Sexualidades para Hipsters

Por Marcos Vinícius Lustosa Queiroz

Muito se fala na abertura de novas perspectivas proporcionada pelas artes através de sua forma peculiar, sensível e emocional de retratar e formar a realidade. Esse processo de criação de novos sentidos não é feito por meio de uma única via, pois a própria arte, que liberta e possibilita, sofre condicionamentos do meio no qual está inserida. Tendo isso em vista, gostaria de comentar dois fatos que agitaram o mundo da música estadunidense nos últimos meses, os quais se inserem dentro de transformações que podem possibilitar desconstruções importantes no que toca a questão da sexualidade no contexto musical, reverberando, é claro, nas relações sociais mais amplas.

 

O primeiro dos casos foi proporcionado pelo vídeo de divulgação do novo álbum do Perfume Genius, Put Your Back N 2 It. Nele, o cantor aparece abraçado ao ator pornô Arpad Miklos, ambos apenas com suas roupas íntimas, em uma cena que dura 16 segundos. Algo demasiadamente simples e que, aparentemente, não deveria chocar ninguém, certo? Errado. O YouTube baniu o vídeo alegando que ele viola sua política de conteúdos, contendo material não seguro à família. Especificando, o site disse que apesar de os participantes estarem vestidos, o vídeo representa conteúdo adulto e promove temas sexuais.

Para não dizer que é absurda, essa justificativa apresentada pelo YouTube apresenta uma série de problemas. Caso fosse levada ao pé da letra, qualquer vídeo que apresentasse um conteúdo mais erótico deveria ser retirado do ar. Um simples beijo estaria violando a tal política de conteúdos por estar promovendo temas sexuais.

Tendo isso em consideração, somos levados a crer que aquilo que está por trás de tal decisão é justamente a normatividade dominante que tende a rebaixar e excluir as práticas sociais que fogem do padrão heterossexual. A rigidez por parte do YouTube se escora no sentimento de estranhamento que essa visão totalizante das sexualidades possui em relação aquilo que lhe é anormal, estranho ou imoral. Foi, portanto, mais um dispositivo que reativa as regras dominantes sobre os corpos, sobre aquilo que podemos ser e sobre aquilo que pode ser visto ou afirmado. Mais uma reprodução das estruturas que condicionam as possibilidades subjetivas de cada individualidade.

Pelo visto, a tão sonhada cena cantada por Perfume em All Waters – when I can take your hand on any crowded street and hold you close to me with no hesitating – parece estar longe de acontecer.

Saindo do indie é indo para o R&B, encontramos mais um artista envolvido com as classificações e estratificações produzidas pela heteronormatividade. Frank Ocean é dono, na minha opinião, do melhor álbum do ano até agora. Channel Orange te leva para uma verdadeira viagem vintage pelas ramificações da dinâmica social estadunidense. Entre os vários motivos que levaram o cd ao topo dos assuntos mais falados no momento, está a questão da sexualidade de Frank, que foi alvo de uma carta aberta feita pelo artista há alguns dias atrás. Nesse escrito, ele diz que a sua primeira paixão foi por um homem quando tinha 19 anos.

A notícia é surpreendente por partir de um dos campos em que os valores machistas e heteronormativos se mostram mais contundentes, que é a música negra estadunidense. Além disso, Frank participa de um coletivo de músicos que é constantemente criticado por veicular mensagens homofóbicas.

Channel Orange, dentro desse contexto, nasce com um efeito potencializador e libertário tremendo, pois possibilita, de uma maneira incisiva única, que a temática das sexualidades, que fogem ao padrão heterossexual, sejam exploradas em um âmbito musical ainda muito fechado. É um álbum, portanto, que desconstrói relações essencializadas entre cor, gosto musical, classe social e opção sexual; relações que muitas vezes eram reforçadas e ratificadas pela própria arte. Ainda que se apresente como um pequeno passo, Frank busca quebrar esse ciclo e nos mostrar como podemos romper as amarras daquilo que nos impõem como natural.

As reações a esses dois fatos nos dão alguns indícios para onde esse debate caminha. Por mais que a divulgação do álbum de Perfume Genius não tenha sido desbanida do YouTube, o clipe genial da música Hood, que contém a mesma mensagem do primeiro vídeo, não foi alvo da mesma “política de conteúdo”. Já para Frank o cenário é mais confuso. A estranheza e o desconforto causado por suas declarações ainda são sentidas no seio da música negra dos Estados Unidos, e até mesmo aquilo que aparece como positivo acaba soando estranho – por exemplo a mensagem de apoio realizada por Beyoncé em seu site oficial –. Com isso, o cantor mostra como é difícil quebrar aquilo que nos estrutura e que muitas vezes um ato de liberdade pode, no fim, reforçar as opressões. No entanto, a abertura para novas individualidades e realidades proporcionada por Channel Orange é um legado que marca uma verdadeira virada de paradigma na música dos Estados Unidos.

Frank e Perfume mostram que se a sociedade ainda caminha na democratização das sexualidades e no reconhecimento das individualidades, a música continua servindo como flor que rompe o asfalto.

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