Diálogos sócio-animalescos em: os Saltimbancos e a vida (des)humana

Por Hugo Sousa da Fonseca

Às vezes me sinto como alguém que não tem outro assunto. Mas paciência… fui me apaixonar pelo teatro e agora vai ser Freud recusá-lo na minha vida. Perto de postar minhas reflexões aqui nesse blog, estive pensando em como publicizar nossas atividades na oficina de Teatro na Estrutural. Não por mero “vejam o que fazemos”, mas por um “venha conosco, acrescente e contribua”. Assim, já fica aqui o convite!

Um dos nossos projetos é a apresentação de uma peça teatral, provavelmente no fim desse ano. A idéia é encená-la para a comunidade da Estrutural, na UnB e também onde quer que sejamos convidados. A peça escolhida foi Os Saltimbancos, de Luiz Enriquez e Sérgio Bardotti, na versão de Chico Buarque. Trata-se de um musical cujos personagens são humanos-animais ou animais-humanos, eu realmente não sei. Nas formas de falar e andar, no tom de voz, no figurino e maquiagem, os animais são recorridos, cada qual com sua história, porém, por outro lado, essa zoomorfização está sempre traduzindo pretextos para escancararmos criticamente a vida humana, com toda a complexidade das relações sociais.

I – Saltimbancos?

Um pouco da trama está subentendida no título. Como sugere o burro, Saltimbancos (que, segundo o dicionário inFormal, são integrantes de um grupo de nômades-atores que vão de um povoado a outro fazendo exibições de circo e comédia, em troca de dinheiro ou comida e hospedagem) poderia simbolizar bem aquele grupo de cantoras/es que anda pelas ruas cantarolando suas sinas e convidando cada vez mais pessoas para acrescentarem voz, experiências diferentes e novos sonhos. Porém, andar e cantar por aí não é o único ofício saltimbanco. Com esse nome, enfatiza-se também o fato de que para ser integrante desse grupo, é preciso estar em constante aprendizado, utilizando as garras também para a cada dia ser um(a) cantor(a) melhor. Desse modo, aquela trupe de animais cantores construía sua identidade de grupo, à medida que amenizava alguns egos, mas sem perder a riqueza de se construir nas individualidades, bem marcantes por sinal.

II – O Jumento

Limão mexerica, mamão, melancia
A areia, o cimento, o tijolo, a pedreira
Quem é que carrega? Hi-ho
Jumento não é
Jumento não é
O grande malandro da praça
Trabalha, trabalha de graça
Não agrada a ninguém
Nem nome não tem
É manso e não faz pirraça

É, sem dúvidas, o líder de todo o grupo. Sensato, ponderado, e bem (no sentido de muito) vivido, caminha rumo à cidade com a idéia de ser cantor: “já que eu não sei fazer nada, vou virar músico. Hoje em dia todo mundo canta!”. Assim, ele ia à cidade para tentar concretizar essa vontade, que não chegava a ser um sonho, mas uma nova saída para sua vida, sofrida.

A possibilidade de sonhar talvez fosse algo que a dura realidade tivesse castrado nessa personagem. O Burro, na verdade, simboliza alguém realmente muito cansado. Cansado de ter seu corpo e sua força como meio de sustentação da riqueza alheia; cansado de trabalhar, trabalhar e trabalhar e ainda assim desagradar a muitos, sem poder descansar, exausto. Típico trabalhador alienado, cuja relação com o prazer e o próprio corpo é unicamente relacionada à satisfação de necessidades, o Burro chega a algumas conclusões no decorrer da peça, que o configuram com um perfil manjado da dinâmica social opressora, mas que se sente impotente frente a ela. Parece alguém velho. Imagino-o encurvado, com uma corporeidade afetada pelos tantos anos de uma vida pautada pela mecanização estressante e cansativa.

O Jumento caminha: quer novos rumos, o destino é a cidade. A música, as/os novas/os amigas/os, Os Saltimbancos o fizeram ter mais ânimo em viver. O primeiro a compartilhar dessa experiência musical, junto ao Burro, foi alguém bastante peculiar…

III – O cachorro

Estou às ordens
Sempre, sim, senhor
Fidelidade
À minha farda
Sempre na guarda
Do seu portão
Fidelidade
À minha fome
Sempre mordomo
E cada vez mais cão

Aparece pela primeira vez dormindo em cena. O Burro o vê sonhando, gritando ao dormir. O Cachorro acorda assustado. Acorda servindo. Seu bom dia é um desesperado: “Sim, senhor. Em que posso ajudar?” Mordomo de quem quer que apareça, aquele cão se reveste de continências. Ele me lembra a submissão militar, porém com um pouco menos de disciplina e uma dose maior de desatenção e de medo de esquecer-se da sua essência servil. Ele é confuso e não sabe ao certo discernir a respeito de a quem realmente servir, o que o faz se encurvar perante qualquer pessoa que esteja à sua frente.

