Macabéa e a (não)livre manifestação do eu

Por Aurélio Faleiros

Caro é transformar-se num arremedo de si próprio
a ponto de nem se reconhecer mais. (130 anos – Agridoce)
 

Você seria capaz de dizer quantas vezes sentiu vontade de fazer algo e não o fez simplesmente por pensar que não te entenderiam? Por sentir medo do que as pessoas fossem pensar? Por não ser convencional? Seria capaz de contar ainda quantas vezes teve vontade de fazer algo simples e não o fez? Vontade de cantar, de chorar, de gritar, de vestir-se diferente, de fazer algo diferente.

Tudo que fazemos está em certa medida condicionado por padrões sociais. Esses padrões estão associados a atribuições do que é belo, normal, correto, etc. Baseando-se nisso, a sociedade determina quais condutas são aceitáveis e quais são dignas de sanção. E não se trata aqui da sanção penal, essa sanção manifesta-se na forma de qualquer repreensão que possa ser atribuída a uma conduta, uma risada sarcástica ou um olhar de desaprovação, por exemplo.

É dessa forma que somos constantemente tolhidos no exercício de nossas subjetividades. Muitas vezes não nos colocamos da forma que desejamos por medo de que a sociedade, ao identificar essa conduta como destoante, venha a sancionar essa livre manifestação do ser. Expressar-se de alguma forma, nesse sentido, é uma tarefa perigosa que exige coragem.

O ato de escrever, por exemplo, não está livre de ser condicionado por esses padrões. Tenho certeza que alguns dos possíveis leitores deste texto já escreveram enormes ensaios jogados no lixo simplesmente pelo medo de que as pessoas não possam entendê-los, ou ainda que venham a chamá-los de ridículos, mal escritos, inadequados etc.

Clarice Lispector descreve de forma talvez um pouco confessional através de seu personagem-narrador Rodrigo S. M. de ‘’A hora da estrela’’ como o ato de escrever, como uma manifestação de subjetividade, é também um ato de coragem. Isso é perceptível especialmente em um trecho específico:

“Não estão me entendendo e eu ouço no escuro que estão rindo de mim em risos rápidos e ríspidos de velhos. E ouço passos cadenciados na rua. Tenho um arrepio de medo. Ainda bem que o que vou escrever já deve estar na certa de algum modo escrito em mim. Tenho é que me copiar com uma delicadeza de borboleta branca.”

O medo do riso alheio e a sensação de nunca ser compreendido são reflexos da impossibilidade da livre manifestação do ser gerada pelas sanções impostas à mesma.

Macabéa, a personagem principal de ‘’A hora da Estrela’’ (livro que me incitou a escrever esse texto) é na minha opinião um retrato esdrúxulo construído por Clarice de um processo de tolhimento que todos/as nós sofremos em certa medida.

A moça é nordestina e perdera os pais muito nova, desde então fora criada por uma tia que a reprimia muito. Macabéa por ser sempre muito tolhida pela tia e pelas circunstâncias da vida não tinha consciência de si própria, não sabia quem era e não conseguia refletir sobre isso. A moça era inexpressiva, quase não falava e era incapaz de uma manifestação de subjetividade. Não se considerava triste, era feliz porque acreditava que todos eram obrigados a ser. Era incapaz de mostrar-se, de rebelar-se ou ainda de manifestar o seu ser de alguma forma. A vida carregava Macabéa assim como um jornal antigo que já não é lido e é jogado na rua, sendo carregado pelo vento. Ambos já não transmitiam mensagem, são levados pela inércia da vida.

Nesse sentido, somos todos/as um pouco Macabéa. Muitas vezes não nos expressamos inteiramente por medo, medo do que possam dizer, medo do que possam pensar. E assim a sociedade vai nos moldando. Já não somos nós mesmos, as pessoas tolhidas padronizam seu comportamento, agem sempre de forma semelhante. São fruto de uma cultura normalizadora. É nesse contexto que o manifestar-se se torna um ato de coragem. Despir-se de padrões de mostrar-se por inteiro pode ser muito amedrontador.

A solidão torna-se, muitas vezes, portanto libertadora. Em seu âmbito particular as pessoas são mais capazes de expressar-se, pois livres das sanções impostas pela sociedade, sentem-se seguras.  Assim como Macabéa se sentiu quando ficou sozinha em casa e ‘’Tinha um quarto só pra ela. Mal acreditava que usufruíra do espaço. E nem uma palavra era ouvida. Então dançou num ato de absoluta coragem, pois a tia não a entenderia. Dançava e rodopiava porque ao estar sozinha se tornava: l-i-v-r-e! ‘’

Macabéa nunca tivera coragem de dançar em público então, sozinha, ela pôde dançar e rodopiar, se permitiu ousar sem o medo de ser repremida por ninguém. Aquele momento fora sem dúvida de uma intensidade muito grande.

Esse é um exercício que deve ser praticado por todos/as. Manifestar-se de qualquer forma que seja é um ato extremamente saudável. É preciso que conheçamos mais de nós e que possamos nos mostrar mais, sem medo de repreensões para que não caiamos na armadilha de não ter sido pleno/a. É essencial que fujamos do futuro saudosismo daquilo que não foi, assim como o de Rodrigo S. M. que, em suas próprias palavras: ‘’E agora só queria ter o que tivesse sido e não fui.’’  Para isso é preciso também enxergar o outro/a, permitir que ele/a se expresse de forma livre, sem que seja sancionado/a ou constrangido/a. Isso é fundamental para que  tenhamos cada vez menos de Macabéa e mais de nós mesmos.

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