“Ah, mas eu não era assim até…”

Por Marcos Vinícius Lustosa Queiroz

Nesses meus anos de Universidade, sempre me deparei com um discurso pra lá de curioso, interessante e que me despertava um sentimento de dúvida. Esse argumento se baseia no seguinte raciocínio: eu não era desse jeito, mas daí apareceram esses/as radicais e me fizeram mudar de pensamento. Até então eu não era contra isso, mas depois que começaram com esse papo, eu mudei de postura. Exemplificando para ficar mais claro e para nos atermos a um caso específico. Muitos/as dizem que não eram machistas ou que não defendiam discriminações de gênero, no entanto, depois que tiveram contato com o feminismo, adotaram comportamento diverso, no qual relativizam os direitos das mulheres ou não são afetos à luta emancipatória feminina.

Junto a esse discurso, ideias de que a constância de certos argumentos, a necessidade de afirmação cotidiana de certos posicionamentos e a “implicância” de certos grupos geram um afastamento daqueles/as que poderiam aderir à causa feminista. Por trás disso, há a afirmação de que o contato com esse/a outro/a, diferente e reivindicatório/a, gera a própria negação ou distanciamento daquilo que os/as caracteriza. Ademais, está atrelada uma postura de reação, na qual diante do discurso diferente, há a ação de um comportamento de defesa contra esses argumentos “radicais”.

Não quero entrar nas particularidades que esse debate poderia gerar, mas gostaria de me deter na afirmação de que “eu não era assim até me aparecerem com esse discurso radical” a partir da noção gadameriana da compreensão, para dessa forma questionar os limites da veracidade desse tipo de argumentação. Além disso, procurar observar se por traz desse discurso não há o escamoteamento de uma postura que busca negar a própria alteridade.

Segundo Gadamer, o ato de compreender é sempre a elaboração de um projeto prévio, o qual implica a necessidade de opiniões anteriores e não arbitrárias. A compreensão, em sua estrutura circular, baseia-se na própria ideia de pré-juízo, em que o conhecimento posterior sempre apresentará uma transformação imperceptível da tradição anterior. Assim, o ato de compreender o mundo não aparece como ato puro da subjetividade, mas como um mover-se a um acontecimento da própria tradição, na qual ocorre a mediação do passado e do presente.

O ato hermenêutico de interpretação da realidade encontra-se sempre no movimento dinâmico da pré-compreensão, que é reatualizada constantemente no contato e abertura com novos pontos de partida, de perspectiva e de mundo. Compreender, portanto, está sempre relacionado com nossas expectativas anteriormente criadas, em que a possibilidade hermenêutica é determinada pela situação histórica do ser que interpreta a realidade.

Diante dessa noção, a frase “ah, eu não era assim…” ganha uma problemática tremenda e reveladora. Primeiramente e em sua consequência, nota-se complicado alguém se afirmar como machista logo após o contato com o “radicalismo”, pois a própria compreensão machista, de acordo com a estrutura circular da compreensão, já estava, em alguma medida, introjetada nos pré-juízos daquele/a que interpreta e age sobre o mundo. Se afirmar como “transformado em machista” justamente após uma relação abrupta – e somente por isso – é negar a própria possibilidade da compreensão; é negar o passado dentro do qual o presente se possibilita, se realiza e se constitui.

Essa noção não foge em nada das análises que estruturam os comportamentos machistas enquanto frutos de padrões de socialização, os quais formarão, em grande medida, a própria possibilidade de compreensão do mundo. O machismo constitui uma das lentes de nossa subjetividade, reconheçamos ou não. Mas antes que se caia no imobilismo essencialista, dirijamos para o segundo problema da afirmação “ah, eu não era assim”.

Ao adotar uma postura reativa aos discursos de grupos feministas, essas pessoas estão dogmatizando sua própria tradição machista imperceptível, estabelecendo uma metafísica comportamental e relacional que não possibilita justamente o exercício da alteridade. O/a outro/a, enquanto tentativa de construção de uma tradição diversa, portador de uma generalidade divergente e que busca compreender a partir de outra perspectiva, é a própria possibilidade da abertura do ato de compreender. Em sua diversidade, a alteridade faz com que a tradição individual se autofundamente constantemente na tentativa, sempre incompleta, de compreender o/a outro/a. A inclusão pessoal do/da diferente é o ponto de crítica que possibilita a própria quebra da metafísica compreensiva.

Portanto, a frase “ah, eu não era machista até as feministas radicais aparecerem”, além de negar a própria tradição histórica na qual se situa o comportamento machista formador da possibilidade de nossa compreensão, exclui, ao dogmatizar esse passado/presente por meio da invisibilização, a força crítica e transformadora da alteridade. No fundo, e por traz dessa metafísica comportamental, talvez se esconda não só uma reação ao diferente, mas o medo de (se) transformar ou uma conivência com o estabelecido.

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