Camisinha Prudence: A culpa não é minha se você se sentiu ofendido.

Por Gabriela Tavares

Recentemente a marca de camisinha Prudence veiculou no seu Facebook oficial uma propaganda que chocou a rede. Não é preciso ser feminista inveterado para notar que toda a propaganda da marca se baseia na objetificação das mulheres e do seu corpo e que seu marketing é completamente voltado ao público masculino – basta uma breve passada de olho na sua página. Contudo, misoginia tem limites. Deve ter parecido uma ideia genial e divertida a seguinte imagem:

“Um olhar atento na terceira linha e na oitava linha da tabela uma apologia descarada ao estupro, afinal o que mais pode significar “tirar a roupa dela sem consentimento dela” e “abrir o sutiã, com uma mão, apanhando dela”? O mais interessante é que a propaganda apresenta uma dieta, o que pressupõe que o sexo que gastar mais calorias é o mais adequado para a finalidade da dieta, dessa forma, quanto menos ela consentir, maior a eficácia na perda de peso!

Quer perder peso? A seguinte combinação é infalível: tire a roupa dela sem consentimento, tire o sutiã dela com uma mão apanhando, coloque a camisinha sem ereção, tente encontrar o ponto G fazendo um 69 em pé! E não se esqueça de explicar para ela porque virou de lado depois que terminou sua parte. Eu sugeriria que você corresse, na verdade, porque depois de tudo isso é bem provável que a polícia esteja a caminho. Então, Prudence, entendi bem a mensagem?

Não tardou para a rede mandar sua resposta, explicando que sexo sem consentimento é crime e o que a marca fazia era apologia a um crime. Alguns dias se passaram e nenhuma palavra oficial até que, finalmente, a retratação:

Não sei se eu estou muito exigente ou essa foi uma “retrataçãozinha” muito pequena para a força da imagem que veicularam. Foi como dizer: desculpe, agimos mal, mas a culpa não é nossa, essa imagem nem foi a gente que fez – e se quiser reclamar, por favor, faça em privado.

Talvez, como política da empresa a melhor coisa a se fazer é evitar escândalos e essa retratação tenha um sentido de fazer com que todos esqueçam o que aconteceu, mas os comentários não pararam o que forçou a empresa a fazer duas novas retratações e, inclusive, se comprometer a iniciar uma campanha contra a violência sexual. Nada disso é adequado, o que deve ser feito é tomar para si a responsabilidade pelo ocorrido e aguentar as consequências, demitir quem tiver de ser demitido e orientar os responsáveis pela página a respeitar as leis, a constituição e, principalmente, os direitos fundamentais.

Não é assim, não é tão simples apagar o que foi vinculado junto a marca. Parece simples, mas imagine que tivesse sido uma propagando evidentemente anti-semita – a comoção seria completamente diferente. É fácil agredir as mulheres e sair com um pedido de desculpas ou fingir isenção de responsabilidade. Não levam a sério a opressão contra a mulher, tudo pode ser piada quando falamos nesses termos. A ofensa e o preconceito contra as mulheres são diários, vemos na televisão todos os dias. Basta ligar nos jogos olímpicos e ver o que se fala das competidoras e dos competidores (“ela é bonita, ela tem um físico escultural”/”ele é um bom atleta, ele tem habilidade”), basta assistir uma propaganda de sabão em pó, bastar assistir ao jornal. Não queremos desculpinhas esfarrapadas, queremos respeito e igualdade de verdade!

Sempre ouve-se falar da cultura de estupro e as reações são de puro desdém. No imaginário geral o estupro é algo cuja culpa é exclusiva do estuprador – que é um doente mental. Tentamos explicar que o estupro é parte da cultura no sentido que a culpa e a prevenção ficam a cargo da mulher, fazemos marchas e manifestos, somos considerados radicais e delirantes. Não há delírio da nossa parte, uma empresa que trabalha com sexo veicula uma propaganda dessa sem a menor noção do que faz e a mensagem é simples: tudo bem estuprar – desde que use nossa camisinha. É algo tão natural que a mulher diga não e, mesmo assim, o homem a violente que virou até marketing!

Contudo, você pode argumentar que é só uma piada. Pense em uma situação hipotética na qual você é um estuprador. Você está navegando na internet e vê uma piada sobre estupro – pode ser essa ou tantas outras – e todos na página acham muito engraçado, tratam com naturalidade. O mais provável é que você tenha certeza naquele momento que o que você faz é, no mínimo, socialmente aceito.

De quem é a responsabilidade? Nesse caso, da Prudence que além desses pedidos estúpidos de desculpas devem ser multados e penalizados por veicular esse tipo de informação. Nos outros casos, de todos nós que ensinamos nossas garotas a não serem estupradas e não nossos garotos a respeitarem o corpo alheio.