Os Donos da Verdade: uma história de não-diálogo

Uma conversa ao vivo, um telefonema, uma palestra, uma roda de amigos, um grupo no Facebook; todos esses espaços são ocupados cotidianamente, todos cheios de linguagem, todos cheios de argumentos – consistentes ou não. A grande pergunta é: para quê? Por que nos esforçamos tanto em estar certos? Qual é a importância de “derrotar nosso oponente”? Consideramos o que é dito?

Diariamente participo desses espaços, sou inundada por observações e comentários sobre os mais diversos assuntos. Comentários leigos. Comentários com autoridade. Formo uma opinião sobre cada um. Exponho. Estou sempre em contato com outras pessoas, mas nunca sinto que compreendem o que eu falo. Cada frase gera mais questionamentos e o assunto anda até, finalmente: concordamos em discordar. Sempre resta a dúvida: o que diabos significa concordar em discordar? Para que serve isso?

Confesso, entretanto, que a maior parte das conversas não chega nesse ponto. Percebo que todos – inclusive eu – são tão fechados em sua própria ideia que são necessárias apenas duas frases para a conclusão: o outro está errado.

Recentemente, me deparei com um dos mais complexos argumentos: o dono da verdade. Claro, não pode ser tratado como um argumento dentro da lógica formal, uma vez que não prova nada a partir de suas premissas, mas analisemos informalmente.

Iniciada uma discussão na qual os adversários já se conhecem é inevitável o pré-julgamento da linha que outro seguirá. Antes que o adversário profira seu primeiro argumento o oponente lança “o dono da verdade” que consiste em sugerir que o adversário já tem todas as suas opiniões pré-formadas e não aceita divergência. A partir disso, o oponente tira o crédito de todo o seu discurso com a simples implicação de que tudo a ser dito é inquestionável e, por isso, é irrelevante a discussão.

Relembremos aqui uma cena do filme Obrigado por fumar quando o lobista Nick Taylor explica ao seu filho como se vence uma discussão. O diálogo é mais ou menos assim:

– O.K.! Digamos que você está defendendo o chocolate e eu baunilha. Agora, se eu te dissesse “Baunilha é o melhor sabor de sorvete”, você diria…?
– “Não, é o chocolate.”
- Exatamente, mas você não pode ganhar desse argumento. Então eu pergunto: então você acha que chocolate o melhor dos melhores sorvetes, não é?
– É o melhor sorvete; eu não pediria nenhum outro.
– Oh. Então para você só há o chocolate?
– Sim, chocolate é tudo que eu preciso.
- Bem, eu preciso de mais do que chocolate. E por falar nisso, eu preciso de mais que baunilha. Eu acredito que nós devemos ter liberdade e escolha quando o assunto é nosso sorvete, e isso, Joey Naylor, é a definição de liberdade.
– Mas não é disso que estamos falando.
- Ah, mas é disso que eu estou falando.
- Mas… Você não provou que baunilha é o melhor.
- Eu não precisei. Eu provei que você está errado e, se você está errado, eu estou certo.

“O dono da verdade” funciona exatamente assim, não acrescenta nada a discussão, apenas impede o outro de falar qualquer coisa. Inclusive, aquele que profere esse argumento cai naquilo que, justamente, acusa o outro de fazer: se fechar completamente ao diálogo uma vez que suas posições são – independente da argumentação alheia – sólidas e corretas. Jamais compreenderei os motivos que levam alguém a invocar esse tipo de estratégia.

Quando entro em uma discussão tenho uma motivação, não acredito na neutralidade, mas nem sempre essa motivação é o convencimento. Na verdade, raramente é. Não foram poucas as vezes que me envolvi em uma conversa por curiosidade ou até desinformação, sempre esperando a mesma disposição do lado oposto. Afinal, no fim, isso é tudo uma grande brincadeira – uma brincadeira que gera consequências.

O silêncio é tão mais proveitoso quando estamos sem disposição para o embate. Nada perdemos em nos calar diante de um comentário absolutamente infundado. Quão grande é nosso ego a ponto de não percebermos nossa própria ignorância de vem em quando?

Sobre o parágrafo anterior, devo explicações. Como parte integrante, não muito ativa, do movimento estudantil ouço diversas atrocidades sobre o trabalho dos Centros Acadêmicos, do Diretório Central dos Estudantes e de demais entidades estudantis. Comentários que, sinceramente, me impulsionam a violar alguns dos dispostos da lei penal brasileira. O mesmo se aplica ao feminismo e ao vegetarianismo. O que vejo é bem constante: pessoas que nunca participaram de nenhum espaço vinculado ao movimento falando daquilo que não sabem com uma ideia quase que a priorística de que nada que tais grupos falarem ou fizerem é bom. Na realidade, o imaginário é que somos um bando de desocupados falando bobagens.

Lembrando o início do texto, eu adoro discussões, adoro o calor da argumentação, adoro tudo que circunda um ambiente de diálogo. Contudo, essas pessoas que citei sentam-se em suas cadeiras de privilégios e falam, do topo de sua torre marfim, o que nós – reles mortais desinformados – devemos ou não fazer, baseados somente no que vem à cabeça naquele momento e, se contra-argumentarmos, somos “os donos da verdade” que não sabemos dialogar. Que tipo de diálogo é esse?

