Para que servem xs professorxs? Ou ao anarquismo pedagógico

É uma rotina comum, em eventos de encerramento de curso ou em palestras acadêmicas, ouvirmos grupos de alunxs reverenciando seus/suas professorxs pelas contribuições prestadas para suas formações enquanto estudantes. Em grande parte, essas falas decorrem do imaginário comum dos processos pedagógicos, refletindo a concepção de que xs docentes são a parte essencial e indispensável para a concretização do conhecimento.

Mas talvez seja interessante irmos a fundo nesse consenso, ainda que não explícito, de nossas instituições de ensino. Talvez seja necessário falarmos aquilo que tanto se esconde. E esse ocultado é mais do que a mera incompetência, falta de compromisso ou egolatria do corpo docente, o que, por si só, já refletiria a própria noção de que xs estudantes são capazes de gerar conhecimento de forma autônoma. O que se esconde, no fundo, é que a própria divisão entre alunxs e professores (sociedade e academia) é fator estruturante de uma divisão de poder que conserva, reparte, exclui e fragmenta processos de conhecimento. De uma divisão que é, por sua hierarquização quase essencializada, antidemocrática e anticidadã.

A Universidade de Brasília talvez tenha uma lição preciosa para dar sobre esse assunto. Sua comunidade universitária se vangloria da construção de um conhecimento organicamente construído, dialogando sociedade e academia. Nisso, todxs xs sujeitxs do processo formativo são partes chaves dessa aprendizagem coletiva. Verdade? Sim e não. Os exemplos incontáveis de projetos de extensão popular irão dizer que as coisas se passam dessa maneira. No entanto, o outro lado da moeda deve ser analisado.

Para o número de projetos que encontramos sendo realizados nesse modelo, achamos, igualmente, professorxs “assinadorxs” ou extensionistas de gabinete. Para elxs, o real diálogo de saberes é algo esporádico, enquanto o comum se trata do argumento de autoridade e da fala monológica. Hipocrisia, mentira e cinismo: pois são arautos do pensamento crítico e transformador, mas, que na prática, não passam de reprodutores das velhas relações de dominação. A realidade de sala de aula ainda impera enquanto princípio, seja qual for o espaço no qual se encontrem.

São essxs mesmxs docentes que reivindicam a exclusão dxs estudantes dos processos de tomadas de decisão da universidade, sejam eles as eleições para reitor, seja a liberdade de um/a alunx ser coordenador de um projeto de extensão sem a participação de um/a professor/a. Nesses impedimentos, notamos que os reais motivos de exclusão dxs discentes são maiores do que os argumentos de segurança, perenidade ou estabilidade do corpo docente. Trata-se, na verdade, de manter privilégios e postos superiores na estratificação de poder-saber. De afastar o debate e a crítica que solapariam a estrutura excludente de nossas universidades. “Hoje seria o/a estudante, amanhã seria quem?”

E é a própria UnB que diz “sim, hoje é o/a estudante”, amanhã deve e há de ser toda sociedade. Não a UnB formal dos lanchinhos e coffee breaks de eventos que ufanizam pateticamente seus altos estratos como grandes transformadores sociais, muito menos a UnB da ridícula corrida do lattes, que mais parece uma linha de montagem de perfeitos idiotas acadêmicos. Quem diz o “sim, nós podemos” é a UnB que se constrói fora de seus muros; a UnB que faz extensão sem nenhum apoio institucional e dxs docentes; é a UnB que busca ser criativa e inovadora, e que para isso não repete as mesmas categorias hierarquizadas e estratificadas que a própria Universidade tratou de reproduzir em seus quadros.

