Procure o monstro no espelho

Por Luisa Hedler

Já vivemos em um mundo de monstros: dos sacis, dos lobisomens, dos demônios, das criaturas horríveis que habitavam a noite, a floresta, o estrangeiro e os nossos sonhos. Tivemos séculos e mais séculos de narrativas mitológicas e literárias que conseguiam com maestria condensar o conceito tão etéreo do Mal em carne e osso (ou ectoplasma, ou qualquer tipo alternativo de matéria), ou melhor dizendo, na matéria ainda mais sólida da qual são feitas as construções da mente humana. Falava-se em criaturas de aparência fantástica – ou, pior ainda, de uma aparência comum que mascarava algum horror oculto -, com características aberrantes e conseqüências desastrosas para quem cruzava seu caminho. Falava-se, sobretudo, do Mal encarnado em uma entidade que se afasta da natureza humana.

 A origem da palavra monstro, aliás, significa justamente isso: a ocorrência de algo raro, aberrante, anti-natural e que, de acordo com a cultura Greco-romana, significaria um aviso divino de que alguma falta havia sido cometida. Não eram necessariamente “maus” em si – Aristóteles chegava a classificar os monstros apenas como ocorrências raras, sem a fúria divina – mas apresentavam aparência desviante, prodigiosa, como minotauros, medusas, esfinges, quimeras. Fora da mitologia, as monstruosidades eram deformações físicas, hermafroditas (que na época eram consideradas como maravilhas), e até mesmo a ocorrência de gêmeos. É monstruoso aquilo, enfim, que não ocorre habitualmente.

 Ao longo das páginas de uma história descuidada e apressada, nos saltam aos olhos as criaturas fantásticas das escuras florestas medievais, os fantasiosos demônios confessados aos gritos nas torturas inquisitoriais, até que todos os cantos escuros da mente humana possam ser banidos pelas grandes tochas Iluministas, colocando fim a qualquer refúgio que os monstros ainda pudessem ter na humanidade… Só que não.

Em um tempo dito pós-mitológico, os monstros ainda nos assombram da literatura (e, posteriormente, dos filmes), para dar um corpo a sentimentos de horror diante de nossa própria condição: o descontrole da ciência nos encara nas frases acusadoras do monstro de Frankenstein; a imortalidade predatória assume ares aristocráticos com Drácula, de Bram Stoker, e incontáveis contos e filmes de horror se proliferam até agora para explorar e esmiuçar cada medo e cada temor que ainda persiste na mente humana distraída.

Isso sem falar nos nossos monstros tão reais.

Porque, uma vez que não há mais os mitos para condensarem a realidade do Mal em algo exterior, nas palavras de Giacommo Leopardi, o mal está em toda parte e tudo é mal. O mal é cometido, mas também é sofrido, e, como sofrimento, é a essência dos seres vivos”.[1]

Os monstros, em sua função social e política, serviam como uma forma de representação para exteriorizar características indesejáveis em alguma sociedade e projetá-la para fora, desempenhando o papel de mantenedor de regras sociais: “Grupos sociais precisam de fronteiras para manter seus membros unidos dentro delas e proteger-se contra os inimigos fora delas. (…) As fronteiras existem para manter medida e ordem; qualquer transgressão desses limites causa desconforto e requer que retornemos o mundo ao estado que consideramos ser o certo. O monstro é um estratagema para rotular tudo que infringe esses limites culturais.(…) Monstros fornecem um negativo da nossa imagem de mundo, mostrando-nos disjunções categóricas.”[2]

Esse tipo de discurso não nos soa estranho – podemos falar do ponto do político em Schmitt, na vida nua de Agamben, enfim, no Outro – mas prefiro eu falar da figura fantástica, mas ainda mais próxima, do monstro dos dias atuais. Quais características de nossa sociedade queremos desesperadamente exteriorizar, quais recônditos do íntimo de nossa cultura queremos nos livrar e jogar naquele que é [ou ao menos, parece] diferente de nossa natureza?

É só ligar a televisão por dez minutos que os encontramos: o assassino, o estuprador, o político corrupto, o pedófilo, a matadora de criancinha, o terrorista, a mulher de burca, a criança prostituta, Hitler, Stalin e o mendigo que faz você atravessar a rua quando está andando na calçada. Afinal, cada um e cada uma, à sua maneira, representa algo que rejeitamos como pessoas “do lado de cá” da humanidade, das famigeradas “pessoas de bem”. São aqueles cujo comportamento não se explica pelas regras da racionalidade,

O problema da pergunta por nossos monstros atuais – e o pior, da possibilidade bem concreta de resposta – é justamente que, na sociedade que se pretende cada vez mais interligada, não existe mais lado de fora. Se devem cair por terra as distinções, somos todos parte da mesma enorme (e infinitamente barraquenta) família humana, e não há mais uma linha fronteiriça para onde empurrar nossos monstros.

A figura do monstro é confortável porque não exige muitas explicações para os porquês do mal, muito menos por sua extensão – afinal, o mal se encerra na figura do monstro raro e anti-natural, que se afasta e diferencia automaticamente das pessoas consideradas normais.