Note, não estou dizendo que não podemos ter opiniões se não formos engajados em determinada causa. Várias vezes teci comentários sobre crises longínquas e causas sobre as quais não sabia uma linha. O problema nasce quando se identifica alguém como oponente em determinado assunto, utiliza-se de um argumento absurdo e não se deixa conhecer, fecha-se: torna-se o grande dono da verdade infundada. Esquerda, direita, centro, apolíticos, feministas, racistas, carnívoros, vegetarianas e absolutamente qualquer ser humano pode, facilmente, ser um grande mestre nisso e não perceber.

Portanto, o meu conselho para as próximas discussões é que pense antes de entrar se está disposto a levar até o fim com o mínimo de disposição para com seu adversário. Deixe-se levar ou cale-se. Jamais se torne o dono da verdade, pois, sem diálogo, não passamos de ego.

Por Gabriela Tavares

2 pensamentos sobre “Os Donos da Verdade: uma história de não-diálogo

  1. Aurélio

    Muito bom este texto Gabi, Parabéns 😉
    é muito importante considerarmos tudo que você disse. envolve um debate sobre a alteridade.
    Ver o outro, de maneira a perceber a mensagem que ele quer passar é um desafio constante que vivenciamos. É importante estarmos sempre abertos ao discurso do outro, mesmo para discordar. Do contrário, estamos sujeitos a um fundamentalismo patrocinado pelo Ego.

    Belo texto, Bjão ^^

  2. Clarice Tarrago

    DONO DA VERDADE

    BOM,POR VÁRIAS RAZÕES,E PRINCIPALMENTE POR A MINHA,ME VEJO OBRIGADO A EXPRESSAR MINHA OPINIÃO SOBRE A EXPRESSÃO DONO DA VERDADE.
    EM MINHA CAMINHADA ,MUITAS VÊZES FUI CHAMADA DE DONA DA VERDADE,ALIÁS XINGADA DESSA FORMA.ACREDITO QUE DESDE QUE ME CONHEÇO POR GENTE,DEFENDI FORTEMENTE O QUE EU SENTIA.COM O DECORRER DO TEMPO E A DITA BUSCA ESPIRITUAL,ESSA MINHA FORMA DE SER TOMOU MAIS FORÇA,POIS PELO QUE ENTENDI,O MAIOR MESTRE ESTÁ DENTRO DE NÓS,ACUSADO POR MUITOS,DE EGO.NESSA GUERRA DE INFORMAÇÕES,ME DEI CONTA QUE NÃO EXISTE ELABORAÇÃO,OU DIRÍAMOS,DEGUSTAÇÃO EM RELAÇÃO AS INFORMAÇÕES QUE RECEBEMOS DE FORA…..SIMPLESMENTE ENGOLEM.ISSO ME LEMBRA MUITO O ATO DE ENGOLIR A HÓSTIA COMO CORPO DE CRISTO.
    BOM….MUITO OUVI,QUE EXISTE UM MUNDO SUPERIOR,ONDE TODAS AS IDÉIAS NAVEGAM LIVREMENTE,SEM NENHUM SENSOR DE USO EM RELAÇÃO A QUEM VAI MATERIALIZÁ-LAS OU CANALIZÁ-LAS NESSE PLANO TRIDIMENSIONAL.ESSA IDÉIA,SEMPRE ECUOU NOS MEIOS ,DIRÍAMOS ESPIRITUALIZADOS,ATRAVÉS DE PESSOAS QUE SE DIZEM ESPIRITUALIZADAS.
    HOJE,MEU CORPO VIBROU MUITO FORTE,QUANDO A GOTA D’AGUA,DE UM ASSUNTO REFERENTE A DIREITOS AUTORAIS RESERVADOS,BATEU EM MINHA PORTA.NÃO PUDE SEPARAR ISSO DO FATO DA COBRANÇA DE INDULGÊNCIAS POR PARTE DA IGREJA.PARA QUEM NÃO SABE,INDULGÊNCIA,ERA O PERDÃO DIVINO E PASSAPORTE PARA ENTRAR NO PARAISO,VENDIDO POR ALGUMAS IGREJAS.COM CERTEZA ELAS NÃO SÃO ACUSADAS DE DONAS DA VERDADE.
    SERÁ QUE O ATO DE PENSAR E DISCERNIR NOS TORNA RÉUS NOMEADOS DE DONOS DA VERDADE?
    SERÁ QUE A BUSCA DA INDIVIDUALIDADE,SAINDO DO BRETE,É UMA FACA DE DOIS LEGUMES?
    SERÁ QUE SE INDIVIDUALIZAR (PENSAR POR SI PRÓPRIO) É UM CRIME?
    SERÁ QUE VIVERMOS COMO ALMA GRUPO É A GRANDE VERDADE?
    SERÁ QUE APENAS EU ACREDITO QUE TODA A MATERIALIZAÇÃO DE UMA IDÉIA TENHA QUE TER DIREITO LIVRE DE ACESSO E USO?
    SERÁ QUE,SE APALAVRA AMOR FOSSE REGISTRADA POR ALGUÉM,E COBRADO DIREITOS AUTORAIS,SERIA MAIS VALORIZADA?
    BOM…………

    CLARICE TARRAGO ROSA-
    PSEUDÔNIMO…DONA DA VERDADE

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