Precisa-se de humanos de verdade

Por Felipe Pereira   

“Não é a segurança do que sentimos por elas que estas afirmam querer. Elas querem sentir a insegurança de estarem perto de um Homem de Verdade”.

Não ser machista é não querer ser homem. O machismo é uma filosofia de vida, ideologias (sic), saúde, educação máscula, academias para o nosso gênero, desenvolvimento financeiro, ser forte emocionalmente, tem uma segurança sobre si quase que imbatível, ser humilde para receber ajuda dos amigos, ser um selvagem na cama, ser protetor e orientador. Tudo o que as mulheres sentem falta nos homens atuais”.

Aquela sua amiga COMPLICADA. Ela não é complicada, esta pode ser uma GRANDE VADIA”.

01Multiplicam-se, na atualidade, páginas comportamentais que buscam auxiliar os indivíduos a obter sucesso nos mais diversos âmbitos da vida (afetivo, familiar, financeiro) a partir da sua imersão na filosofia dos “homens e mulheres de verdade”. Sem muito trabalho, é fácil cair numa página dessa espécie no Facebook, onde ideais acerca do relacionamento inter-gêneros tais como esses acima são propagados.

Parece absurdo a quem lê que esse tipo de discurso ainda encontre algum apoio? Sim e não. É absurdo porque, após a luta vivenciada diariamente por mulheres e homens para mudar essa concepção, intensificada nos últimos 60 anos, ainda há aqueles que ensejem este comportamento nas pessoas a partir dos mais diversos fundamentos (como religião, argumentos “naturalistas”, entre outros). Porém, observando-se que a cultura do desrespeito custa a perecer, isto acaba não sendo tão surpreendente assim.

03E isso fica claro não somente na relação entre gêneros, utilizada aqui a título de exemplificação, mas em qualquer interação social em que haja a presença de um grupo dominante sobre um dominado – como negras/os e brancas/os, homossexuais e heterossexuais, pobres e ricas/os; o que irá pautar essa subjugação será a diferença observada entre agentes ativos e passivos. A falta de alteridade, que conduz ao tratamento indigno do indivíduo, inferiorizando-o, é um fato que continua a alijar a sociedade, bastando apenas ser diferente do status quo para fazer-se merecedor desta.

No sentido de reverter essas relações assimétricas, advém a democracia, estruturada no pilar do direito à diferença – todos têm igual direito de manifestar-se de forma distinta, enquanto não ameaçando os direitos dos outros e, caso essa diferença seja origem de uma desigualdade entre os indivíduos, cabe ao Direito salvaguardá-las, de modo que um dia seja possível a esse grupo minoritário, diverso, constituir-se também como maioria[1].

Mas será que essa sociedade que se autodenomina democrática está, de fato, comprometida a efetivar esse sistema? Se assim fosse, não seria tão recorrente o desrespeito a esse direito, como no ocorrido há duas semanas no Centro Acadêmico de Direito da UnB[2], nas ruas, como com os dois irmãos que foram agredidos por terem sido confundidos com um casal[3], ou mesmo dentro de casa, onde mulheres e crianças ainda vivenciam abusos cometidos pelos “homens de verdade”.

02

É necessária a introspecção nos agentes sociais desta consciência da presença do outro, um indivíduo que contém em si um vasto universo, dentro do qual há pontos que se interseccionam com seus próprios universos particulares, e [muitos] outros em que há discordâncias – sendo de comum acordo, entretanto, a condição humana inerente a todos.

A democracia, enquanto ordem social produzida por um conjunto de indivíduos iguais em sua diferença que visam à manutenção dessas diferenças, exige o exercício incessante deste colocar-se no lugar da/o outra/o, por mais que a/o outra/o em quase tudo lhe seja oposta/o. Para se fazer viável, precisa mais de humanos de verdade e menos de homens de verdade.


[1] Vale destacar que o conceito de maioria aqui utilizado não se dá em termos quantitativos, mas sim na posição de grupo hegemônico dentro da ordem social.

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