Como figura mitológica, é muito interessante por conseguir expressar e condensar em uma metáfora uma sensação que por vezes é indizível e inexplicável; agora, da perspectiva de uma sociedade que se pretende democrática e composta por cidadãs e cidadãos, é algo inadmissível.

Não estamos falando aqui de metáforas etéreas, mas sim de pessoas de carne e osso, que foram criadas e praticam suas ações dentro de um contexto específico – e, o que talvez seja mais desconcertante, um contexto que ajudamos a construir com nossas políticas estatais e normas sociais. Assim como o monstro-metáfora, o “monstro” de carne e osso como tal é uma projeção do indesejável e indizível da sociedade que habita – um fardo pesadíssimo para um ser humano que é o monstro da vez, que carrega tudo nas costas para que a sociedade “do lado de cá” possa fazer sua dieta da consciência.

O caso mais clássico (ou talvez mais próximo, por meu caminho acadêmico) seja o caso do estupro. Uma das grandes dificuldades de lidar com esse tema com a devida seriedade se deve ao fato de que muitos estupradores sequer se reconhecem como tal – afinal, o estuprador é o monstro com sexualidade descontrolada que fica à espreita em locais ermos para castigar as mulheres que se vestem ou agem de forma “provocante”, e não um cara legal, penteado e perfumado, com família e amigos, que trabalha e estuda e que “força a barra” com aquela novinha gostosa porque “bêbada daquele jeito e com aquele mini-short tava na cara que queria dar.” Ou um marido que está só exigindo o que é de direito no casamento. Ou o namorado que vai em frente e não entende porque a menina disse que queria, mas depois ficou se fazendo de difícil, dizendo que nem queria mais… Eu poderia continuar por páginas e páginas. O sistema penal vive cheio desses exemplos.

Antes que o corifeu dessa tragédia grega puxe a ladainha de “apologia aos marginais!”, não quero em momento algum excusar da responsabilização por seus atos de qualquer pessoa que cometa algum ato considerado monstruoso – se punível por lei, diga-se de passagem – mas sim de um olhar mais pensado sobre a situação que cercam os tantos casos da monstruosidade. Muitas vezes, os monstros são simplesmente exacerbações ou interpretações exageradas de normas sociais que já estão presentes no contexto social. O monstro que dirige bêbado e mata uma família inteira merece morte, mas qual o papel que a bebida alcoólica tem na nossa sociabilidade? O monstro que bate em mulher foi educado com que ideia a respeito das mulheres? São perguntas complicadas, e muitas respostas acabam sendo doloridas e chegando perto demais de nossos hábitos e crenças. É muito mais fácil rejeitar a reflexão e se refugiar na metáfora do monstro, tão raro, tão distante…

 …mas  se quiser mesmo ver um monstro, é só olhar no espelho.


[1] Op cit. JEHA, Julio (org). Monstros e Monstruosidades na Literatura. Ed. UFMG. Belo Horizonte: 2007.
[2] JEHA, Julio (org). Monstros e Monstruosidades na Literatura. Ed. UFMG. Belo Horizonte: 2007.

3 thoughts on “Procure o monstro no espelho

  1. Luisa, como tive a oportunidade de falar para você, texto monstruoso!
    Revelador da inconstância que você é, sempre com questionamentos novos e pensamentos novos, articulando-os de uma maneira fantástica e com uma escrita muito gostosa de ler!

    Reconhecer no monstro o humano é se reconhecer nele, admitir que ele está muito mais próximo do que gostaríamos e que entre eu e ele há muito mais semelhança do que acreditamos. É assumir ser, em alguma medida, monstro. Algo fundamental para começar a responder essas perguntas que você lança mas que, infelizmente, quase todos preferem deixar inquestionadas e continuar acreditando que os monstros são, como você diz, tão raros e tão distantes. Fantástica reflexão.

    Seu texto conseguiu expressar muito do que ficou entalado na minha cabeça quando discuti ontem com um colega sobre sua forma de pensar as periferias urbanas como monstros, distantes e estereótipos de todo mal que uma cidade pode carregar consigo. E incapacidade de reconhecer que a periferia é cidade. Acreditando que está fora, tem-se espaço para justificar as mais terríveis condutas para domar o monstro e impedir que toda sua “maldade” transborde e alcance aquela realidade que lhe é distante e estranha. E quando o monstro chega perto demais, aí começam essas convulsões por recrudescimento penal, policial, político e tudo mais que os afastem. “Com o preparo dos bandidos de hoje, é aceitável a “grosseria” da polícia para atuar de igual para igual”. Iguala-se tudo aos monstros, e é apenas para combater os monstros que se aceita assumir certa condição de monstro, mas nessa postura impensada, quando se eliminam os velhos monstros, permanece o novo criado para combatê-los que é fruto da vontade de uma maioria que não é capaz de reconhecer essa monstruosidade que carregam, afinal naturalizaram todo mal nesse processo sem parar para refletir uma única vez sobre o que são os monstros contra quais lutavam, perguntar e criticar a própria realidade, a sociedade onde estão todos esses monstros. Meu medo é algum dia não haver um capaz de olhar no espelho e ver um monstro. Acho que viajei, mas viajei demais com seu texto! Gostei muito mesmo! Parabéns!

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