Jumento– Opa calma, calma companheiro calma! Eu não quero ser o seu patrão! Não quero ser o seu patrão!

Cachorro – O que? O senhor não quer ser meu patrão?

Jumento – Claro que não! Deixa disso! Eu sou um pobre coitado como você! Sou um pau de arara.

Cachorro – Ah sim. Seu pau de arara. As suas ordens. Em que posso servi-lo? Onde quer que eu o leve?

Confundir a quem servir gera um estranhamento muito grande. Não que à figura de determinadas pessoas seja aceitável esse encurvamento, mas é que essa prática segue uma lógica bem marcante, não mais apreendida por esse cão perdido em meio à mecanização de seu ofício. O Cachorro traz um debate no sentido de que autoridades não são qualquer um(a). Jamais alguém como o Burro estaria à altura de uma reverência! O Cachorro se esqueceu, mas nossa sociedade divide muito bem os papeis que cada pessoa merece representar. Recortes classistas e raciais, por exemplo, controlam a possibilidade ou não de hierarquizar as relações entre pessoas e os meios para que isso aconteça.

Em Globalização e as Consequências Humanas, Bauman fala de Turistas e Vagabundos. Esse cão me remonta à figura do vagabundo. Alguém sem escolhas: que não tem espaço onde está e que não pode se mover para um lugar melhor, um “viajante sem ter para onde ir”, servo daquilo que o marginaliza. O cão/vagabundo é alguém que, ao se ofuscar, dá brilho ao espírito Turista, que, por sua vez, transforma muita gente em Vagabundos, em cães a seu dispor, para se manter em uma posição confortável de privilégio.

 O próprio teatro segue essa lógica. Alguém que entra em cena é apenas uma nova personagem na trama, com importância a ser aferida com o decorrer da peça. Alguém que entra em cena e faz com que todas as outras personagens se voltem para si de modo subalterno, se configura como um(a) soberano/a. A conclusão a que se chega é que sem pequenos, não há grande(s). No fim das contas, há de haver um Burro limpando o chão por onde pisarão as pessoas a quem os cães abanarão suas mãos, chamando-as de Senhores… sim, Senhores!

Burro e Cachorro formam juntos, primeiramente, um duo. Caminham. Mas não estarão sozinhos por muito tempo. Logo aparece a galinha, cujo dono matou toda cria e a faria de canja logo, logo. São um trio, estão empolgados, mas não fechados. Tem gente chegando!

IV – A gata e sua bolha

 O meu mundo era apartamento

Chega miando a Gata. Manhosa, preguiçosa e, à priori, com um inimigo: o Cachorro. Ele não gosta de gatos e já avisa a todos. O único motivo que apresenta é o fato de que seu avô o mandava reproduzir isso, de modo que odiava gatos porque sempre foi assim. O Burro adverte e isso nos faz entender muito acerca das opressões que existem no nosso mundo. Irritado, o jumento desabafa:

Jumento Chega ! Chega ! Ahhhhhhh …. pelo jeito vai ser difícil domar esse cachorro que acha normal seguir uma tradição, que gostava de maltratar o seu próprio semelhante! Primeira lição do dia : O melhor amigo do bicho , é o Bicho!

Com o argumento da tradição desconstruído, a Gata é inserida com boas vindas ao grupo. O cachorro se dá conta da imbecilidade daquele ódio com relação à gata. Ela conta sua história. Vivia em um apartamento, trancada, não podia tomar vento. Tinha tudo do bom e do melhor, mas não se divertia, sequer podia correr. Um dia, sendo aliciada pela gataria, teve a experiência da rua. Relatou que nunca se sentiu tão livre em toda sua vida. A Gata, assim, nos mostra a importância de ocuparmos os espaços que são públicos, de darmos uma menor importância ao virtual, ao individual, que só afasta as pessoas, e termos audácia de estar sob o céu aberto compartilhando vida com os Outros.

