O demônio da teoria – Etimologia de uma crítica [1]

Para o pobre Sócrates, só havia o Demônio da proibição; o meu   

é um grande afirmador, o meu é um Demônio de ação, um   

Demônio de combate.   

Baudelaire, “Espanquemos os pobres!”[2]   

ImagemPor excelência, Charles Baudelaire (1861-1867), é um poète maudit. Musas não são conclamadas em seus versos belicosos; os temas que rapidamente se tornaram nobres e elevados pelo cânone literário inexistem, idealizados, em suas narrativas. Entrelaçam-se, em carcaças putrefatas de cadelas, amor, substância divina e beleza. Em suas rimas de vida e morte, o poeta lírico invoca a escuridão e o absurdo e daí retira inspiração para representar sua época, transcendendo-a, ao mesmo tempo. Crítico, opositor, polêmico e irreverente. Maldito Poeta. A maldita teoria – ou o demônio da teoria – se assemelharia, assim, ao artifício que Baudelaire escolheu para arquitetar suas imagens. A capacidade demoníaca de atormentar verdades estabelecidas e ideias acomodadas é o que sustenta a obra do poeta francês; é preciso que a teoria adentre mais profundamente os limites da crítica social, transmutando-se em demônio de combate, em demônio que afirma o pensamento radical – de raiz – como possibilidade.

Entre teoria e representação há vínculos ocultos. De proveniência grega, theorein, algo próximo do nosso verbo ‘observar’, era, inicialmente, o termo utilizado no contexto de uma peça de teatro. A representação da sociedade grega confeccionada por seus dramaturgos captou a relação interna entre expor e olhar para algo. A Hélade mantém-se influente também na origem etimológica que herdamos e no papel que a teoria desempenha entre nós. A teoria é a assunção de que representar, portanto, teorizar, é já compreender; teoria é, dessa forma, realidade perpassada pelo pensamento, é o concreto compreendido e comprimido em conceito.

A força da teoria repousa no demônio que vive em nós e nos aconselha. De maneira similar à voz interior que os gregos definiam pelo termo daemon, a teoria oferece interpretações alternativas às pré-existentes e abala a inocência e o torpor; questiona os pressupostos axiológicos da crítica e reflete acerca de seus fundamentos normativos. A teoria contradiz, põem em dúvida e, assim, torna possível abordagens críticas vivificantes. A crítica se torna interessante e autêntica a partir do momento em que é capaz de explicitar os referenciais nos quais opera. Criticar é separar, cortar, discriminar.

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Teoria e resistência são impensáveis em separado; ancoram-se reciprocamente. Da tensão criativa entre os dois, advém sua capacidade transformadora; fazem vigília um ao outro. A própria força vinculante da crítica consubstancia-se à presença ativa do demônio da teoria. A aventura da teoria é o que garante e reflete às bases da resistência em termos conscientes e reflexivos no plano concreto de atuação. O daemon edifica uma escola de relativismo, não de pluralismo, pois não é possível deixar de optar ou optar por não escolher. A força demoníaca da teoria, assim como a dos aguerridos versos de Baudelaire na França do século XIX, cristaliza-se na experiência do choque. A teoria é uma atitude analítica e de aporias, uma aprendizagem cética, um ponto de vista metacrítico e uma interrogação a todas as práticas críticas, na acepção ampla do termo. Se as propostas sugeridas pela teoria fracassam, elas têm ao menos a vantagem de sacudir as ideias preconcebidas. O primeiro interesse da teoria é antes ir contra a intuição irrefletida. O malogro não faz da especulação, em absoluto, um esforço vão.

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Entretanto, a teoria possui dois grandes riscos que devem ser combatidos. O primeiro é o de perder sua capacidade reflexiva e se tornar um pensamento dogmático e estéril. O segundo é o de alhear-se do espaço de constantes modificações que a tornou possível e enclausurar-se em cânone. A história da teoria precisa ser a história de sua própria superação. O caráter demoníaco da teoria, e sua radicalidade, é sua propensão a desvencilhar-se de si mesma sempre que se tornar solo infértil ao pensamento crítico. Porém, ainda permanece necessário e atual o ideal proposto na França, em 1969, por Barthes: “A nova crítica deve tornar-se muito rapidamente um novo adubo, para depois, fazer outra coisa!”.


[1] Metáfora retirada de obra homóloga de Antoine Compagnon, teórico da literatura francês que desenvolveu em seus escritos perspectiva similar à apresentada, de maneira sucinta, no texto presente. Para maiores informações, ver: O Demônio da Teoria – Literatura e Senso Comum, 2ª Edição, Editora UFMG, 2010.

[2] ‘Espanquemos os pobres’, da obra Pequenos Poemas em Prosa (Le Spleen de Paris), de Charles Baudelaire, disponível no link.

*Por Edson de Sousa  

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