De que lado?

Por Pedro Argolo e Luisa Hedler   

04Das madames, apenas uma. Não vemos Satã, usurpada de seu palco; em seu lugar passeia Madame Bovary. Não há arsênico.

Ambientada no início do século XX, a novela das seis da Rede Globo, “Lado a Lado”, tem um enredo que parece destoar do que estamos acostumados a ver (e criticar) nas novelas brasileiras. Para quem é cult demais para assistir a novelas, a história gira em torno da amizade entre Laura e Isabel, duas mulheres bastante diferentes, mas que encontram na solidariedade diante das adversidades o ponto focal de seus relacionamentos. Laura, apesar de ser uma mulher progressista e que quer trabalhar fora, enfrenta a resistência de uma família aristocrática e conservadora, em especial de sua mãe, a antiga baronesa, que lamenta o fim da escravidão e a perda de seus antigos privilégios. Já Isabel, filha de escravos alforriados, trabalha fora desde pequena porque precisa, embora tenha como vocação a dança brasileira. No meio do caminho, há casamentos arranjados, divórcios, luta contra a criminalização do candomblé e da capoeira, a revolta da vacina, jornais subversivos e mais toda a sorte de dificuldades que as mulheres encontram apenas por terem nascido.

Vamos falar de novela não só porque essa parece ter algo de diferente, mas sim porque a própria novela é uma fonte riquíssima para levantar reflexões sobre as mais variadas coisas – mas não com um elitismo condescendente de quem analisa de cima o entretenimento das massas, e sim do ponto de vista de quem assiste, se interessa, e (deus me livre!) se diverte com isso também. Isso não nos impede, entretanto, de refletir a respeito da forma como a novela lida com as representações de gênero, de raça e de sexualidade pautadas (ou, mais eloquentemente ainda, não pautadas) no retrato de época que pretendem fazer.

01Os dramas e as dificuldades que as protagonistas precisam enfrentar são de arrancar os cabelos das perucas longas: além de normas rígidas generalizadas a respeito de qual seria o comportamento aceitável para as mulheres, qualquer mínimo desvio do padrão esperado leva a consequências muito sérias. Por fazerem escolhas autênticas que se desviem do padrão colocado, mulheres são abandonadas, discriminadas, e sofrem todo o tipo de violência, desde o senador que contratou Laura para ser sua secretária, tentou abusar sexualmente da moça e depois ainda disse “que ela provocou”, quanto Isabel que, ao ser enganada e engravidar de um rapaz, é expulsa de casa e repudiada por toda a comunidade em que vivia.

Infelizmente, muitos desses elementos não precisam do cenário do início do século XX para acontecer – e a novela poderia, inclusive, ser um veículo de crítica aos padrões machistas da sociedade que persistem até os dias de hoje. Essa ponte temporal, porém, não é feita de nenhuma forma, e fica apenas a cargo da espectadora ou espectador olhar para os lados e enxergar elementos do século passado muito vivos no nosso cotidiano. Ou, como há grandes chances de acontecer, de parar em uma catarse preguiçosa de “ufa, ainda bem que as coisas não são mais assim”. Colocar essas demandas muito atuais em um cenário de passado pode ter também um efeito neutralizante. Deslocamento ideológico que se repete no retrato exclusivo da sexualidade burguesa, que apesar da diversidade de situações que pretende abarcar, não consegue fugir da triangulação do desejo do sujeito em termos de papai-e-mamãe.

A novela chegou ao fim na última sexta feira, e só agora a autora da novela, Claudia Lage, em entrevista para o site da globo, admite que a novela é feminista. Admite? Depois de meses de uma narrativa centrada nas injustiças pelas quais as mulheres passavam, e os esforços – tanto cotidianos quanto heroicos – para mudar tal situação, alguém ainda hesitaria em dizer que é uma novela feminista? No início do século vinte, muitas mulheres já tinham lutado por essa bandeira no Brasil e fora dele, mas a Grande Palavra Feia com “F” não foi mencionada sequer uma vez ao longo de todos os capítulos. Pensando em um cenário atual em que a pauta feminista se coloca com força no espaço público, o que significa dissociar essas lutas do passado do que as mulheres se propõem a lutar atualmente?

02

Primeiramente, omitir essa designação do movimento faz parecer que o feminismo é algo “novo”, negando sua continuidade, como se as lutas mais básicas pelo reconhecimento e pelo respeito feitas no começo do século não tivessem nada em comum com os movimentos atuais de erradicação da violência contra a mulher, de extensão de direitos sexuais e reprodutivos e tantos outros.  O feminismo naquela época, então, é apresentado como não-existente. Apesar de todas as lutas que claramente se identificam com o passado – e, em algumas instâncias, o presente – do movimento feminista, a novela limpa de suas narrativas essa palavra que tanto contamina politicamente e liga a nossa situação atual. Sem essas desconfortáveis pedras no caminho que falam de um passado da novela que está bem presente na atualidade, a troca de informação com as pessoas espectadoras fica bastante confortável. Os diálogos, por fim, planos como as calçadas francesas.

Regulares são os beijos de Carlos e Emma. Diariamente ele beijava Mme. Bovary na mesma hora, no mesmo lugar, da mesma forma.  Na monotonia dos jantares, as conversas lineares e repetitivas. Retrato da vida burguesa do século XIX, o romance de Flaubert chocou a sociedade francesa de seu tempo ao apresentar as tentativas de uma mulher de escapar do sufocamento imposto por um casamento tedioso e pelas exigências da moral dominante. No final, obviamente, ela se mata – tomar arsênico é a única saída diante do inconcebível que ela faz – mas para os olhos de hoje, um calmante e um copo d’água substituiriam tranquilamente o veneno.

As calçadas alquebradas da Lapa, e os desvios mais escandalosos que nela habitavam, ficam de fora das transgressões bovarianas da novela. Invejáveis são as ruas francesas. Era outra a madame que reinava no Rio de Janeiro naquela época. O mundo dos bordéis, da boemia, do exercício de sexualidades desviantes, tão vivo e presente, fica suprimido na narrativa de Lado a Lado, que toma como totalidade a sexualidade burguesa que necessitava do (não-)lugar de exceção dos bordéis para existir. Lázaro Ramos, que na novela interpreta o capoeirista Zé Maria, já interpretou Madame Satã, uma personagem famosa do imaginário do bairro carioca. Negro, pobre, homossexual, nasceu João Francisco e revelava-se, nos palcos, a mulata do Balacochê. Era comum, na época, que donas de bordéis contratassem garotos para atuar como prostitutos, se necessário, para os clientes. Eram nos bordeis que os pais de família aliviavam seus excessos de desejo sexual para permitir a manutenção da família tradicional. Essa ausência de representação não se faz sentir apenas internamente na narrativa da novela, mas também reflete desagradavelmente nos tempos de hoje como que anunciando que a sexualidade desviante do modelo burguês fosse também uma coisa nova, uma “modinha”.

03Tensa, omissa e neutralizadora, a novela mesmo assim traz inovações que não podem ser ignoradas – são poucas, mas ótimas, as novelas que trazem o elo entre duas mulheres (seja de vingança, seja de amizade) como o motor principal de uma narrativa. Esperamos, enfim, que essa seja uma primeira (e tímida) tentativa de uma tendência nova nas novelas – que elas possam, enfim, desbravar mais ainda as contradições que levam à reflexão.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s