Porque o mundo não governa a si mesmo

Por Juliana Thomazini   

01Os mistérios da mente sempre intrigaram a humanidade. As possibilidades sobrenaturais de descobrir mais sobre o que se esconde nas partes inacessíveis de nossos próprios cérebros atiçam a curiosidade de alguns e a incredulidade de outros. O filme “O mundo imaginário do Doutor Parnassus” propõe a oportunidade de entrar no espelho e ver dentro dele um mundo diferente, comandado pela mente do Doutor Parnassus, mas determinado pela imaginação de quem o visita, sem preocupações com o possível ou o plausível.

A trupe do show itinerante compreende o poder da mente do Doutor, mas quando resgatam um estranho no caminho, a veracidade do que acontece atrás do espelho é questionada.

“Tony: Se o Dr. Parnassus pode mesmo controlar a mente das pessoas… Então, por que ele não está governando o mundo? Por que se dar ao trabalho de manter esse showzinho de segunda?

Anton: Não é um showzinho, ele não quer governar o mundo. Ele quer que o mundo governe a si mesmo.”

A existência de tão grande poder não utilizado para obter vantagens próprias parece absurda para Tony Shepherd[1], a estranha figura resgatada da forca no meio de uma ponte. O vislumbre da possibilidade de dominar o mundo, subjugando os outros e tendo para si tudo o que deseja é sedutor, e a não concretização desse sonho, que, na concepção do personagem, todos e todas devem sonhar, não é aceitável para uma mente que cobiça cada vez mais poder e destaque. Não é difícil achar exemplos de pessoas que, assim como Tony, acreditam ser tão mais espertas e esclarecidas que os outros. E, exatamente por esse motivo, entendem ser justificável deterem de forma unilateral o controle sobre as 02decisões que afetam a coletividade. Vários são os artifícios usados para obter-se e manter-se no poder. Não são raros os com pretensões a déspotas esclarecidos, detentores (em seus entendimentos) de conhecimento mais apurado que as outras pessoas, o que daria a eles o direito, e porque não o dever, de “guiá-las”. O mais alarmante é quando esse conhecimento “superior” é aceito sem ser questionado ou como inquestionável.

Por esse motivo, também, não é fácil aceitar que as pessoas são realmente capazes de governar a si próprias. A ideia de autonomia se torna implausível dentro de um contexto hierarquizado, no qual cada um assume a função e as responsabilidades que a ela são atribuídas, atuando apenas de acordo com o que é determinado por uma “autoridade” como seu papel e nada mais. É muito mais fatigante lidar com um grande espaço de liberdade, no qual se pode escolher, assumindo a responsabilidade por seus atos e decisões. Especialmente numa sociedade individualista, na qual cada um tem apenas seus próprios interesses em vista.

As consequências e até mesmo a real dimensão de seus atos é muitas vezes difícil de assumir. Assim como os mafiosos russos do filme que, quando confrontados com uma representação da violência, que exercem cotidianamente, de forma banal dentro do sistema de repressão implementado legitimamente pelo Estado, correm pra barra da saia da mamãe, muitas pessoas não percebem (ou preferem não perceber) os reflexos que suas ações têm para os outros. E é essa falta de alteridade que impede o poderoso de perceber que quem interessa não é só ele e seus desejos, e sim toda uma comunidade que abrange anseios muito maiores que apenas ilusões de poder.

“Garantimos a legalidade na hora de derrubarmos as portas de gente que não gostamos.”


[1] Curiosamente, a palavra Shepherd, quando traduzida para o português, significa “pastor”. No filme, Tony é o fundador de uma instituição de caridade voltada para o auxílio de crianças. Essa atividade poderia dar ao sobrenome realmente o sentido de guia, alguém que vela pela vida e alma de outros, não fossem os motivos torpes escondidos na fachada de ajuda humanitária.

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