Isso é, sim, sobre você

Por Liana Cajal   

Quando eu era pequena, em algum desenho falaram uma frase que me marca até hoje: seria muito melhor que a semana durasse só sábado e domingo, para o final de semana ter longos cinco dias. Cinco dias sem obrigações, nos quais sua única preocupação seria brincar e se divertir! Seguindo essa mesma lógica, será que deveríamos pensar assim em relação ao Carnaval? Seria bom ter 360 dias carnavalescos e cinco dias para guardarmos?

Transfóbicos se transvestem. Homofóbicas pegam mulheres. Homofóbicos, homens. Só as mulheres que dão na primeira noite prestam. Ninguém é de ninguém, todo mundo é de todo mundo. Ninguém pode julgar ninguém. É a concentração da hipocrisia da normatividade. Tudo aquilo que pregam durante o ano não vale nada. Isso é bom?

Parece bom. Os grupos invisibilizados ganham espaço. Será?

A festa reproduz toda opressão; mas, agora, a violência é disfarçada pela folia.

Nas festas do troca, alegremente, se reproduz os estereótipos de homens e mulheres; prazerosamente se afirma que se travestir não passa de uma brincadeira. Todos os homens tem barba, cara de mau e falam grosso. As mulheres ostentam peitões, maquiagem e roupa curta, se equilibrando em cima de saltos que as deixam quinze centímetros mais altas. A brincadeira acaba, destroca-se, a normalidade se reestabelece. Tudo aquilo é forçado, é visto como ridículo; assim como os/as travestis são vistos/as nos dias em que nem tudo pode. É esse o discurso que legitima a violência. Quando não se leva sério a individualidade de uma pessoa e se força o encaixe em um padrão. Um padrão limitador que, na tentativa de uma inclusão forçada, se torna cruel.

A putaria é liberada. Mas, a liberdade é sabotada por uma cultura machista. Mulheres enfrentam o desafio de se divertir entre passadas de mãos na bunda, puxões de cabelos e beijos forçados. Homens são obrigados a honrar sua natureza de machões; se negarem fogo, são automaticamente desclassificados para viadinhos. Inverte-se a possibilidade de livre manifestação a partir do momento que se proíbe o dizer não. A graça da putaria está, exatamente, no respeito. Quando as pessoas envolvidas se permitem desfrutar os prazeres de seus corpos em uma posição de igualdade. Se há desigualdade, é uma desigualdade consensual, há acordo sobre a subordinação. A partir do momento que se impõe a putaria, sem que esta lógica do respeito esteja presente, consensuamos e propagamos a cultura do estupro. A hipocrisia carnavalesca prega que ninguém é de ninguém, quando, na verdade, repete-se a lógica de todos os dias: as mulheres são dos homens. São subordinadas aos homens.

É essa cultura que naturaliza o desejo sexual do homem e retrai o da mulher. É essa cultura que ensina um comportamento adequado para mulher se prevenir, mas que não ensina o homem a hora de parar. É essa cultura que culpabiliza a vítima pelo estupro, deixando o agressor impune. É dessa cultura que eu tenho nojo. É essa cultura que forma, especialmente hoje, minha dor. Que me coloca em uma situação de impotência diante da dor da outra. É por essa cultura que eu digo: isso é, sim, sobre você.

Que você não precise sentir a dor, mas, que toda a dor existente te mobilize. Que adquiramos o estranho costume da Suécia[1]. Que nosso choro tenha forças para se transformar em grito. Que nosso grito seja um grito de basta. Que ele cale as opressões. Que seja um grito de liberdade. Se o ano só começa depois do Carnaval, eu não quero que meu ano comece. Não enquanto começar o ano signifique legitimar as opressões.

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