Te chamam de ladrão, de bicha, maconheiro. Te chamam de…

Por Aurélio Faleiros

Preto, puta, piranha;
Boiola, biscate, bandido;    
Viado, vaca, vadia;
Macaco, malandro;
Galinha, Gorila;
Sapatão.

 

Sempre nos deparamos com essas palavras no dia-a-dia em diferentes contextos. Em alguns deles, as mesmas palavras são consideradas completamente ofensivas; em outros, totalmente aceitáveis. Mas qual critério determina em que contexto determinada palavra é aceitável ou não? É assim que se determina se alguma palavra é politicamente correta ou incorreta?

A resposta para essas perguntas vai além de considerar qual fora a intenção do locutor ao reproduzir determinado termo ao invés de outro. Mesmo que o que se tenha intentado dizer não seja ofensivo, a utilização de algumas expressões apresenta-se como opressora, pois se relaciona com estereótipos associados a grupos historicamente oprimidos.

Isto acontece porque algumas palavras carregam uma forte significação simbólica. O simbólico é aquilo que não é evidenciado de forma clara, é invisível, porém dotado de significado.

Uma evidência dessa carga simbólica presente nas palavras está na sua apropriação intencional como forma de combate às opressões que elas expressam. A marcha das vadias, por exemplo, com intuito irônico adotou o termo “vadia” que historicamente fora utilizado como forma de oprimir as mulheres para nomear um movimento que luta justamente contra este tipo de opressão.

O simbólico, no entanto, nem sempre é utilizado desta forma. O termo “preto”, por exemplo, usado para dirigir-se a pessoas afrodescendentes, é constantemente utilizado, ora com intenções pejorativas ora não. É necessário, porém, perceber a carga simbólica que esse termo carrega quando se leva em consideração sua utilização histórica para se referir pejorativamente a seres humanos que eram tratados como mercadorias e vendidos em praças públicas.

Quando uma música dirige-se a mulheres como gostosas ou “popozudas”, pode inicialmente alegar-se estar fazendo um simples elogio ao corpo feminino, porém a partir de um olhar mais crítico, esses termos reproduzem um discurso de objetificação da mulher. O mesmo discurso, historicamente combatido pelo movimento feminista, tem pela mulher apenas um corpo, um objeto e não mais sujeito. Assim, o termo “gostosa” ou “popozuda”, tido como um elogio, apresenta uma carga simbólica extremamente opressora.

Vivemos em uma sociedade hierarquizada e desigual e essa desigualdade também se expressa por meio da linguagem. Muitas vezes, o sexismo, racismo ou homofobia, evidenciados na linguagem, passam despercebidos, mas isso não significa que eles não estejam sendo constantemente reproduzidos.

A estreia do programa de Pedro Bial na Rede Globo pretendeu debater a questão da utilização de termos politicamente corretos. O apresentador afirma em uma de suas últimas falas que a forma como nos dirigimos a determinado grupo de fato não afeta suas condições, além disso, evidencia que a necessidade de utilização de termos politicamente corretos é uma ofensa a liberdade de expressão.

 Em resposta aos argumentos expressos no programa, a jornalista Maria Azevedo, em seu texto Na Moral, respeite a minha existência, faz uma crítica contundente.  A argumentação utilizada pela jornalista vai contra o argumento de que o uso desta ou daquela palavra não afeta a identidade de um grupo. Maria afirma que a utilização do politicamente correto passa pelo respeito ao próximo e pela alteridade. Destaca a quantidade de crianças que largam a escola por não gostarem de serem chamadas de “preta do cabelo ruim”, de “viadinho” ou de “sapatona”. É sim necessário que levemos em consideração como o/a outro/a quer ser chamado/a, pois a utilização de termos opressores afeta de forma direta a vida dessas pessoas. Maria Azevedo pertinentemente afirma ainda que não se pode confundir liberdade de expressão com liberdade de opressão.

A linguagem pautada pelo que se considera politicamente correto dizer não afeta a liberdade de expressão; pelo contrário, para que esta seja efetivada é necessário garantir um processo essencialmente democrático de respeito às minorias que se constrói também a partir do banimento dos termos que as oprimem.

O politicamente correto gera um processo emancipatório. A utilização desses termos faz-se extremamente necessária em uma sociedade plural que se pretende democrática. Para tanto, a classificação entre politicamente correto ou incorreto não deve ser arbitrária, deve levar em consideração a carga simbólica que cada palavra apresenta e lutar contra a reprodução de discursos implícitos que reafirmam opressões históricas.

3 pensamentos sobre “Te chamam de ladrão, de bicha, maconheiro. Te chamam de…

  1. Anónimo

    “Pessoas afrodescentende”, “seres humanos que eram tratados…”. É um cuidado tão excessivo para se falar do “Outro” que fica realmente difícil acreditar que se considera ele, o “Outro”, como igual. É como usar o distanciamento científico para ganhar legitimidade para o discurso.

  2. Aurélio

    Não vejo a utilização desses termos como uma forma de distanciamento do outro, porque, primeiramente, não os considero científicos e, além disso, a escolha por utiliza-los fora arbitrária, poderiam ser substituídos por quaisquer outros politicamente corretos, a intenção aqui é não reproduzir o racismo implícito na linguagem, essa opção passa também pela alteridade, pelo respeito ao outro e pela consideração dele como igual.

  3. Acho bem pertinente pensarmos no/a outro/a ao falar dele/a.

    Isso demonstra sim a diferença que existe entre as pessoas. Não é para vermos o/a outro/a como igual, mas como um/a diferente que tem os mesmos direitos que eu. E ele/a pode merecer uma atenção especial para que esses direitos sejam garantidos de forma efetiva.

Deixe uma Resposta para Aurélio Cancelar resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s