Como alguém consegue achar uma preta bonita? – A estética da exclusão.

Por Gabriela Tavares

Comemoramos no dia 20 de novembro o Dia Nacional da Consciência Negra, sendo “comemorar” um verbo apenas usual, uma vez que não há muito que se festejar. Alguns não compreendem ou discordam da existência dessa data, como Morgan Freeman; por razões aceitáveis – principalmente, por concentrar a visibilidade da luta contra o racismo em uma determinada época do ano e esquecer-se no resto da vida cotidina. Não deveria, de fato, ser necessário determinar um mês para a Consciência Negra, o ideal seria que a história e a cultura afrodescendente estivessem presentes sempre em nossas vidas – uma vez que a história da humanidade é, também, a história de todas as etnias sem o demasiado eurocentrismo que observamos. Prefiro dedicar, portanto, essa época para refletir sobre a inclusão/exclusão dos negros e das negras no Brasil e o que podemos fazer durante o próximo ano para efetivar a igualdade. Esse post será dedicado às “negas do cabelo ruim”.

A estética remanesce um grande mistério: não sabemos porque ou o que nos leva a achar algo belo ou repugnante. Não sabemos em que medida temos escolhas, parece que o “gosto” vem como algo natural, algo que teríamos de qualquer forma, independente do que vivemos. Não conseguimos saltar, não somos capazes de comer a barata e lamber seu líquido sem nos sentirmos enojados. Por outro lado, não estranhamos os esqueletos nas passarelas, nem os ogros na academia. Torcemos o nariz para os asiáticos: são todos iguais – somos incapazes de perceber o que há de pessoal no traço deles. O que é belo? O que é feio? Não sabemos explicar, mas sabemos apontar. Conseguimos chamar a Gisele Bündchen de bonita e Vera Verão de feia. Conseguimos até mesmo conceber que algumas pessoas discordarão do nosso senso estético – mas eles estão enganados, o gosto deles é peculiar.

Em 2011, as candidatas negras ao concurso de Miss Universo foram alvo da seguinte pergunta: como alguém consegue achar uma preta bonita? Eu me faço e te faço essa maldita pergunta. Como, em uma sociedade impregnada de racismo, podemos achar uma “preta” bonita? Se você cresce chamando o cabelo dela de ruim, seu rosto de rosto de macaco ou que é “pelo corpo que se reconhece a verdadeira negra”, como diria a Devassa. Se você pesquisa “mulher preta” no Google Imagens, vai receber a sugestão de pesquisa relacionada “mulher preta feia”. Não podemos achar uma preta bonita, não temos essa liberdade. Se o fizermos, estamos tentando ser “moderninhos” ou “esquerdistas”. A negra bonita é, no máximo, aquela da novela que está no vale a pena ver de novo. Lembro-me da repercussão de uma negra protagonizar uma novela, mas vamos lá: a Taís Araújo é uma negra bem “aceitável”, tem traços finos, é magra, cabelo “ruim”, mas cuidado e, além disso, é “mais clarinha” – ora, ela é Da Cor do Pecado. Nem quando nos é permitido achar uma negra bonita, achamos, mas a comparamos com o standard branco e estipulamos seu grau de aceitabilidade.

Muitos dirão que estou exagerando, que acham negras bonitas tanto quanto brancas ou que é uma questão de gosto e não tem nada a ver com racismo, nunca aceitarão que é algo sistêmico. A prof. Gabriela Delgado da Faculdade de Direito da UnB fez um paralelo em sala de aula sobre como a mudança para o modelo Toyotista de produção nas relações trabalhistas reflete uma mudança em toda a esfera social. Nesse sentido, assim como empresa se torna “enxuta” o padrão estético acompanha. Podemos fazer o mesmo paralelo para a questão da etnia. A história, a economia, a educação, a saúde, o direito; todos os nossos sistemas sociais operam privilegiando a população branca. A estética não é diferente: não, não é uma questão de opinião.

Da próxima vez que olhar pessoas na rua (cuidado com o assédio!) perceba sua preferencia, conheça seu gosto e pondere: por quê? O que foi condicionado em mim para que eu pense dessa forma? Se vir uma pessoa branca, pergunte-se qual a impressão que tem dela, mesmo sem conhecê-la – se parece inofensiva, safada, criminosa, inteligente, trabalhadora. Faça o mesmo com pessoas de outras etnias. Pondere se há um padrão entre a etnia e suas conclusões, se esse padrão é positivo ou negativo. Encontre seus preconceitos, questione seus preconceitos, questione os preconceitos dos outros.

Permita-se achar uma mulher preta bonita.

Enfrente seu racismo.

5 thoughts on “Como alguém consegue achar uma preta bonita? – A estética da exclusão.

    • Muito rica essa reflexão. Parabens! sou negra sempre alisei meu cabelo e hoje estou em processo de profundas mudanças, a começar por aceitar meu cabelo crespo. Tenho me sentido muito mais bonita e negra digo mais, tem sido uma experiência muito forte no encontro com a minha identidade.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s