Os inúmeros projetos de extensão que se desenvolvem apenas por meio de alunxs e pós-graduandxs, sem apoio algum de professorxs que vá além da assinatura obrigatória, demonstram que é possível construir conhecimento de forma horizontalizada e dialógica. De que xs supostxs seres superiores são fruto de uma construção social que criou castas de conhecimento e, que com isso, estratificou poder para determinados grupos. A abolição dessa economia do saber verticalizado passa pelo questionamento da divisão professorx-alunx. Essa discussão já é antiga lá onde a extensão se realiza, mas agora chegou a hora dela voltar com toda sua potência desconstrutivista para dentro da academia.

O igualitarismo radical de vozes, em que cada sujeitx é considerado como autoridade suficiente para uma construção coletiva de saberes, é parte essencial na construção de uma universidade que se diga verdadeiramente popular. De uma universidade que dialogue, de fato, com a sociedade, nela se inserindo para tornar-se indistinta com o povo.

Nisso, não se trata de querer somente paridade nas eleições para reitor ou paridade nos conselhos da Universidade; não se trata somente de alunx poder ser coordenador de projeto de extensão; não se trata de alunx poder fazer projeto de PIBIC sem participação de professorx. Trata-se, no fundo, de questionar e mudar drasticamente as divisões de saber e poder que tanto afastaram a democracia e a sociedade da Universidade.

Assim, talvez a pergunta que serve de título ao texto deva ser reformulada [1]. Faz mais sentido questionar “para que serve a relação professorxs-alunxs?”. E a UnB, seus/suas alunxs e sua dinâmica respondem em um brado que não deve mais ser calado: para nada! pois esse nada já é, em grande parte, a realidade docente de nossa Universidade. Que desse nada surja o novo tudo; que o conhecimento se sustente pela sua função social construída de forma dialógica, saindo, enfim, das torres de marfins ensimesmadas e protegidas por vales de pseudosuperioridade. Que o radicalismo da democracia, em que cada um/a vale como uma pessoa em toda sua singularidade, chegue ao arcaísmo de nossas Universidades.

Por Marcos Vinícius Lustosa Queiroz

[1] O texto não serve de crítica à greve deflagrada pelas Instituições de Ensino Superior do Brasil, que tem como grande protagonista a categoria dxs professorxs universitários. Não só reconheço a importância do movimento paredista na atual conjuntura da luta pela educação pública de qualidade, como também milito em espaços do movimento grevista estudantil. Assim, reconheço a importância da greve para se rediscutir nossos espaços pedagógicos, e isso, sem dúvidas, deve passar pela democratização de nossas instituições de ensino. Conforme tentei deixar claro no texto, acredito que um dos grandes problemas é a relação professorx-alunx, que contribui para a conservação de uma lógica simbólica, excludente e violenta dentro de espaços que se propõem a construir saberes. Não se trata, portanto, de uma crítica direcionada aos/às professorxs enquanto sujeitxs que buscam, também, construir a Universidade e a sociedade que queremos.

7 thoughts on “Para que servem xs professorxs? Ou ao anarquismo pedagógico

  1. Acho que os professores tem sim um papel importante na sala de aula, mas não como é mostrado nessa relação sempre vertical professor-aluno. O aluno, tanto como o professor, são detentores de conhecimento e esse mesmo conhecimento se cria e se transforma a partir do diálogo. No mais, se as greves melhorassem a qualidade das universidades e dos professores, a UnB teria os melhores professores do mundo.

    Se tiver interesse, eu escrevi um texto sobre os professores e a relação com os alunos na sala de aula para o blog da UVE. http://projetouve.wordpress.com/2012/05/30/e-os-professores/

    Abraços!

  2. Eu já tinha lido o seu texto. Lembro de ter comentado com você na época a respeito, dizendo que eu tinha gostado bastante.

    Em relação ao que você disse de forma mais específica, não estou negando que xs professorxs possuam conhecimento também. Isso seria totalmente contraditório com o espírito do texto. Crítico, isso sim, a relação hierárquica que se estabelece a partir da divisão professorxs-alunxs, que, por ser feita dessa maneira, reproduz uma estrutura estratificada de poder.

