A linguagem como disputa.

O filme “Dançando no escuro” (2000), de Lars Von Trier se passa no ano de 1964 e mostra a história de uma imigrante tcheca nos Estados Unidos, Selma Jezková (Björk), mãe solteira de Gene (Vladica Kostic). Ela vive com seu filho em um trailer alugado na propriedade de um policial chamado Bill (Daniel Morse) que vive com sua esposa Linda (Clara Seymour).

Selma, a protagonista, trabalha numa metalúrgica e junta o seu dinheiro para poder pagar uma operação a fim de evitar que seu filho fique cego – ele possui a mesma doença degenerativa que a mãe. Durante esse processo, ela vai perdendo a visão e o trabalho na fábrica se torna cada vez mais difícil – ela chega a ser demitida. Simultaneamente, a situação financeira do policial não vai nada bem, mas ele não consegue contar a verdade à Linda – que ainda vive na ilusão de uma vida próspera. Ao saber das economias que Selma tem guardadas em seu trailer, ele inicialmente lhe pede um empréstimo. Ela se nega, e Bill furta esse dinheiro. No intento de reaver o que poupou durante anos, a personagem principal acaba por envolver-se na morte do policial.

Como não poderia deixar de ser, ela é condenada à pena de morte – se recusa a usar o dinheiro que juntou para pagar um advogado, o que poderia inviabilizar a cirurgia de Gene. No caminho para a forca, ela usa a contagem de seus passos para realizar mais uma de suas fugas da realidade– recurso recorrente no filme, pois, a partir de um barulho que percebe, ela cria música. Com a notícia de sua amiga de que seu filho passou pela operação e está bem, ela canta e morre.

Mas você, caro(a) leitor(a), pode se perguntar: qual é a relação do título do texto com o filme? Pois bem, minha intenção é, a partir desse exemplo, explorar a temática da linguagem – sua força na criação do real e a consequente disputa por sua detenção. É ela que nos constitui. As coisas não existem por si e independentemente. As coisas existem porque há relações entre sujeitos e objetos que, por intermédio da linguagem, lhes confere existência. Pode parecer um pouco abstrato, mas isso é de uma concretude verificável cotidianamente.

Vejamos o caso de Selma: mãe solteira, estrangeira, pobre, ré. Essas e outras características/construções lhe reservam um espaço dentro da sociedade e suas possibilidades de ser dentro da mesma. Questão essa que em muito se relaciona com o conceito de “ritual” trabalhado por Foucault, como sendo aquilo que “define a qualificação que devem possuir os indivíduos que falam (…); define os gestos, os comportamentos, as circunstâncias, e todo o conjunto de signos que devem acompanhar o discurso; fixa, enfim, a eficácia suposta ou imposta das palavras, seu efeito sobre aqueles aos quais se dirigem os limites de seu valor de coerção” [1]. Nesse sentido, tornam-se mais claras as “propriedades singulares” e os “papeis preestabelecidos” que os indivíduos em sociedade possuem ou poderiam chegar a possuir.

E esses locais de fala e de possibilidades que podem ser ocupados por determinados indivíduos a partir das categorias em que se enquadram parecem ser de conhecimento da personagem. Isso pode ser aferido de um trecho da música – segue abaixo – que a protagonista canta.

“I’ve seen it all, I’ve seen the dark

I’ve seen the brightness in one little spark.

I’ve seen what I chose and I’ve seen what I need,

And that is enough, to want more would be greed.

I’ve seen what I was and I know what I’ll be

I’ve seen it all – there is no more to see!”[2]

Curiosamente, provavelmente não uma coincidência, essa canção é cantada momentos posteriores à saída da casa de Bill, já morto, enquanto Linda denuncia Selma para a polícia. Ao afirmar que já viu de tudo, que sabe o que ela foi e o que será, não havendo nada mais para se ver, é como se ela soubesse que sua condição tão peculiar dentro daquela sociedade tornaria muito improvável que seu destino fosse diverso daquele que se verificou ao final do filme.

Torna-se evidente, portanto, que o que delimitou a protagonista e o enredo da sua vida no filme se devem, em grande medida, às diversas relações travadas por meio da linguagem.

E é aqui que podemos com maior ênfase afirmar que a linguagem é alvo de disputas. Quem detém o discurso, quem é a voz autorizada a delimitar os termos pelo qual nos referimos às coisas detém poder. Vários são os exemplos de grupos que reivindicaram e reivindicam seu espaço de fala, e muitas vezes esse processo se dá com a busca pela alteração da linguagem e/ou a partir dela. Ela confere identidade, denuncia situações de desigualdade, visibiliza invisibilizadas(os), as(os) faz existir.

