Uma questão de escolha?

Por Hugo Sousa da Fonseca

Era uma vez um menino chamado Pedro. Vivia em Brasília e estava tão frio quanto o clima natural de algumas pessoas que moram lá. Ele andava meio calado, triste. Parecia até que fazia um monte de coisa errada por aí e precisava esconder de todo mundo. Ou será que ele só havia arrependido de algo que fez? Não sei! O fato é que ele sempre vinha com uns discursos de lamentações, dizendo que se sentia sem amigas/os e que no fundo via que não podia ser quem era. Mas aonde já se viu? O menino sempre teve tudo o que quis, nunca lhe faltou nada. Até o dever de casa suas mães, duas pessoas maravilhosas e bem-sucedidas, o ajudava a fazer. Será que era preguiça? Será que ele estava inventando problemas pra poder não ir mais à aula?

Pedro parecia desviar de tudo aquilo que suas mães sonharam para ele: se relacionava com umas pessoas estranhas, que usam roupas diferentes. Os seus amigos eram mal falados nos bares e nas ruas. Quanta decepção!  Era oração, era novena… de nada adiantava. Macumba online, cursinho de inglês, francês, violão, vermífugo, nada dava jeito naquele menino. Não se empolgava com a escola, não namorava, era tudo muito estranho.

Pedro novamente dizia: mãe, você me ama? Você me aceita como sou? Ele era esperto, apelava para o lado sentimental da coisa porque sabia que esse era o ponto fraco de suas mães. Elas caíam naquilo e a resposta era sempre muito calorosa.

Era tanto amor, mas tanto amor, que, como pessoas que realmente faziam de tudo para ver seu filho bem, aquelas mães não deixavam que Pedro andasse com quem quisesse e com a roupa que escolhesse. Forçavam alguns nomes, indicavam pessoas certas e repudiava outras, afinal 16 anos já é hora de começar a pensar em trazer a pessoa amada para aquele famoso jantar na casa da sogra. Precioso que era, Pedro estava sempre impedido de fazer o que quisesse da sua vida: uma linda prova de amor, quase uma família perfeita.  Quase perfeita porque ainda assim, mesmo com tanto amor, aquele menino não sorria pra ninguém. Pedro continuava cabisbaixo.

Então, veio a última solução à mente de uma das mães de Pedro: ir a uma psicóloga. É claro, ela vai saber estudar a mente do meu filho e entender seu comportamento. Pedro sentou-se no divã. Passava horas por dia naquele lugar. Falava, falava, falava, ouvia, ouvia, ouvia e nenhuma mudança era perceptível, nada acontecia.

Um dia, a mais histérica das mães saiu gritando pela casa, chorava desesperadamente. O que ela fizera pra Deus para merecer tudo aquilo? Aonde foi que ela tinha errado? Quanta dor, quanta tristeza!

Sua mulher chegou do trabalho e viu toda aquela situação, viu também que sua companheira segurava uma carta: era a letra de Pedro. Mas onde ele estava? No quarto. Fazendo o quê? Nada! Isso mesmo, Pedro não faria mais nada, pois estava morto.

Inconsoladas, as mães leram o que Pedro havia deixado:

Oi, mamães!

Primeiramente quero dizer que amei vocês duas acima de qualquer coisa nessa vida. Vocês eram tudo que eu tinha e, por mais que eu não demonstrasse, sempre respeitei o amor de vocês por mim. Saibam que tudo o que eu vou contar agora é novidade para as senhoras e pode entristecê-las ainda mais, mas não posso deixar de dizer.

Acontece que eu nunca me dei bem com os meus colegas da escola e com tudo que as senhoras planejavam para mim. Eu projetava na minha cabeça um futuro como o que as senhoras queriam, mas meu corpo não obedecia. Até que conheci uma menina na minha aula de xadrez. Ela era engraçada, inteligente, mexia comigo. Todo aquele vazio que eu sempre senti era incrivelmente inexistente quando ela estava perto. Eu sabia que não podia, meninos só podem namorar meninos. Eu homem e ela mulher… mas o fato é que não me controlei e acabei me envolvendo emocionalmente com aquela pessoa.

Dora é o nome dela. Uma menina incrível que me lembra a vocês nos cuidados, na preocupação, no carinho…

Fui à psicóloga que as senhoras me levavam toda semana e contei tudo isso. Ela ficou assustadíssima e eu também: me diagnosticou com uma doença, chamada heterossexualismo. Parece que é uma doença que dá em pessoas que gostam de namorar gente que não foi feita pra namorar. O fato é que, segundo ela, não havia a menor probabilidade de erro de diagnóstico, tendo em vista as pessoas com quem eu andava e o que gostava de fazer. Segundo ela eu estava doente, mas me pediu pra que eu não contasse a vocês e eu tentei fingir que tudo ia bem.

Durante todo esse tempo trabalhávamos intensamente para que eu me curasse. A psicóloga me dizia sempre que aquilo era uma fase, que Dora não era alguém para namorar garotos, que isso deve ter sido influência de más pessoas que andam comigo. Filmes, livros, remédios, eventos, tudo isso foi feito, só que eu não consegui reagir a esse tratamento. Falhei. Era tão triste, tão avassalador. Parece que a minha vontade de conhecer melhor a Dora e também outras pessoas como ela aumentava a cada dia mais. Minha doença tomava conta de mim e eu me senti frágil, impotente, indigno de viver com vocês. Eu não escolhi isso.

Por tudo isso, essa foi a única saída que eu encontrei, já que ser enterrado é o que me resta. Me desculpem por não ter sido forte o suficiente, espero que as senhoras tenham novas/os filhas/os que sejam melhores que eu.

Com amor,

Pedro

Nada além de tristeza, me faltam palavras. Pedro se matou em seu quarto na calada de uma noite chuvosa e aparentemente tranquila. Poxa, um garoto tão novo e tão desequilibrado. Os vizinhos queriam saber o que havia acontecido, os jornais assediavam. Quem conhecia Pedro estava completamente arrasado, ele tinha tudo para dar certo nessa vida.

O cotidiano daquela casa ficou sombrio e as mães de Pedro faziam de tudo para esconder a causa da morte do filho. Elas se sentiam muito culpadas, uma delas, embora sem o menor êxito, tentou se matar também um tempo depois. Pedro agora era lembrança. O quarto ainda tinha seu cheiro, suas coisas ainda estavam jogadas sobre a mesa. Aquelas mães não encontraram força para mexer em nada, tinham agora uma vida paralisada.

O tempo passou e a dor foi sendo amenizada. É uma história muito trágica. Mas se algo existe de positivo em todo esse terror é o fato de, pelo menos agora, aquelas mães terem aprendido a lição: DEVEMOS ESCOLHER BEM NOSSAS/OS PSICÓLOGAS/OS.

Saiba mais sobre a repercussão dessa história na mídia, através desse link: http://blogs.estadao.com.br/roldao-arruda/bancada-evangelica-agora-investe-na-cura-dos-gays/

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