“Eu fico com a pureza…

Por Hugo Fonseca  

… da resposta das crianças”  

Gonzaguinha  

Itapoã-DF. Manhã de dia das mães no ano de 2011.

Eu. 18 anos. Recém-chegado em Brasília. Recém-ingresso na UnB.

Projeto de extensão popular com crianças, carentes de uma educação que lhes possibilite desenvolver suas autonomia e curiosidade. UVE (Universitárias/os Vã
o à Escola).

01Eu. Calouro querendo mudar o mundo, mal sabia que seria por ele mudado em alguns segundos.

Vamos à atividade.

Por ser dia das mães, logo pensei em propor algo que as crianças pudessem levar pra casa. Com lápis de escrever, papel e bastante criatividade já teríamos uma declaração de amor linda para as mamãe e avós. Ainda faltava algo mais divertido.

Procurei no google, então, imagens para colorir e levei. Achei duas muito legais porque nelas havia espaço para escrever e desenhos lindos. Uma delas era de um garotinho com uma bola de futebol nas mãos, para os meninos, já a outra imagem tinha uma garotinha de saia rodada e umas flores desenhadas, para as meninas. Cada qual pegava a que lhe cabia e pronto.

Tudo lindo até uma criança de 5 anos levantar as mãos e dizer:

“Tio, mas eu não quero a imagem dos meninos, quero a das meninas!”

02

Todas as crianças riram daquele menino, menos eu, que empalideci. Pareceu coisa de filme. Aquela cena desconstruiu os meus 18 anos de existência. Aquele garoto, com uma frase despretensiosa, mas carregada de uma vontade imensa de dar visibilidade a uma subjetividade negada, me fez perceber o quanto eu estava sendo um sexista idiota[1].

Na melhor das intenções, eu reproduzia as violências de uma sociedade que define o masculino e o feminino de acordo com os órgãos genitais; que “naturaliza” características impostas: homens são atletas e mulheres cheiram flores; que dita gostos [futebol (homem) x queimada (mulher)], preferências [azul (homens) x rosa (mulheres)], modos de se vestir, pessoas com quem se relacionar, dentre outras coisas.

Eu me sinto uma pessoa extremamente privilegiada por ter convivido com essas duas criaturas que me permitiram romper com essa lógica opressora. Para além desse fato isolado, aquela mesma criança me dava uma lição no dia-a-dia, junto à sua irmã, fiel escudeira. O garoto era tão subversivo que usava um chinelo rosa, e a garota não titubeava ao tirar sua camisa na hora do banho de mangueira ou na guerra de bexiga d’água, afinal de contas ela não via em seu peito a menor diferença em relação ao do seu irmão.

Mesmo já tendo tido na infância a experiência de inverter o “papel de homem” (forte, insensível) quando me abraçava à minha irmã (mulher e mais nova do que eu) para dormir sem medo; mesmo já tendo me indignado quando minha família, depois de um dia inteiro brincando juntas/os, separava primos e primas em quartos separados na hora de dormir eu reproduzi todo aquele binarismo que também me irritava e ninguém me convencia da necessidade.

04Estive pensando se, de certo modo, eu não me igualei àquela Escola de Princesa, que agora é moda em Uberlândia-MG[2]. Com o lema de “O sonho de toda menina é ser uma princesa”, lá elas aprendem a como se portar perante as outras pessoas, como ser discreta e contida, como se vestir, andar e comer sem perder a elegância de uma verdadeira lady! Aprendem a arrumar a casa, com todos os toques de realeza, sem bagunçar o cabelo e a maquiagem. Aprendem, sobretudo, a se esconder atrás do rótulo de princesa e a repreender tudo aquilo que seja desviante, embora no íntimo a vontade cochiche aos ouvidos que talvez seja massa.

05Os direitos daquela primeira garota de Itapuã, que tira a camisa quando se banha, mesmo na frente de todo mundo, jamais estão em pauta nessa “nova” escola de etiqueta feminina, tampouco na minha atividade. Também não foram levados em conta os daquela menina que brinca de carrinho, que odeia rosa, que gosta de jogar futebol e de esportes em geral; nem o daquele menino que quer fazer ballet porque gosta de dançar ou que prefere colorir flores a colorir uma bola de futebol. Essas são as crianças que questionam o que é natural e por isso são tratadas como verdadeiras ameaças. São as famosas crianças queer (diferentes, bizarras), termo que deu luz à teoria pós-identitária que se apropriou desses xingamentos que apontam o desvio ao natural como estranho para desconstruir os papéis de gênero e romper com a necessidade de se encaixar no ideal de homem e mulher, ou delimitar em uma palavra toda a complexa relação entre o ser e sua sexualidade.

O texto[3] de Beatriz Preciado é uma grande referência nesse assunto, principalmente por se tratar de uma criança excêntrica dessas, que cresceu e agora conta suas experiências. Beatriz diz que certa vez uma professora de sua escola, Irmãs Reconstituidoras do Sagrado Coração de Jesus, pediu-lhe para que desenhasse sua família, no futuro. Ela, queer e livre, se desenhou casada com uma mulher (sua melhor amiga na época), as quais eram mães de alguns/umas filhos/as. O resultado disso foi exatamente o que se espera: uma orientação da escola para que os pais de Beatriz a levassem a um psiquiatra e várias represálias entre as/os colegas e os próprios pais.

O que se passava na mente da diretoria da escola (de Princesas ou a das Irmãs Reconstituidoras do Sagrado Coração de Jesus), dos pais e também se passa na nossa é que: se Beatriz nasceu com vagina, logo nasceu/é mulher. Sendo mulher, deve constituir uma família, procriando, e para isso tem que se portar bem, ser elegante, não se masculinizar, para aí sim se casar com homem.

03

Essa é a prerrogativa hétero-sexista que permeia a infância de hoje em dia e é contra ela que a educação queer luta.  Nas palavras, ainda, de Beatriz:

Nós defendemos o direito das crianças a não serem educadas exclusivamente como força de trabalho e de reprodução. Defendemos o direito das crianças e adolescentes a não serem considerados futuros produtores de esperma e futuros úteros. Defendemos o direito das crianças e dos adolescentes a serem subjetividades políticas que não se reduzem à identidade de gênero, sexo ou raça.

Essa defesa de que Beatriz agora fala foi exatamente a resposta pura daquelas crianças, com os olhos cheios de brilho, apontando que a gente pode ser menos masculinos e femininos e mais nós mesmos. Elas me ensinaram que é possível e necessário desencaixar e desconstruir se quisermos um mundo que respeite a essência de cada pessoa.

O que eu espero agora é que nós sejamos, à exemplo daquelas criaturas de Itapoã, crianças com a coragem de ser, apenas ser!


[1] Não posso deixar de comentar que essa mudança é fruto (e só poderia assim o ser) do processo extensionista, na medida em que sujeitas/os, da universidade e da comunidade que a circunda, se propõem a comunicar dialogicamente, rumo a desconstruções e transformações.

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