UnB para quê?

Por Diego N. Nardi 

Israel Pinheiro insistentemente alardeou Juscelino sobre as inconveniências de uma Universidade em Brasília. Não entendia como poderia existir uma no meio do deserto, e, principalmente, não lhe agradava a ideia de estudantes próximos ao novo centro político do País. Aceitava reservar um terreno fora da cidade, para no futuro, quem sabe, fosse erguida uma Universidade.

Felizmente, por essas conjunturas do destino, não prevaleceu nem a opinião de Israel Pinheiro, nem de tantos outros opositores que ora defendiam a inexistência da Universidade de Brasília, ora tentavam influenciar na sua vocação. Lúcio Costa pensou Brasília com sua Universidade e manteve-se atento às investidas contrárias ao seu projeto. Conforme escreveu certa vez, a nova capital deveria ser “cidade própria ao devaneio intelectual, capaz de tornar-se, com o tempo, além de centro de governo e administração, um foco de cultura dos mais lúcidos e sensíveis do País”.

Concebera-se a Universidade enquanto elemento fundante e indissociável da cidade, pensando-a enquanto verdadeira UniverCidade. Ao lado de Lúcio Costa, estavam Darcy Ribeiro e Anísio Texeira que percorriam os gabinetes do governo, entre o Ministério da Educação, a Presidência e o Congresso, garantindo que a Universidade de Brasília não fosse apenas um projeto, mas realidade. Em 15 de dezembro de 1961, aproveitando-se do caos instaurado pela renúncia de Jânio Quadros, Darcy Ribeiro fez com que a Lei nº 3.998, responsável pela criação da Fundação Universidade de Brasília, fosse aprovada.

Em 9 de abril do ano seguinte, a UnB recebia seus primeiros estudantes. Cinquenta anos se passaram desde então e, afastada de seu projeto original, a UnB por longos anos pareceu agonizar diante das investidas das quais foi alvo. Foram-se os anos de chumbo, veio a redemocratização, mas a pergunta feita por Darcy parece estar longe de ser respondida e alcançada. Afinal, universidade para quê? Ao projetar e construir nossa Universidade, Darcy e Anísio pareciam dar vida à revolucionária resposta que pretendiam apresentar ao menos enquanto pontapé para os questionamentos futuros que não deveriam parar de surgir diante de tal pergunta.

A Universidade de Brasília não é uma universidade qualquer. Fora pensada enquanto “a casa da consciência crítica em que o Brasil se explicaria e encontraria saída para seus descaminhos”. Em oposição à fragmentação, vislumbrou-se a possibilidade de construir uma instituição capaz de vincular as partes e o todo, “capaz de apreender os objetos nos seus contextos, nas suas complexidades, na sua totalidade”. Sua fundação anunciou uma guinada. Não mais enquanto um complemento adicional da paisagem urbana, ou mera instituição de pesquisa e educação: ergueu-se a UnB enquanto instituição indispensável à democracia e com projeto político próprio que deveria ser definido pela e para comunidade da qual fazia parte.

Morada do pensamento complexo com dupla tarefa: na capital federal, cabia-lhe (e ainda cabe) mais que qualquer outra Universidade pensar e problematizar o Brasil em sua totalidade, ao mesmo tempo que deveria (e deve) exercer sua função enquanto instituição fundante de Brasília, articulando-se ao/problematizando o quebra cabeça urbano de inúmeras contradições que se revelou ter construído no planalto central.

A busca incessante pela liberdade através de uma consciência crítica foi o motivo principal que fez com que as armas tentassem calar suas vozes. Abriu-se uma Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar a profícua subversão que se construía a partir dela, e foi nessa ocasião que alertou-se para o “perigo” que a UnB representava ao Brasil, tornando-se “fator de indisciplina, de intranquilidade, para toda população de Brasília e quiçá para toda a população brasileira”. Felizmente, sua indisciplina colheu frutos e, apesar dos percalços, foi protagonista do processo que levou os militares de volta aos quartéis, abrindo espaço para que o povo ocupasse as ruas.

