Sonho que se sonha junto

Por Nohara Coelho   

Sonho que se sonha só  

É só um sonho que se sonha só  

Mas sonho que se sonha junto é realidade  

03Em época de resultado de vestibular sempre fico um pouco (bastante) nostálgica desses tempos onde tudo é possibilidade. Presenciar o momento do resultado, testemunhar a expressão no rosto daqueles que foram aprovados, quase sempre muito gratos, extasiados, incrédulos, mais conscientes do privilégio do que tomados de orgulho (ao menos naquele mínimo instante). Quando descobri que passei, quase não acreditei, cheguei à paranoia de achar que havia algum erro que logo seria esclarecido. Só tive certeza de que estava dentro após o registro. “Pronto, se alguém se confundiu, problemas, tenho minha matrícula!”

Ali, naquele segundo em que o dedo acha o nome na lista, em que a pesquisa no site mostra o seu nome, nasce um sonho, aquele sonho gestado nas madrugadas de estudo durante o ensino médio ou no cursinho. O sonho de viver o desejado e restrito mundo da Universidade. Aquele sonho que fica apertado, encoberto, praticamente sufocado durante os momentos quase insípidos de domínio da técnica de fazer a prova do CESPE. E você quase sempre faz promessas ao seu sonho: quando eu passar eu vou… Mas, enfim, isso fica para traz num segundo e você e o seu sonho de repente estão no mundo da Universidade Pública. São tantas as possibilidades e tantos os espaços a serem ocupados que é fácil ficar um pouco perdida nesse período.

Acredito que seja esse um daqueles momentos definidores da vida. Para mim, foi quando negligenciei ao sonho, me deixei carregar através do curso, aula após aula, sem muita reflexão, sem que nada ali me cativasse, como se estivesse numa enorme sala de espera, aguardando algo acontecer e me carregar para a vida. É desse jeito que posso dizer que sou também um pouco caloura, encontrando na Universidade, após 3 anos de curso, espaços nos quais é possível fugir da lógica rígida e carregada que pode ter um curso de Direito restrito ao espaço da sala de aula.

02A descoberta/construção do Maracatu Atômico, a participação no Centro Acadêmico, o gosto pelo Movimento Estudantil, e, agora, o próprio PET. Espaços de construção coletiva que me permitiram experiências que de outro modo, isolada, não poderia ter. Viver a Universidade, em toda a sua potencialidade, é algo que descobri que só pode ser feito junto dos outros. É colocar o sonho para experimentar, para se misturar com outros sonhos, fagocita-los, torná-los seus também. É se envolver num projeto de Universidade e se engajar na mudança daquilo que lhe incomoda (seja a conformação machista dos espaços, o Projeto Pedagógico, a configuração política da Universidade seja lá o que for).

A sala de aula, por vezes monológica e enfadonha, para mim, não foi suficiente, não consegui me apaixonar por aquilo que julgava ser o meu curso. Mas não é, as aulas são apenas uma parte dessa experiência (e talvez nem a mais importante) a que tem acesso os poucos privilegiados que ingressam na Universidade. São nesses lugares de inquietação, nos movimentos, projetos, grupos e coletivos mais diversos em que muitos encontram espaço de acolhimento, afirmação e identificação, onde se ganha coragem para se colocar no mundo, para tomar a voz e dizer, sem vergonha ou medo, eu sou gay, eu sou lésbica, eu sou negro/a. Eu sou mulher e vivo num mundo machista. Onde se pode subverter a ordem do estabelecido ou, ao menos, se manter sonhando e construindo o dia em que isso será possível. Sonhar junto é como se mantém o sonho vivo, calouro, capaz de se impressionar, louco para sair de si, se transformar, transformar o mundo em volta. 01

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