Ruas: virtual e real

Por Augusto César Valle

Escrevo esse texto inspirado na canção da banda Engenheiros do Hawaii chamada “Muros e grades”, que traz, a meu ver, algumas reflexões muito interessantes sobre a sociedade brasileira atual. Link da canção aqui.

Vivemos numa sociedade tomada pelo medo. Pelo medo da violência, da exposição da própria figura, da exposição do corpo, do ridículo, do fracasso e da vida, da vida real. Por isso nos escondemos, colocando-nos atrás de muros e grades, do anonimato, do silêncio e dos perfis de redes sociais. Nos enfurnamos em nossas casas-fortalezas, colocando não só muros entre nós e o mundo, mas máquinas tecnológicas: computadores, celulares e tablets.

Não nos encontramos na rua, porque não andamos, não estamos na rua. Estamos em casa, com nossos computadores e tablets. Estamos na aula, com nossos computadores e tablets. Estamos no trabalho, com nossos computadores. Estamos em qualquer lugar, com nossos celulares e tablets. Mas não estamos na rua, com as pessoas. E não estamos na rua porque a rua é perigosa, ainda mais se estamos com nossos computadores, celulares e tablets.

É dessa forma que estamos em contato com tudo, mas ao mesmo tempo em contato com nada. Tudo virtual, nada real. E vivemos uma vida superficial. Mas essa sociedade é paradoxal, precisamos reconhecer.

Eu tenho medo da exposição, mas compartilho minha vida com pessoas que nem conheço! Atualizo meu perfil com informações pessoais e compartilho tudo com pessoas que nem conheço! A maioria das pessoas que vai ver essas atualizações são pessoas com quem eu troco um “oi”, talvez. E eu sei da vida das pessoas que só me dão “oi”. Pra quê?!

Sou “amigo” virtual de quem eu encontro no elevador do meu bloco ou no corredor da faculdade. Ou daquele amigo do amigo meu, que estava na festa da amiga de uma amiga minha. Mas não nos encontramos na rua… Não conversamos sobre nossos interesses na
rua, somente compartilhamos nossos vídeos favoritos no nosso perfil virtual. Por quê?

A rua é escura e vazia, é muito perigosa. Temos que colocar muros, câmeras e polícia na rua, para proteger o que deixamos ali (carros, placas de formatura, nossas casas etc). Mas não colocaremos calçadas, iluminação e vida na rua, para que as pessoas possam estar na
rua. Não! Isso seria um absurdo! Imagina, as pessoas se encontrando de verdade! Pode ser que elas se organizem mais do que se organizam no mundo virtual! Essa troca de ideias não é saudável para a sociedade, ainda mais se ela não estiver sendo vigiada/controlada por câmeras e agentes do Estado!

George Orwell já havia demonstrado isso com sua obra “1984”. Para um Estado e uma sociedade fortes, é preciso controlar a população, impedindo sua articulação e vigiando-a constantemente. Esse modelo já prosperou em muitos países, especialmente na América Latina no século passado. O Brasil teve sua grande Revolução em 1964, instaurando o progresso no país!

Só que não.

Não há progresso em eliminar as individualidades, as subjetividades. Não é saudável viver com medo da rua, esse lugar de construção coletiva e de interação. A rua não pode ser vista como algo negativo, como demonstram as expressões: “moleque de rua” ou “já pra rua”.¹ Pelo contrário, a rua é onde o povo se encontra, para se divertir e para construir direitos. É ambiente alegre e sério ao mesmo
tempo, lugar de intersubjetividades.

O nosso ponto de encontro virtual, a internet, é também lugar de lazer e construção. Mas não pode se limitar a ser o único espaço de comunicação e relação entre as pessoas. É preciso saber utilizá-lo para complementar a rua real. Cada um deve pensar a melhor maneira de utilizar as ferramentas que têm disponíveis para viver como quiser e alcançar os seus propósitos.

Eu quero encontrar as pessoas na rua, na qual haja infraestrutura (luz, calçamento, praças, comércio etc) e vida (eventos culturais, políticos etc). Quero interagir com as pessoas na rua e na internet. Mas na rua há os corpos e as possibilidades que os corpos nos brindam são magníficas. Eu quero viver os corpos, com liberdade.

E sinceramente, eu não quero saber o que um conhecido meu come ou deixa de comer. Nem quero que ele saiba onde e com quem estou todos os dias da minha semana.

Como eu adoro configurações de privacidade e opções de visualização de atualizações!

 

Muros e Grades – (Engenheiros do Hawaii)

Nas grandes cidades do pequeno dia-a-dia
O medo nos leva a tudo, sobretudo a fantasia
Então erguemos muros que nos dão a garantia
De que morreremos cheios de uma vida tão vazia
Erguemos Muros

Nas grandes cidades de um país tão violento
Os muros e as grades nos protegem de quase tudo
Mas o quase tudo quase sempre é quase nada
E nada nos protege de uma vida sem sentido
O quase tudo quase sempre é quase nada

Um dia super
Uma noite super
Uma vida superficial
Entre cobras
Entre as sobras
Da nossa escassez

Um dia super
Uma noite super
Uma vida superficial
Entre sombras
Entre escombros
Da nossa solidez

Nas grandes cidades de um país tão surreal
Os muros e as grades
Nos protegem de nosso próprio mal
Levamos uma vida que não nos leva a nada
Levamos muito tempo prá descobrir
Que não é por aí…não é por nada não
Não, não pode ser…é claro que não é
Será?

Meninos de rua, delírios de ruína
Violência nua e crua, verdade clandestina
Delírios de ruína, delitos e delícias
A violência travestida, faz seu trottoir
Em armar de brinquedo, medo de brincar
Em anúncios luminosos, lâminas de barbear!

Um dia super
Uma noite super
Uma vida superficial
Entre cobras
Entre as sobras
Da nossa escassez

Uma voz sublime
Uma palavra sublime
Um discurso subliminar
Entre sombras
Entre escombros
Da nossa solidez

Viver assim é um absurdo
Como outro qualquer
Como tentar um suicídio
Ou amar uma mulher
Viver assim é um absurdo

É um absurdo


[1] DAMATTA, Roberto. Carnavais, malandros e heróis: uma sociologia do dilema brasileiro. 6ª ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1997.

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