A construção do comum

Por João Victor Fiocchi   

“Persigo la imagen que hice de mí   
y siempre estoy en deuda conmigo mismo”   

Antonio Miranda   

01Talvez seja a sensação de que a graduação passa muito rápido. Talvez seja porque passa mesmo. Talvez seja porque, quando a gente se muda, faz-se necessário encaixotar as coisas e depois revolver essas mesmas caixas. Talvez seja porque, quando revolvemos essas caixas, não sejam só as caixas que são revolvidas. Nós também somos. A questão é que, seja pelo acidente de uma mudança, ou pela nostalgia de uma rememoração, você passa a relembrar de desde quando entrou na faculdade, ou ainda desde momentos anteriores, e acaba se reencontrando consigo mesmo. Alguém em quem você se reconhece, mas já não corresponde par-e-passo a quem é hoje. As vivências te alteraram. E essas formas de rememorar, em algum sentido, são você prestando testemunho a si mesmo de quem foi. É uma conversa que se tem consigo mesmo.

E é exatamente sobre isso que esse texto busca tratar. É sobre como esse expor-se às vivências faz toda a diferença nesse processo.

Nesse sentido é que me parece, portanto, que, se deslocamos o foco para o ambiente de uma universidade, extensão e movimento estudantil são espaços privilegiados a favorecerem esse tipo exposição de que falei anteriormente. Por maiores que possam ser as críticas a este ou àquele espaço, há uma ideia trazida por Antonio Negri que me diz muito. O autor, em um livro-entrevista, afirma: “Conheci a militância, e para mim não existe verdade fora do ‘comum’, fora daquilo que pode pertencer a todos e verificar-se na linguagem, na cooperação e no trabalho. Uma verdade é uma ação coletiva, seres que militam juntos e que se transformam. Eu vejo a ação como algo que constitui a comunidade, que produz a substância de nossa dignidade e de nossa vida.[1]“.

Obviamente, e isso Negri deixa claro em diversos momentos da entrevista, que essa visão em muito carrega sua experiência de vida – que passa por sua educação social-comunista, por seu período no exílio na França para evitar a prisão, por seu retorno à Itália, culminando em sua prisão e por seus recorrentes reencontros durante a vida com a noção de comunidade.

Mas, em certo ponto, não seria isso inescapável? Não é essa Erlebnis, essa experiência vivida, um resultado da nossa interação com o dado e o solo sobre o qual construímos tudo quanto construímos? Para o autor, é relacionado a esse modo de pensamento que a ação se configura como critério de verdade. Se aqui nomearemos isso de verdade ou astúcia da razão, o debate está em aberto – além de não ser o ponto central a que se propõe lidar esse texto. Relevante, nesse momento, é dizer das relações que se tem com o dado, e como isso molda as relações que travamos em nossas vidas – e, por que não dizer, dos reflexos que se desdobram na própria produção de conhecimento.

Não é sugerir, vale lembrar, que a vivência seja sempre previamente moldada pelo dado, obliterada por ele. É dizer que aquela necessita da relação do sujeito com este para dar-se. Nem poderia tal sugestão ser categoricamente feita, uma vez que o filósofo italiano traz toda uma concepção de educação como um embate contra as tradições.

02Isso nos faz voltar à extensão e ao movimento estudantil. Essa é uma das possibilidades que esses espaços podem oferecer de uma maneira que não encontra similares em outros ambientes da Academia. É um permitir expor-se a outras vivências que põem em choque tradições. É educação, portanto. E é educação transformadora porque vem de um agir coletivo daquelas/es que estão juntas/os. São singularidades entretecidas. São multidão.


[1] NEGRI, Antonio. De Volta – Abecedário Biopolítico. Tradução de Clóvis Marques. Rio de Janeiro; São Paulo: Editora Record, 2006, p. 41/42.

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