O uso de determinadas palavras podem conferir significados distintos a uma mesma situação, assim como o tratamento a elas dado também. Não é o mesmo falar em “ocupação” e “invasão”, quando tratamos da questão moradia, por exemplo. No primeiro caso, em linhas gerais, nos referimos a um grupo de pessoas que não tem assegurado o seu direito a um lugar para viver e que deveriam tê-lo, na realização da dita função social da propriedade privada. Na segunda hipótese, entretanto, a alusão feita é a indivíduos que ocupam uma propriedade alheia, mas que não poderiam ali estar. O tratamento seguramente é outro.

Também é de uma grande carga semântica delimitar quem são “terroristas” e quem são os “contra-terroristas” na chamada guerra ao “terror”. Ou, ainda, práticas que seriam consideradas tortura, serem retiradas desse rol, para que o discurso seja de não violação, mas a prática se manter exatamente a mesma.

Outro exemplo que se pode explorar é o de que, em um contexto de justiça de transição, também é distinto falar de direito à Memória e à Verdade como um resgate de nosso passado histórico recente e da necessidade de uma narrativa institucional que reconheça as violações ocorridas em território nacional por parte do Estado, ou chamar esse processo de um mero revanchismo.

Se me arrisco, diria que o simbólico sempre esteve e sempre estará sob disputa na arena do Político. A compreensão da carga semântica das coisas altera a concepção de passado, presente e abre caminho para a construção de futuro.

Por João Victor Nery Fiocchi Rodrigues

[1] FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. Edições Loyola. São Paulo: 2009, p. 39.

[2] Tradução livre de um trecho da música I’ve seen it all (integrante da trilha sonora do filme): “Já vi de tudo, vi a escuridão/Vi a claridade em uma pequena faísca./Vi o que escolhi e vi o que precisei,/E isso foi o suficiente, querer mais seria ganância./Vi o que fui e sei o que serei/ Já vi de tudo – não há mais nada para se ver!” – (disponível no original no sítio “http://www.stlyrics.com/lyrics/dancerinthedark/iveseenitall.htm”).

3 pensamentos sobre “A linguagem como disputa.

  1. A linguagem determina o nosso mundo, por isso é tão importante se preocupar tanto com o conteúdo como a forma da linguagem.
    Uma outra abordagem desse tema se refere à exclusão. Esse é um caso clássico que ilustra bem como a linguagem tem uma carga simbólica forte. O juridiques, que os advogados tanto prezam como sinal de intelectualidade, é uma forma de linguagem que exclui a população, sobre a qual a fala diz respeito. Quão surreal é isso? É preciso um tradutor para saber o que se passa com o meu próprio direito.

    Parabéns João pelo texto e pelas reflexões trazidas!

  2. Anónimo

    Excelente o texto, João!
    Sempre acho interessante essa discussão da linguagem como espaço de disputa – não um espaço ou estrutura física, mas sim ao sobre o qual o simbólico esteja submerso.
    E também achei o texto bem louco – nunca havia prestado atenção na música que você faz referência no texto, sendo que já assisti o filme; achei bem legal esse viés que você usou na sua abordagem do tema, fugindo dos lugares-comuns na discussão da linguagem!

    Reafirmar o valor do simbólico é também contra-argumentar os que acreditam em distinções funcionais-estruturais na linguagem, desprezando o valor bem real do simbólico.

  3. Anónimo

    “Pois bem, minha intenção é, a partir desse exemplo, explorar a temática da linguagem – sua força na criação do real e a consequente disputa por sua detenção. É ela que nos constitui. As coisas não existem por si e independentemente. As coisas existem porque há relações entre sujeitos e objetos que, por intermédio da linguagem, lhes confere existência. Pode parecer um pouco abstrato, mas isso é de uma concretude verificável cotidianamente.”

    Por favor, gostaria que você delineasse os argumentos que sustentam tais teses.
    Tese 1: A linguagem nos constitui.
    Tese 2: As coisas não existem por si e independentemente.
    Tese 3: As coisas existem porque há relações entre sujeitos e objetos que, por intermédio da linguagem, lhes confere existência.

    Além disso, gostaria que apresentasse as referências das expressões “constitui” (tese 1), “existir por si” (tese 2), “existir independentemente” (tese 2), “sujeito” (tese 3), “objeto” (tese 3). Gostaria que se debruçasse principalmente sobre as expressões da tese 3, pois parece-me que as variáveis que satisfazem o predicado “é uma coisa” não satisfazem os predicados “é um sujeito” e “é um objeto”. Parece-me que você considera que um objeto não é uma coisa e que um sujeito não é uma coisa. No entanto, se você considera “objeto” como “coisa”, vejo uma contradição entre as teses 2 e 3: se as coisas não existem por si, então os objetos não existem por si (pois representariam um subconjunto do conjunto “coisas”), não podendo estabelecer relações com sujeitos.

    Gostaria de saber que significa “conferir existência” (tese 3), de que tipos são essas “relações” estabelecidas entre sujeito e objeto (tese 3) e que conceito de existência foi utilizado no texto (tese 3).

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