    Mas por outro lado, sim, o texto é contra a existência de professorxs, pois a própria existência desse grupo social pressupõe, de certa maneira e inevitavelmente, que determinadas pessoas possuem alguma autoridade superior no conhecimento. A atribuição específica desse papel social é só mais um mecanismo nesse jogo político que envolve a distribuição do saber-poder.

    E, repetindo o que disse em outro lugar, por mais que tenhamos tido experiências excelentes com alguns professores, que diversas aulas “bancárias” tenham sido excepcionais para nossa formação e que o corpo docente seja uma categoria, que no atual estágio de luta, deva ser valorizada, a própria relação que diz que alguém é professor e que, para isso, ele deva ter alunxs é opressora, excludente e antidemocrática.

    Na minha opinião, é de sua própria estrutura supor que alguém sabe mais do que os outros, por mais que isso possa ser fragmentado, diversificado e reconstruído. E nisso ela carrega toda uma simbologia e violência que imobiliza uma real horizontalização daqueles que participam do processo de conhecimento. É fácil criar um ambiente que seja a exceção, como a extensão ou uma aula de PAD, enquanto todo o resto se baseia nesse monopólio do conhecimento. É fácil defender essas ideias, se no primeiro evento que vamos realizar, a gente corre para o lattes para pensar em algum palestrante, ou pensa em chamar o reitor/diretora/autoridade para dar um check-in de fala autorizada. É fácil, mas extremamente contraditório.

    E esses nossos comportamentos, ao meu ver, só são dispositivos reprodutores, potencializadores e reflexos dessa grande relação de poder que se escora na suposição de melhores saberes. E dentro dessa dinâmica político, a divisão professor-aluno aparece como uma de suas peças fundamentais.

    Por fim, não entendi a colocação da greve – até por que ela é um apêndice do meu texto -. Você atribuiu um nexo causal simples entre greve e melhoria da qualidade da Universidade e dxs professorxs que eu discordo radicalmente, sobretudo quando se nega toda a conjuntura social e a complexidade que envolve a questão dos investimentos na educação pública no Brasil.

    Se estamos em uma situação tão precária, isso muito se deve ao imobilismo da comunidade universitária – docentes, discentes e servidores – para discutir e reivindicar uma UnB de qualidade. A greve está aí, possibilitando tempo livre e espaços para que as pessoas se insiram nos debates que tocam a realidade acadêmica, mas o que eu vejo é, em grande parte, o mesmo marasmo individualista que permeia nosso cotidiano. Esperar que a greve (ou greves) resolvam tudo, enquanto nós só pensamos no nosso umbigo, é complicado.

    Pode não ser o melhor instrumento? talvez, mas depois de inúmeras negociações infrutíferas com o governo federal, não vejo para onde correr.

    E a greve da URP está aí para dizer que seu argumento não condiz com a realidade, no mínimo. A majoração salarial foi garantida por decisão judicial, mas a pressão social foi nítida para que a sentença saísse logo e de forma favorável.

    • É uma das coisas que eu aprendi na UVE: no projeto, não há professores e alunos, somos todos orientadores-orientandos.

      Sobre a greve: é claro que ela é um instrumento bom para os professores que só pensam no seu próprio umbigo e querem aumentar seus salários? Eles merecem? Alguns, com certeza. Outros, com aumento ou sem aumento, vão continuar a mesma porcaria.

      Sou a favor de melhores condições de trabalho e salário para os professores, desde que eles se proponham a se colocar num processo periódico de avaliação de desempenho por parte dos alunos (com pena de demissão, é claro). Sério, Marcos, às vezes eu acho que vou me formar em Direito sem saber nada de Direito. Tenho certa culpa nisso, claro, mas a culpa maior é dos professores, já que é trabalho deles fazer com que, ao menos, o aluno se interesse pelo que é dado na sala de aula.

      Como minha professora de Latim dizia: “Os salários aumentam… E a qualidade dos professores?”