Em seus tempos iniciais, a UnB era uma ideia autêntica e revolucionária, não seguiu protocolos nem modelos importados. O mundo todo olhava ansioso para a experiência que se realizava no meio do deserto: a construção de uma Universidade diferente de qualquer outra e que já nascia não com amarras deterministas, mas com o papel claro de ser instituição indispensável ao Brasil em sua missão de “produzir na cidade inovadora uma gente nova de mentalidade renovada, sem nenhum complexo de inferioridade colonial e sem nenhuma subserviência classista”.

A UnB parecia surgir enquanto Pós-Universidade[1]: o modelo milenar criado no medievo para combater o dogmatismo que emergia dos conventos já havia deixado o  espírito contestador que marcara sua origem, tornando-se obsoleto e impotente diante de uma realidade cada vez mais fragmentada e complexa, cada vez mais dominada por uma razão instrumental. Se outrora foram elas o berço de revoluções, na década de 50 – e hoje a situação não é distinta, apesar de alguns lampejos nessas últimas décadas, como a de 60 – as universidades já haviam incorporado o papel de conventos modernos: desejavam e desejam ser autoridade única na produção e divulgação do conhecimento, tratando-o não enquanto ferramenta para emancipação, mas enquanto mercadoria capaz de fornecer privilégios e acentuar ainda mais as desigualdades que deveriam ser por elas combatidas.

Passados 50 anos, a UnB luta para não se tornar mais do mesmo. Tarefa difícil. Uma onda conservadora obstinada a privar a universidade de seu papel democrático parece emergir em todos os espaços através de discursos que optam por não refletir sobre problemas reais que afetam não apenas a Universidade, mas Brasília e, principalmente, o Brasil. Opção que se identifica em ataques à construção de uma gestão pautada por um modelo horizontal visando efetiva democracia participativa na Universidade, em ataques à uma universidade sem muros e universal, à construção de um ensino não hierárquico, ao engajamento político transformador e, principalmente, à construção de uma universidade verdadeiramente brasileira e que busca e constrói um conhecimento autônomo e ético.

Felizmente, ao menos a partir das experiências que vivi nesses quase seis anos de UnB, se crescem o número de atores que se identificam com o discurso da neutralidade ou do conservadorismo político, em outras palavras, de um conhecimento não engajado, descomprometido com a transformação social e pela manutenção das relações de opressão e poder na sociedade, multiplicam-se os coletivos e atores engajados em pensar não apenas a proposta política revolucionária que a UnB trouxe consigo, mas pensar e lutar por uma Universidade que seja encarada como elemento indispensável à democracia, onde a realidade é objeto de crítica e matéria para transformação, onde a sociedade não seja mero contexto, mas elemento constituinte sem o qual a Universidade não possui razão de ser e onde o pensamento complexo tem abrigo contra os ataques do pensamento único.

Enfrentar constantemente a pergunta Universidade para quê?, é reafirmar “o papel da universidade como a Casa em que a Nação brasileira se pensa a si mesma como problema e como projeto”, como palco onde a sociedade, sobretudo através dos movimentos sociais,  torna-se protagonista da produção de um conhecimento emancipador que a todo momento busca questionar e transformar a ordem estabelecida, afinal a vocação da Universidade, desde sua origem, é incitar a indisciplina revolucionária através de uma postura “indagativa de autoquestionamento”.  E é justamente a falta de autoquestionamento que devemos evitar, sob o risco de permanecemos obsoletos e incapazes de oferecer qualquer contribuição, possibilitando que o sonho de Israel Pinheiro e não o de Lúcio Costa, Anísio Teixeira e Darcy Ribeiro ganhe vida.

“Nossa tarefa é o Brasil, mas nossa missão fundamental para que o Brasil se edifique para seu povo é a liberdade”.  Darcy Ribeiro.


[1] Expressão usada pelo Prof. Cristovam Buarque no texto “Universidade e Democracia”, disponível em: http://www.revistasusp.sibi.usp.br/pdf/revusp/n78/08.pdf.

Um pensamento sobre “UnB para quê?

  1. Fantástico seu texto, Nardi. Quem já estudou em ou visitou outras universidades, sabe como a UnB é diferente. Mesmo que estruturalmente a UnB não seja, atualmente, um modelo revolucionário de educação e gestão, há motivos para acreditar que, se alguma mudança acontecerá, ela pode começar por aqui.

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