“Um brinde ao fim do mundo”*

Por Ana Paula Duque.

Fenômeno que vem ganhando destaque na Europa e, em especial, nos Estados Unidos, os preppers (também chamados de seguidores/as do prepping ou adeptos/as do sobrevivencialismo¹) ainda permanecem desconhecidos no Brasil.

De forma geral e resumida, o Prepping pode ser definido como uma cultura de preparação para o fim do mundo. Seus/suas adeptos/as, confiantes na certeza de que o fim está próximo, não aguardam uma ameaça específica ou previamente agendada: estão preparados/as para tudo, a todo tempo, prontos/as para se defender e criar estratégias de sobrevivência frente as mais variadas formas de risco à continuidade da vida. Prevendo inúmeras situações de perigo como, por exemplo, apocalipses bíblicos, injeção de massa coronal, violência urbana, enchentes e guerra nuclear, ataques de zumbis ou invasões alienígenas, seu lema é “não ser visto como uma presa”.

A origem moderna dessa subcultura de preparação para o fim do mundo pode ser remontada à época da Guerra Fria: sob a ameaça constante de uma Guerra Nuclear entre EUA e URSS, o governo norte-americano estimulava seus cidadãos e suas cidadãs a estocarem comida, montarem abrigos nucleares e a prepararem-se para a catástrofe que poderia surgir a qualquer momento, vinda de qualquer lugar.

A guerra acabou, mas a preparação continua. Mais de cinquenta anos após a 2ª Guerra Mundial e mesmo após a queda do antigo “inimigo vermelho”, a insegurança e o medo do “Outro” (qualquer que seja ele, conhecido e nominado ou não), fizeram com que não só observássemos a permanência da cultura da preparação, como a sua real expansão.

A cada novo desastre natural, queda na bolsa de valores, supostos ataques terroristas, alta inflacionária e descoberta de corrupção governamental, somam-se adeptos/as às fileiras da preparação.

Sob a égide do medo e insuflados pela cultura da insegurança, vemos milhares de pessoas equipando suas casas de modo a torna-las sustentáveis e “seguras” (dos ataques do além, da tragédia, do eterno possível ataque de quem eu não conheço e, por isso, me amedronta), despendendo seu dinheiro em estocagem de comida e seu tempo em formas de desenvolver habilidades “úteis” para o enfrentamento do fim do mundo.

Alarmados com o porvir, os preparados gastam todo o agora se aparelhando para a ameaça futura, desenvolvendo não apenas mecanismos fuga e o isolamento, como também “a desconfiança armada em relação aos ‘não preparados’, que se tornam suspeitos porque poderiam se transformar em saqueadores”².

Ao cultivar o receio crescente do “não preparado”, o Outro aparece mais uma vez como uma ameaça a ser combatida, minada: para além da ameaça catastrófica fantasma, o diferente amedronta e isola. Assim, a preparação para o fim do mundo envolve bem mais do que a mera estocagem de alimentos: solapa também os laços de amizade, de companheirismo, de amor. Diante de tanto medo, a reclusão, física e emocional, do diferente.

O sociólogo polonês Zygmunt Bauman discorre em seus livros sobre a fragilidade das relações humanas, constantemente ameaçadas pelo medo do envolvimento – o medo de ser saqueado, sabotado, o medo, enfim, de se assumir susceptível ao que o relacionamento com o próximo pode nos fazer viver/sentir -. Diante de um mundo líquido, inconstante, insólito, que muda e se transforma continuamente, nada é feito para durar. Vivemos, assim, atormentados/as pela incerteza, numa fixação constante por combatê-la e saná-la. Frente esse universo repleto de ameaças, propenso a mudanças imprevisíveis, a modernidade líquida se apresenta como um culto ao individualismo e à falta de capacidade de amar e construir relações com o próximo. Em “Medo Líquido”, parafraseando Miguel de Cervantes, Bauman nos adverte “O medo tem muitos olhos e enxerga coisas no subterrâneo”.

Diante da insegurança, a reclusão. Frente ao diferente, a suspeita da ameaça. Somado a tudo isso, o constante e eterno espectro do medo da proximidade e do envolvimento.

À primeira vista, podemos até pensar no Prepping como algo absurdo e irreal, fruto da insegurança e excentricidade de alguns. No entanto, olhando mais atentamente, seja à espera da destruição da humanidade, seja à espera do ataque inimigo daquilo que me é diferente, acabamos, todos/as nós, em algum grau, nos preparando para o “fim”. No caminho em que seguimos, antes do fim do mundo, o fim da própria humanidade. Que nenhum de nós aceite e se prepare para isso. Sejamos todos/as Outros, não condicionados, não condescendentes e “não preparados” para o fim da solidariedade e para o amor líquido³.

*O título faz referência a uma das primeiras frases do episódio inicial do programa da  National Geographic Channel intitulado “ Preparados para o fim do Mundo”, que conta a história e o cotidiano de famílias preppers. Os primeiros episódios estão disponíveis em: http://www.youtube.com/watch?v=CL4whNFNZzE
¹ Um dos poucos sites brasileiros que trata sobre o assunto é o http://sobrevivencialismo.org/. Destaque para o artigo que trata sobre a hipótese de Apagão, em que o autor do blog adverte:  “Não chame atenção das pessoas na rua, elas poderão querer invadir para saquear;”
² http://www.diplomatique.org.br/artigo.php?id=1234
³ “Amor Líquido” é outro livro de Zygmunt Bauman, no qual ele analisa a fragilidade dos laços humanos, discorrendo sobre como a nossa capacidade de tratar um estranho com humanidade tem sido prejudicada, além de investigar como as relações humanas tornam-se cada vez mais “flexíveis” e fugazes, frente a incapacidade de mantermos laços a logo prazo.

4 thoughts on ““Um brinde ao fim do mundo”*

    • É preciso sim, Anônimo. Invisibilização do gênero na escrita também é, ao meu ver, uma forma de violência – a qual eu me contraponho.
      Fico feliz que tenha gostado do texto.
      Abraços,
      Ana Paula Duque

  1. Curti o texto! Eu sempre acho interessante esses casos excêntricos, pois não são algo distante, mas são a própria caricatura do que todxs nós somos, daquilo que nos tornamos a cada dia.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s