Vidas em labirinto

Por Edson de Sousa

Das árvores próximas que margeiam a comunidade ainda respingam gotas de chuva da noite anterior. Os pingos d’água agora caem calmamente das folhas e escorrem com dificuldade pelos tetos improvisados com velhas telhas de amianto. A forte chuva da noite anterior lhes dá algo que o governo os nega todos os dias: água pura e saudável. Os poços escavados pelos próprios moradores são insuficientes para proporcionar água na quantidade e na qualidade necessárias. A água, de bem fundamental e disponível a todos e todas, se torna para os que habitam a Chácara Santa Luzia mercadoria que define quem vive e quem morre. As estradas e labirintos que constituem as veias e artérias em que homens e mulheres transitam diariamente são construídos com pás e enxadas encontradas ao acaso. Caminhos de terra socada que entrelaçam e resguardam seus inquilinos em um amalgamado de estórias, experiências e vivências – vidas em labirinto. As reminiscências da chuva da noite anterior se espalham por toda a comunidade. E das poças d’água emergem crianças que, indignamente, se confundem em um mesmo espaço inadequado. Lixo, sujeira e lama se misturam em uma mesma figura terna de uma infância abortada pela exclusão social. Surge uma criança, com o caminhar trôpego de alguém que ainda está a aprender a andar por conta própria, com um carrinho aos pedaços. E ao redor, o instantâneo a ser captado é o de diversas colunas de lixo que encarceram e condicionam a existência futura daquele menino. Restos de madeira, telhas quebradas, sacos cheios com latas de alumínio – aqui preciosa fonte de renda de diversas famílias – se enleiam ao ambiente natural da Chácara Santa Luzia. O carrinho desfigurado em remendos é puxado com dificuldade por caminhos tortuosos que o menino, desde cedo, já conhece tão bem. Cada nova descoberta, cada novo cantinho inospitaleiro, em sua cabeça, torna-se uma brincadeira que os outros devem desvendar. O cheiro rude e acre que emana de alguns pontos do lixão ali próximo já é imperceptível ao menino-homem que singra todos os seus esconderijos e desvenda todos os seus segredos. Como os Capitães da Areia, de Jorge Amado, ele é o poeta que canta e ama as singelezas presentes nesse ambiente misterioso. E como poeta, sua arte de inventar mundos – e de transformá-los – um dia se levantará contra a miséria e o descaso a que são sujeitados os moradores e moradoras de Santa Luzia. Os quebra-cabeças do menino, e a comunidade como um todo, não totalmente homogêneo e coeso, mas unido pelos momentos de urgência extrema, não aceitam passivos e imóveis o destino que lhes foi atribuído. Mobilizam-se.  Há enormes redes de solidariedade social em que os indivíduos dialogam e buscam soluções conjuntas para os problemas mais centrais da terra que habitam. E não são poucos que lá sobrevivem. 4500 famílias – e aumentando. E lá é possível se encontrar famílias que chegam a ter 17, 18 ou mais membros que se amontoam em casas feitas de restos de tocos e paus encontrados ao léu. Aproximadamente um quarto de toda a população da Estrutural aspirou e tentou concretizar o seu sonho de acesso à moradia em terras de Santa Luzia. Ainda assim, é visto com extrema desconfiança por parte das autoridades competentes – e por uma parcela considerável da população restante da Estrutural. Aos moradores e moradoras são negados os direitos mais fundamentais a que qualquer outra pessoa distante a pouco menos de 100 passos da Chácara Santa Luzia é inconcebível não se ter acesso. 100 passos e radicaliza-se a opressão. A opressão do descaso. A opressão de se estar totalmente excluído de qualquer forma institucionalizada de garantia de direitos. A opressão de se estar distante, mesmo tão próximo.

