A PRIVADA ALÉM DO ARCO-ÍRIS: “EU VENHO DO SALSICHEIRO”

Por Pedro Argolo

Como Carol cortou o cabelo, eu comprarei um porco. Por óbvio, eu rejeitei o SPA. Meu porco terá um cabelo com cachinhos iguais aos de Carol. E meias. Sempre achei que um porco de meias era uma imagem engraçada. Dificilmente se é feliz hoje se não se tem um porco. Não pense que se trata do animal que é tradicionalmente conhecido, aquele que fede, é grande e vive na lama. Os “micropigs”, como são chamados, são bem menores que a versão original, são limpos e escutam música clássica. Sim, espante-se, eles são limpos!

Carol, ao contrário do que se pode estar imaginando, não é uma porca e sim a personagem que o diretor Todd Haynes encontrou para criticar o modelo de vida da sociedade de consumo. Interpretada por Julianne Moore, ela é a protagonista de A salvo (Safe, 1995), cuja vida no começo do filme não vai além de fofocas e chá com biscoitos; isso, claro, divide espaço em sua rotina com aulas de aeróbica, com as horas dedicadas em deixar as plantas de seu jardim perfeitas e com sua enorme preocupação relativa à decoração da casa. Os minutos passam rápido e o relógio é implacável: Carol precisa de algo novo. Naquela que é talvez a melhor cena do filme, ela decide, em um ato de quase desespero, que tal mudança viria através de seu visual. Os fios longos e ruivos perdem espaço e são substituídos por cachinhos, que acompanhariam suas unhas recém-pintadas. Não sabe que a estrada de tijolos amarelos leva necessariamente a Oz. Nenhuma mudança. Carol, literalmente, perde o fôlego; ainda que isso ocorra nos momentos em que se percebe fazendo as mesmas coisas, com as mesmas pessoas, interpreta isso como uma aversão à sujeira. Interna-se em uma espécie de SPA, o que a manteria longe o bastante das roupas com ácaros e das manchas de gordura.

Carol é a radicalização da privada, a descarga dos excrementos levada ao máximo. Freud costumava dizer que o relacionamento do ser humano com as fezes muda com o desenvolvimento de seu psiquismo. Para a criança, as fezes representariam algo como um presente dado por ela a alguém que ama. No adulto, ao contrário, o sentimento seria de nojo e repulsa. Ainda que ocorra a participação daquilo que ele chama de “repressão orgânica”, Freud salienta a participação da educação no sentido de tornar mais rápida a passagem para o estágio das “fezes sem valor”. Nossa posição diante da merda não seria a mesma se esconder os próprios excrementos não fosse tão importante para a civilização; o ser humano que não o faz, é sujo, não demonstra respeito pelo outro e o ofende. Torna-se digno dos mais usuais xingamentos: porco ou cachorro. Apesar de serem os melhores amigos do ser humano (sim, os porcos, a partir da versão “mini”, também!), costuma-se utilizá-los para se referir a quem é sujo. Afinal, eles não se envergonham da merda que fazem.

Não se deixe enganar: há algo de Oz no salsicheiro; o (mini)porco está além do arco-íris. No Seminário sobre as Psicoses, Lacan narra o caso de uma paciente que, ao sair de sua casa, depara-se com o amante de uma de suas vizinhas que lhe diz um palavrão. Ela, antes, havia lhe dito: “Eu venho do salsicheiro”. No decorrer da análise, descobre-se que ouviu o homem dizer: “Porca”. Nesse caso, a mulher recebe do outro sua própria fala; outro que é ela mesma, seu “reflexo no espelho”. A paciente, por meio desse outro que ela encontra na rua, fala de si por alusão: “Eu, a porca, venho do salsicheiro, já sou desconjuntada, corpo espedaçado, delirante, e meu mundo se vai em pedaços, assim como eu mesma”. O delírio surge como uma tentativa de se colocar algo no lugar do buraco entre o eu e o mundo. É bastante provável, nesse sentido, que não haja realidade mais esburacada que a de Dorothy; pela estrada de tijolos amarelos ela chega a um lugar em que já está. Oz é uma fantasmagoria daquilo com que Dorothy está acostumada, sua própria mensagem; suas farsas e imperfeições, como o Mágico, são as mesmas que ela encontrava no Kansas. Lacan dizia que, quando há alucinação, é a realidade que fala. Por meio de Oz, é o Kansas que fala. No filme, o para-além se mostra sempre-já aqui, sem muitas novidades.

Em uma das matérias na internet que noticiavam os “micropigs” como a nova moda, havia um interessante comentário: um leitor dizia “meio nojento” em referência à matéria na qual se lia que, após as celebridades, agora era a vez das pessoas “não-famosas” pagarem mais de R$ 1000 por um porco em versão reduzida. A sociedade atual, no entanto, conseguiu produzir um (aparente) paradoxo: mesmo com um porco, continua-se sentado na privada. Os “micropigs” não representam uma regressão ao erotismo anal, como se poderia pensar inicialmente. Em vez de um sentimento de amor que lembraria aquele que se tem pelas fezes nos primeiros anos de vida, é a demanda social pela limpeza que surge pela curiosa camuflagem delirante. Uma forma curiosa e muito mais eficiente encontrada para que a descarga não se transforme em uma obsessão, como ocorre com Carol. O miniporco evita que a aversão pela sujeira se transforme em uma neurose que tenha como consequência última um isolamento em um SPA, longe das inúmeras mercadorias que se tem à disposição.

Aquele ou aquela que visita um site de vendas descobre, logo após ser informada(o) das inúmeras possibilidades diferentes de pagamento, que os “micropigs” podem ser adestrados, atendem pelo nome e, o mais importante, fazem suas necessidades no local certo quando ensinados. Os “micropigs” são mais do mesmo; uma (velha) forma de entretenimento “limpo”. Não existe nada mais civilizado.

2 thoughts on “A PRIVADA ALÉM DO ARCO-ÍRIS: “EU VENHO DO SALSICHEIRO”

    • Achar relevante ou não tema como, por exemplo, a própria psicanálise, passa por critérios individuais.
      Mas podendo assumir que o PET, enquanto investimento público, foi questionado em seu comentário, o Blog, embora seja nossa atividade com mais visibilidade, é apenas mais uma delas. Desenvolvemos atividades de ensino junto à graduação, criamos e desenvolvemos 3 projetos de extensão e estamos em processo de finalizar uma publicação com quase 20 artigos produzidos só em 2012. Isso sem contar com outros eventos esporádicos, como o Luz e Sombra no Museu Nacional. e mais.
      Rafael de Deus Garcia

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