O Falso Dilema do Movimento Estudantil

Por Guilherme Crespo, Diego Nardi e Hugo Fonseca

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Há alguns dias foram escritas na parede do Centro Acadêmico de Direito da UnB frases de ódio a homossexuais (saiba mais sobre o caso aqui). O acontecimento traz à tona, entre muitas coisas, uma discussão pertinente às/aos estudantes: deve o movimento estudantil se preocupar com o combate defend_equalityàs opressões de gênero, raciais, étnicas, de classe etc.? Mais especificamente, devem necessariamente as associações representativas das/os estudantes, eleitas por estas/es, ocupar-se da tentativa de construir um ambiente universitário mais igualitário?

É importante frisar, como ponto de partida, que a luta contra o racismo, machismo, homofobia e quaisquer outras formas de opressão é conciliável com vontade de ter uma infraestrutura melhor (professoras/es, salas de aula, laboratórios equipados, bebedouros, papel higiênico etc.), apesar de o discurso do atual DCE fazer parecer que não, muitas vezes. Argumentar que outras gestões do DCE não foram capazes disso, não inviabiliza essa tentativa de conciliação, sobretudo com alguns bons exemplos de centros acadêmicos que vêm alcançando bastante efetividade nas frentes de atuações mais institucionais e burocráticas, bem como na pulverização de debates, reflexões e ações sobre as demandas de grupos e indivíduos que sofrem com um ambiente universitário desigual e violento.

Ainda assim, não é o bastante apenas afirmar que infraestrutura e combate a opressões não devem ser inimigos colocados numa lista de prioridades. É preciso desmascarar o discurso de excelência que a atual gestão do DCE e a atual gestão da reitoria adotam. Sob o argumento de que a infraestrutura adequada é algo que interfere na vida de todas/os as/os estudantes e é essencial para produção de um conhecimento relevante e de qualidade, está colocada uma objetividade na produção científica que já devia ter sido superada. Queremos sustentar que o discurso de excelência acadêmica que ignora as condições de desigualdade de certos grupos da universidade, acaba por reproduzir na sua produção científica essa discriminação, tanto nas condições para se inserir nesse processo de produção científica, como no próprio conteúdo das pesquisas. Portanto, visibilizar e inserir a questão das opressões na luta por uma universidade mais estruturada é estender essa “excelência” a todas/os e não apenas a alguns.

Há alguns dias, apareceu numa discussão algo que pode ajudar a compreender o problema e como esse pensamento paira no senso comum universitário (vide a expressiva votação da atual gestão na última eleição para DCE). Um estudante da UnB dizia que o posicionamento de combate a DCEopressões beneficiava apenas alguns poucos grupos e que, portanto, essa postura era elitista quando se contrapunha a combater o discurso da excelência que, necessariamente, afeta todas/os estudantes. Em seguida, o mesmo estudante concluía seu posicionamento sobre o “embate” ‘infraestrutura X combate a opressões’, dizendo que preferia uma universidade que tivesse condições materiais de encontrar a cura do câncer e da AIDS (entre outras ações que não dependessem da conscientização de ninguém), ainda que fosse a universidade mais desigual do mundo, a uma universidade que fosse igualitária, mas sucateada.

Será que uma universidade complemente equipada é muito diferente de uma que nem papel higiênico tem, pra uma pessoa que sofre violências cotidianamente? Para além da discussão sobre a postura utilitarista dos argumentos do estudante, não parece exagerado enxergar elitismo e individualismo num discurso que coloca a conquista por direitos de outros grupos como uma conquista apenas deles e não de todas/os. Como não é elitista querer a cura pro câncer, mas não questionar quem efetivamente participa dessa pesquisa?

Uma universidade que se recusa a pensar de forma crítica seu contexto, relações sociais, adotando o ponto de vista de minorias e grupos vulneráveis que ali se encontram, recusando a política como ferramenta de transformação e crítica, contribui para a internalização das práticas vitais da ordem reprodutiva estabelecida, alienando-se e não incorporando ao seu cotidiano, à sua produção, as contradições que estão aí e que são encaradas como verdadeiras exceções, quando, em realidade, a exceção é justamente esse esboço de sociedade desenhado pela produção de conhecimento despreocupada, despolitizada. O pior de tudo é que, recusando-se a atuar com esses grupos, identificando práticas opressoras e que, caso fossem visibilizadas, colocariam em questão toda a ordem estabelecida, eles optam por trabalhar a partir de uma realidade que é construída e acessada do livroslaboratório, e posteriormente internalizada por todas/os: não se produz conhecimento a partir da práxis social; o que há é uma determinação dessa práxis a partir da produção do conhecimento, que tem finalidades claras – dominar, reproduzir e manter privilégios.

A omissão frente as lutas contra opressões sabota, inclusive, a transformação das pessoas e a expressão de sua diferença, ao encontrarem força para lutar na identificação de pessoas na mesma situação. Nessa universidade da cura da AIDS, do câncer e dos alimentos mais resistentes, a comunidade de negras/os, LGBTTT ou feminista teria espaço? Como seria o ambiente e o processo individual de empoderamento pelo reconhecimento da diferença em uma Universidade que vela suas diferenças enquanto as mutila? Talvez a reação fosse a de negação da própria condição, como vemos em alguns espaços ainda mais opressores. É preciso ter em mente que não existe hoje em dia a menor possibilidade de criar um ambiente racialmente, sexualmente etc. diverso, plural, igualitário, democrático, sem que ele seja firmemente contra a homofobia, o machismo, o racismo e outros tipois de opressão. Assim, na opinião de quem provou disso, é uma violência às pessoas ser omisso nessa pauta.

E caso a experiência nos prove que, por enquanto, é impossível ao movimento estudantil representativo não dicotomizar as duas frentes de atuação (embora saibamos a falácia desse argumento), saibamos que escolher entre as duas é uma escolha política. E nós escolhemos a excelência. A excelência que não está nos rankings, mas aquela impressa nos sorrisos e corações de quem pode caminhar pela universidade de peito aberto e sem medo.

A NOSSA LUTA É TODO DIA.

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