      Essa “estabilidade” só faz minar o sistema educacional das universidades. Os professores, principalmente de universidades federais, tem não só o dever de ser bons, mas os melhores. E o que vemos não é bem assim. Melhora os salários, mas não melhora a qualidade. E eles continuam olhando para os próprios umbigos. Os alunos, intercambistas e demais só se…

      • Mas aí que está o problema. Não faz sentido criticar uma greve por haver ausência de qualidade dentro da Universidade, se ela luta por melhores salários e um novo plano de carreira para xs professorxs. A pauta do movimento paredista no momento, como haveria de ser, é outra.

        Melhorar a qualidade das aulas, exigir que xs professorxs cumpram suas funções com decência e pedagogia adequadas e fazer com que a UnB preze pela construção de um conhecimento eficaz e socialmente dirigido são atitudes que exigem um esforço cotidiano de participação e engajamento na realidade universitária. Xs professorxs são monológicos e usam métodos arcaicos de ensino? a matéria não tem nenhuma pertinência com a realidade em que vivemos? as provas não nos avaliam de forma adequada? para todos esses problemas, nós, alunxs, já temos as ferramentas em nossas mãos para resolver isso. Por exemplo, possuímos desde a conversa franca e pessoal com x professorx, passando pela avaliação de final de semestre, e chegando nos PAD’s ou revindicações perante a coordenação de graduação. Mas utilizamos esses instrumentos com frequência? não.

        Concordo com você que não é apenas uma questão salarial ou de plano de carreira, é algo muito mais estrutural. Não adianta aumentar o salário de um professor que vai continuar sendo autoritário e sem didática, pois esse daí precisa de mais noção de cidadania e pedagogia. Mas isso não anula, pelo contrário, a luta dessa greve, que é por aumento de salários, que são ridículos quando comparados aos demais cargos do serviço público, e por um verdadeiro plano de carreira, garantia de todo servidor público.

        Mas questões estruturais são combatidas tanto no nível micro, por meio de atitudes cotidianas como as descritas acima, como em nível macro, por meio de greves. Uma coisa, definitivamente, não anula a outra. E essas lutas exigem participação de todxs nós, e não somente de certos grupos.

        Um exemplo bom de como xs alunxs podem e devem se engajar nesses processos de transformação da realidade universitária, contribuindo para saltos de qualidade no seio acadêmico, é o novo PPP da Faculdade de Direito. Grandes acúmulos do movimento estudantil estão sendo postos em prática e formalizados em um documento que mudará radicalmente a cara do nosso curso. Entre eles, está a própria cobrança de atividades docentes que você mencionou no seu comentário, a qual exigirá comprometimento, pedagogia e real dedicação dxs professorxs.

        Portanto, considero a greve, assim como a discussão do PPP ou um simples PAD, um exemplo de instrumento transversal que dispomos para debater, criticar e transformar nossa realidade universitária.

  3. A UnB faz uma greve de professores a cada dois anos, intercalada por uma greve de servidores, desde muito tempo. Daí meu argumento, se a greve realmente funcionasse, a UnB seria a melhor universidade do mundo.

    E outra, vá discutir com certos professores que dão aulas há mais de 20 anos sobre o método de ensino deles para você ver a resposta que irá levar…

    • Cara, você continua fazendo a linha causal simples de que greve deve ser igual ao aumento de qualidade, sendo que tentei demonstrar, ao longo dos meus argumentos, que isso é demasiadamente equivocado e que não serve para deslegitimar o movimento grevista. Se a discussão permanecer nesse ponto, abstenho-me.

      E falar com x professor/a é apenas um dos inúmeros mecanismos que temos para tentar alterar essa realidade, conforme também expus no texto. Você falar sozinho pode não adiantar muita coisa, mas duvido muito que uma turma inteira tenha o mesmo efeito. Episódios recentes da Faculdade de Direito não me deixam mentir.

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