A Despinguinização do Ego

Por Fernanda Potiguara

Em nossas críticas à universidade está sempre presente a relacionada ao processo de pinguinização sofrido pelos estudantes universitários de direito. Pinguinização do corpo, porque, com o tempo, o estudante torna-se desajeitado como um pinguim, por ter seus movimentos corporais e divagações mentais lapidados pelo enquadramento “necessário” à formação jurídica.

É o lento processo de inserir no aluno a marca registrada de seus mestres, pinguins “já formados”, com toda a insensibilidade que lhes é inerente. A academia seria, portanto, uma fábrica de emolduração de discípulos, à imagem e semelhança de seus mestres, que seriam figuras ideais. Com eles, os novos pinguins aprendem que tudo o que precisam saber para “conquistar” é o exposto na universidade, conteúdo que eles devem assimilar e reproduzir com fidelidade.

Portanto, a lição “um” é sobre o requesito essencial para uma boa desenvoltura no mundo jurídico: a grandiosidade do saber, tendo por consequência a sua própria superioridade como detentor desse conhecimento. Trata-se do pedestal, onde o mundo é visto de cima para baixo, onde todos parecem estar num nível inferior, com exceção de um seleto grupo de indivíduos.

Mas, como já dito, essa é uma nossa crítica constante. A marcha anti-pinguim, como dizia Warat, ou seja, o processo de despinguinização tem sido lema- felizmente- de vários estudantes. Acontece que nesse movimento de volta do “mundo metafísico e jurídico” ao “mundo comum” surgem dificuldades, ainda que haja a mais boa intenção.

A luta contra o ensino doutrinário, que não permite nem a autonomia do aluno nem a crítica, é bem assimilada como bandeira pelos “despinguinizandos”… a crítica ao jeito de se vestir padronizado também recebe aplausos. Mas a crítica ao desdém quanto a outros saberes, é visto com ressalvas.

Na teoria, a beleza da complexidade dos saberes ganha o discurso, com acaloradas vivas; mas a prática encontra um obstáculo imponente: o ego pinguinizado. Afinal, desde que se entra na Universidade não se é mais uma “pessoa comum”, mas um futuro doutor, um eminente orador, um ser superior. Até porque, o saber universitário, por sua magnitude e complexidade, exige dedicação peculiar, leitura de textos dificílimos, interpretações infinitas… Igualar o “detentor” desses saberes a qualquer outra pessoa pode ser considerado um ultraje.

E assim criam-se níveis hierárquicos não só dos novos pinguins com relação ao “resto do mundo”, mas ainda (pasme!) entre eles mesmos, de acordo com a capacidade que têm de assimilar textos ininteligíveis, de autores tão “superiores” que não podem ser compreendidos por qualquer leitor, se é que o pode ser por algum. Quanto mais incompreensíveis as leituras que o aluno tem melhor ele é, mais culto, mais inumano.

E se isso acontece nos corredores de uma faculdade extremamente seletiva com a entrada de seus membros discentes e docentes, quanto mais quando comparamos esse saber altivo com qualquer outro tipo de saber. O máximo que se alcançará é a hipocrisia de se considerar importante o “saber comum” no discurso.

Faço essa crítica aos egos, incluindo o meu mesmo, que tantas vezes peguei tentando se sobressair, com esses mimos fúteis que nos fazem dentro do processo de pinguinização, na formação dessas aves superiores.

Se não vemos no outro que está ao nosso lado no processo de pinguinização, alguém capaz de entender nossos pensamentos complexos, então, ainda somos pinguins, que discursam sobre o “saber popular” como uma espécie de saber tão válido como os nossos, mas que não acreditam de fato na igualdade de saberes e muito menos na igualdade das pessoas “detentoras” desses saberes.

One thought on “A Despinguinização do Ego

  1. Fernanda,

    Gostei muito do texto. Isso me faz refletir sobre como muitos que se propõem a estudar movimentos sociais, simplesmente fazem deles verdadeiros objetos, sem buscar estabelecer um diálogo real que possibilite a construção de um conhecimento ecológico. Tratar o outro enquanto outro é não apenas respeitá-lo e incluí-lo, mas levá-lo a sério como sujeito detentor conhecimento válido e que merece ser considerado, incorporado e utilizado não como algo inferior, mas como um conhecimento diferente que nos enriquece, enriquece nossas pesquisas e apresentam alternativas para resolução de tantos problemas que temos por aí para solucionar.

    Parabéns pelo texto!

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