Diante do ódio, rosas.

Por Luisa Hedler

Há uma esfinge presa em minha cabeça, que me devora todas as noites já há alguns dias – que se materializa, de alguma forma, neste texto, em uma tentativa de exorcizá-la. Em seus pés, uma reflexão sobre a reação à presença do Ódio em uma sociedade que se diz plural; em seu peito, um assombrado relato de viagem de alguém que mergulhou quase por acaso em um momento muito intenso para um país inteiro, e, por fim, em sua cabeça, não a frieza, mas em um turbilhão tão intenso de emoções que parece que preciso senti-las aos pouquinhos, distribuindo lágrimas através dos dias em cada canto do labirinto de pensamentos sobre a situação…

Já fica claro, de início, que essa minha esfinge passa, em sua gênese, bastante longe da academia – por isso as aparições desavergonhadas do “eu”, as descrições sem análises quantitativas (e talvez nem qualitativas), a música, as fotos próprias – talvez em uma tentativa de colocar em palavras muito mais uma pintura do que uma fotografia…

I – Os fatos (e os ódios) frios

No dia 22 de Julho de 2011, a Noruega sofreu o pior ataque contra sua população desde a 2ª Guerra Mundial: cerca de 80 pessoas morreram, e mais de 300 ficaram feridas em um ataque duplo causado pela mesma pessoa. Anders Behring Breivik, um norueguês de extrema-direita e contrário à imigração, lançou o que chamou de “o primeiro tiro na guerra contra o multiculturalismo” – plantou um carro-bomba que explodiu na frente do prédio do Poder Executivo em Oslo e, poucas horas depois, ele mesmo seguiu até a ilha de Utøya, onde acontecia um acampamento de verão da juventude do Partido Trabalhista, matando a tiros 69 pessoas entre jovens ativistas e mulheres e homens que trabalhavam no local.

II – A viajante

Exatamente um ano depois (com o estranhíssimo acaso de chegar na cidade no horário aproximado em que os ataques começaram), uma brasileira de memória fraca para datas anda por Oslo e encontra as ruas cinzentas, tristes e um tanto quanto vazias. Talvez procurar uma farmácia na chuva de um domingo à tarde também não tenha ajudado muito – mas havia algo de pesado no ar.

De volta para o hotel, com a televisão ligada, assistia a uma espécie de concerto que tinha acontecido em uma ilha bonita – as pessoas, sentadas na grama com guarda-chuvas e capas de chuva, assistiam a tudo muito sérias. Estranhei a coroa de flores na frente do palco – mas, lentamente, comecei a entender. 22 de Julho. O ataque. A memória… Mas a verdadeira magnitude do que significava aquele dia veio quando começou a transmissão de um grande concerto memorial, em que uma cantora, com a voz embargada, cantava que “some die young” – alguns morrem jovens…

III – A música. (link)

Meus olhos se encheram de água, e, para quem viu o vídeo, talvez nem precise explicar por quê. Laleh, a cantora sueca-iraniana, com a emoção que quase engole sua voz, diante tanto das famílias e sobreviventes, quanto de uma multidão de pessoas que também vieram para lembrar, para enfrentar coletivamente aquilo que é tão difícil de compreender. Não era apenas uma terrível perda para algumas famílias que repercutia nacionalmente – era um país inteiro que tratava de suas feridas ainda muito abertas.

Olhando um mapa da cidade, vi que o local estava perto – assim, munida de um casaco, uma câmera e algumas lágrimas, quis ver por mim mesma o que estava acontecendo…

Aí, de fato, as lágrimas não ficaram só em ensaio.

IV – Os olhos.

Mais tocante do que a homenagem em si eram os rostos das pessoas. Velhinhas, ciclistas, pessoas com cachorros, mães e pais com crianças pequenas e grupos de amigas e amigos; cabelos loiros, escuros encaracolados, ou simplesmente véus coloridos. Alguns sorrisos esparsos, expressões sérias e solenes – percebe-se que estava em uma cultura que favorecia menos a expressão de emoções. Mesmo assim, muitos olhos vermelhos denunciavam uma emoção que condicionamento cultural nenhum consegue conter. Mas na maioria das pessoas, as lágrimas estavam mesmo por dentro – olhos molhados, mas queixos apertados, olhando fixamente para o palco e os telões . A idade das crianças era visível por sua postura – enquanto as menores eram agitadas, a idade ia fazendo aquietar. As famílias e grupos de amigos se abraçavam – às vezes, quase forte demais – como quem precisa de uma âncora na realidade para não se perder. Sim, suas pessoas amadas ainda estão aqui. Sim, o mundo não parou de girar, mesmo diante de algo tão assombroso. E, em cada par de olhos vidrados, um ano depois, ainda a terrível pergunta que em minha cabeça se repetia: “meu Deus, por quê? ”

Mas acho que nem em mil anos conseguiremos ter a resposta.

O que a Noruega teve de mais tocante – e talvez o que me toque até agora dessa experiência – foi uma das respostas mais lindas que eu consigo conceber diante do impensável.

V – Corações e rosas

Algumas pessoas carregavam bandeiras – mas o que mais havia, não apenas naquele evento, mas espalhadas pela cidade toda, eram corações e rosas. Perto da Catedral, um enorme coração marcava o local em que as principais homenagens eram prestadas, com uma praça cheia de flores em todos os cantos. Na frente do Palácio Real, um coração delineado com rosas foi feito na frente da entrada. Diante do horror, os símbolos mais banais se tornam poderosos – de uma resistência vigorosa, mas não de gritos por condenação do atirador, mas sim de um ataque direto à ideologia que o levou a atirar. Contra o ódio, o amor. Contra a intolerância, as rosas…

Assim, mesmo diante de tanto sofrimento e dor, de tanto luto, há uma vida que continua. Os noruegueses se depararam com a horrível pergunta – como lidar com essa situação? Como responder a esses atos? E viram tanto na postura do governo, quanto da população, uma resposta que não era a da repressão e do medo.

Talvez eles tenham entendido que diante de crimes de ódio a resposta não está na vigilância repressiva, mas sim na afirmação de valores sociais que propiciem – ou não – este tipo de manifestação. Desta forma, afirmando valores como a compaixão, a aceitação, da união e enfim, de alteridade, a mensagem de ódio que o atirador queria passar fica perdida em meio à solidariedade da população norueguesa.

Se eu chorava tanto naquele concerto, pensei depois, talvez fosse realmente por isso – não pela tristeza das vidas perdidas, mas pela beleza da reação da população norueguesa, e pela esperança que eles consigam manter em sua memória coletiva esses momentos. E, talvez que nós, do outro lado do Atlântico (mas também com espectros de ódio desconfortavelmente perto de nossa realidade), possamos entender a força das rosas nos momentos de maior escuridão.

 

 

 

 

3 pensamentos sobre “Diante do ódio, rosas.

  1. Augusto César

    Parabéns pelo excelente texto, com uma reflexão muito pertinente aos nossos dias.
    E que oportunidade você pôde viver, hein? Que bom que você aproveitou da melhor maneira possível: com aprendizado. ;D

  2. Anónimo

    texto lindo e muito tocante.. conseguiu passar, com primor, tudo o que sentiu! fiquei emocionada tambem! parabens

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s