Pobres, porém livres. É o grande lema dessa gata que, agora, vive uma nova rotina: não mais de comida boa e sempre na mão, mas de diversão e liberdade. Expulsa de casa, mas empoderada, liberta, dona de si. Ela também é Saltimbanco, e caminha com os demais rumo à cidade: essa caminhada é longa e já está cansativa…

V – Animais sem-teto

Já andaram muito! Cansados, os Saltimbancos param em uma pousada para poderem dormir. Querem comida e um lugar tranquilo, porque no dia seguinte começa tudo de novo. Porém, se deparam com a seguinte placa:

Proibida a entrada

Exijo gravata e dados pessoais

Proibido aos mendigos e aos animais

Ahhhhhhhhhhhhhh!!!

E mais dia menos diaLealdade, Teimosia

O espaço da exclusão toma corpo. Proibido aos mendigos, proibido aos animais, proibido aos animais-mendigos… para onde ir? A nenhum lugar. A solução é ficar, ressignificar os espaços, ocupando-o. Essa placa deve ser desconsiderada e foi!

A lei da selva vai mudar

Todos juntos somos fortes

Somos flecha e somos arco

Todos nós no mesmo barco

Não há nada pra temer

Todos juntos somos fortes

Somos flecha e somos arco

Todos nós no mesmo barco

Não há nada pra temer

Ao meu lado há um amigo

Que é preciso proteger

Todos juntos somos fortes

Não há nada pra temer

E no entanto dizem que são tantos

Saltimbancos como nós

Os Saltimbancos se organizaram e não aceitaram como natural o fato de não terem onde dormir. Juntas/os, foram vitoriosos. Puderam dormir em paz. Não preciso nem dizer que isso nos remonta aos movimentos sociais, na luta que não termina pelo acesso à terra e o direito à cidade.

VI – Cidade ideal, só que não.

Enfim, chegamos ao ponto que toca a cidade. Tanto caminhar, tantas dificuldades, tantas experiências novas para chegar até aqui. A cidade é mencionada a todo momento. Muitos idealismos são imaginados ao longo da viagem. Cada animal vai formando nas suas mentes o que aquela cidade deveria ter, para ser perfeita. O cão, por exemplo, queria vários postes e, assim, uma cidade ideal ia sendo construída.

Deve ter alamedas verdes

O sonho é meu e eu sonho que

A cidade dos meus amores

Porém, experiente que é, o burro já advertia:

A cidade é uma estranha senhora

Que hoje sorri e amanhã te devora

O sonho da cidade ideal foi, então, roubado por essa realidade desigual. Que espaço em uma cidade tem uma trupe de artistas, que chega querendo mostrar sua música? Sendo formada por burros e cães, gatos e galinha fugidos, dentre outras personagens socialmente excluídas, não há algo mais a se esperar além de favelização e marginalidade aos Saltimbancos.

Porém, o fim da história não vem ao caso, mas o pouco que ficou até aqui já sugere diversos fins. Os Saltimbancos chegam à cidade? Fazem o quê lá? Param naquela pousada? Não quero dizer. Concluir, aqui, pode representar uma taxação desnecessária. O fato é que, bons ou ruins, os finais dependem da reprodução ou não de determinadas situações. Apresentar toda essa história faz sentido no teatro na medida em que entramos em cena no palco da vida, com o objetivo de refletir e, principalmente, de intervir.

Vai aqui, então, um final pra esse que texto que é na verdade um começo. É o começo do nosso trabalho com Os Saltimbancos, mas já pode servir como um modelo de como será.

VII – Saltimbancos?

Não estou maluco repetindo título, nem desatento ao ponto de não reparar um erro de formatação. Minha idéia aqui é reafirmar o que estava no começo, quando expliquei a idéia do nome da peça. Enfim, é só para lembrar que, se somos Saltimbancos, é porque incorporamos aquele espírito de utilização das garras para nos tornarmos cada vez melhores e isso legitima nossa imperfeição.

No mais, obrigado pela leitura. Seja bem-vind@ aos Saltimbancos!

4 thoughts on “Diálogos sócio-animalescos em: os Saltimbancos e a vida (des)humana

  1. Hugo, muito me orgulha vê-lo com tamanha definição de responsabilidade social, pois fzaer política é também sermos artistas, estudantes, professores de uma sociedade tão injusta e concentradora de riqueza e poder na mão de poucos;e os saltimbancos vieram em uma época tão massacrada pela ditatura expor seus pensamentos e revoltas meio que “embutidos” pois não poderiam ser explíctos já que seriam censurados e cassados.
    Que Deus te abençoe sempre, beijos do seu Tio lindo, kkkkkk

  2. Poxa, eu já interpretei a galinha em “Os Saltimbancos” e fiquei muito chateada porque, apesar de seu texto ser incrível, você esqueceu de falar da galinha!

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