Ao Modo Gabriela

Por Fernanda Potiguara

Gabriela, Cravo e Canela: crônica de uma cidade do interior é um livro cheio de figuras femininas interessantíssimas. No começo, minha sensação foi de dar grandes saltos de contextos, como se a narrativas dessas mulheres estivessem tão distantes, mantendo em todas elas, entretanto, as poderosas cicatrizes de uma opressão ainda tão viva. Mas na personagem Gabriela elas convergem todas. Convergem-se as notas daquilo que elas são, do que queriam ser, do que se espera delas.  E da liberdade, enfim, de ser e só.

Afinal, pra quê essa mania maluca de se ajustar sempre ao determinado? Num ponto a esquecer que as regras servem às pessoas e não elas às regras. Daí cessa de se perceber como o sapato dói, como a roupa social incomoda e como é que cada traço espontâneo da nossa personalidade é multilado a todo momento para se moldar aos padrões. E matamos a música e o ritmo dentro de nós.

Nelas, nas mulheres, isso fica ainda mais claro. Na figura de Glória e sua espera cansada na janela, da tentação de seus seios à mostra; nas marcas da surra Malvina, suas decepções com os rapazes, suas ideias revolucionárias em forma de segredo; na tristeza amarga da sua mãe, sua serviência, seu consentimento; em Jerusa, sua beleza pueril, sua espera inocente por um sinal qualquer do bom partido de Mundinho… em Gabriela, seu sapato, seus vestidos de seda, os eventos sociais, as proibições de ir ao bar: seus cárceres de cada dia. Todas aos poucos forçadas a se esquecer da dor dos pedaços podados para entrar na roupagem social.

Nisso um ode à Gabriela, porque dentro dela ardia a chama: mudar pra que?  Ela entendia não. Porque via, com a perícia dos olhos de uma criança que está a absorver o mundo em volta, que aquilo tudo não fazia nem ela e nem ninguém feliz. Porque faziam então?  Eu também não sei, Gabriela…

Até tenta, pra não magoar, entrar no sapato; sorrir baixinho, falar baixinho, olhar para baixo. Mas é tão difícil ser nada.

Porque o bom mesmo é ser menina, sem se importar que seja “impróprio dançar assim”. Sem que sua inocência dependa de seu comportamento.

É tudo tão fácil, pra quê complicar? Fazer coisas que não gosta, deixar de fazer as que gosta. Porque do circo ela gosta, da bagunça rica das danças na rua, dos amores todos que se sente. Difícil demais conter tudo isso, seja lá o motivo…

O jeito é quebrar as amarras de Dona Saad, tirar os sapatos e correr a cantar e dançar pelas ruas… Num ato tão seu que encoraja Jerusa[1]. E das mulheres à rua: o baile inteiro na rua a brincar.

Que assim seja, Gabriela!


[1] P. 302

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