extensionista o importante não é a sala, são as pessoas, não há uma figura de autoridade como um professor, pois  “aluno” ,“professor” e “extensionista”  são a mesma pessoa, todos têm algo a aprender, assim como têm algo a ensinar, todos são elementos ativos no processo e têm seus espaço de protagonismo.o sistema é insustentável para muitos/as.)

glossario_tecnologias_educacaoAcredito com entusiasmo no sucesso das redes “crowd” e nos novos modelos de educação e trago aqui o trailler do filme independente “Educação Proibida”, que foi inteiramente financiado por doações por meio de uma rede de crowdfunding. A proposta era fazer com que os doadores também se tornassem coprodutores do filme.

http://youtu.be/BPME2GHBe9s

PS:  Após a formação do PET neste final de semana, a ideia de educação fora dos muros ficou ainda mais clara para mim. Obrigada pelos momentos de trocas e reflexões nessa formação linda, obrigada pelas risadas, pelas rodas de discussão, pelas dinâmicas e tudo mais!

*Coloco aqui multidão fazendo referência ao termo”crowd” , multidão em inglês.
** O autor usa “o menino” de forma genérica, portanto, leia-se os meninos e meninas.


[1] Tradução livre da fala de Ginés Del CaStillo da Escuela de La Nueva Cultura La Cecilia, Argentina para o trailler de “A Educação Proibida”

[2] Glaudêncio Frigotto, ver: As reformas educacionais no Brasil, Dermeval Saviani (videoconferência)

[4] Link para o filme “Os Três Idiotas” (Completo e com legendas em portugês): http://youtu.be/9YJDVhGZ3vQ

Um pensamento sobre “As grades (curriculares) e a multidão

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