Os moradores da Chácara Santa Luzia não possuem infraestrutura adequada ao enorme contingente de pessoas que lá já se encontram – algumas a mais de duas décadas, e muitas em situação de vulnerabilidade extrema. Não existe qualquer forma de acesso à saúde, ou de saúde comunitária, na região. A educação é precária e toda oferecida além das fronteiras sempre crescentes, mas inalcançáveis ao sistema de educação fundamental. Não existem redes de esgoto ou formas de tratamento de água. A água consumida é toda obtida em poços que os moradores muitas vezes compartilham. Mulheres com baldes cheios d’água são parte do pano de fundo comum existente em Santa Luzia. Água canalizada é pouco provável que exista em algum ponto.  A rede elétrica é outro foco de problemas. Apenas por meio de redes informais de distribuição de energia são acessíveis nas localidades mais interioranas. Mas de forma escassa, instável e perigosa. Inexistem creches públicas. A população feminina perde, dessa forma, parte de sua autonomia por ser inviável a busca por empregos e atividades que lhes proporcionem maior independência financeira de seus núcleos familiares e de seus maridos. As estradas e vias de acesso são todas construídas pelas pessoas que lá moram, sendo, portanto, não asfaltadas. Em épocas de chuva é praticamente inacessível a carros ou sistemas de transporte público – a própria presença de ônibus é ali inexistente. Não é desejável, ou politicamente interessante, que qualquer um saía de lá de forma fácil e rápida. O sustento da maioria das famílias, apesar de existir alguns que trabalhem em ocupações com baixos rendimentos, é tirado, a custo, do próprio lixo. Muitos trabalham com reciclagem. Plástico, metais, vidros e papeis garantem a sobrevivência de famílias inteiras – e absorvem todos os membros desses grupos; crianças, mulheres grávidas, inválidos, muitas vezes contribuem de maneira decisiva para a renda familiar. Moscas e ratos se proliferam pela comunidade infestando todos os cantos e esconderijos com sua presença incômoda. Presença que prejudica ainda mais a busca por soluções vinculadas a questões como saúde e saneamento básico. Situações esdruxulas se apresentam. Indivíduos que não estudam ou não conseguem trabalho fora de Santa Luzia por não possuírem comprovantes de endereço – a ocupação nunca foi regularizada, como ocorrido em outras áreas da Estrutural. Políticas públicas que não compreendem, minimamente, o contexto e os problemas existentes em uma localidade privada da infraestrutura básica necessária. E ao mesmo tempo em que não buscam entender as privações sofridas pela população da Chácara Santa Luzia, as autoridades competentes e a administração local tentam ainda silenciar, inescrupulosa e reiteradamente, todas as formas de reinvindicação autóctones. A população se reduz a curral eleitoral. Curral novamente abandonado após a conquista de seus votos, e que, ciclicamente, volta à tona nos períodos de disputa eleitoral. A maior violência a que são expostos cotidianamente, inclusive, é o processo de escamoteamento de sua realidade. Grito abafado.

Gritos, que de tão repetidos, unem os que vociferam em um mesmo tom. Os clamores surgem de formas infinitamente distintas, mas que compartilham ao menos o próprio ato de se ressentir. A Chácara Santa Luzia é polo vivo de resistência. É grupo que se une e resiste. É povo que percebe as terríveis condições que lhes são destinadas. É cidade que luta por condições mínimas de qualidade de vida. Existe ali a clara percepção por parte dos moradores e moradoras do que acontece no interior e ao redor deles. Não simplesmente as lideranças da região se levantam – ou se aliam a grupos hegemônicos. Diversos grupos, e diversas redes de solidariedade forjadas pelas duras condições de vida, se posicionam acerca dos assuntos que envolvem milhares de pessoas atingidas pelas decisões de alguns poucos – distantes – que desconhecem completamente o panorama vivido e vívido, fervilhante de energia, existente em Santa Luzia. As flores murchas encontradas na entrada da região se distinguem, categoricamente, da capacidade dessas pessoas de construir mundos novos – errupção constante de novos casebres, grupos e sonhos. As casas, frágeis e raquíticas, constantemente destruídas pela implacabilidade e truculência da polícia, evidenciam a sua capacidade de lidar com adversidades e de moldar suas existências a partir dessas matérias primas adquiridas. Resistência. Criatividade. Solidariedade. Características que se efetivam conjuntamente. A Revolução vem da periferia.

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