Masculinidade, ser homem e ser mais

Tive oportunidade de participar, durante a III Semana Gênero e Direito da UnB, de uma oficina que discutiu como principal tema as chamadas “masculinidades”, problematizando o assunto com o filme Gran Torino, de Clint Eastwood.

Primeiro gostaria de fazer duas anotações que indicam um modelo muito interessante que poderia ser mais usado na educação jurídica (tema que o PET tanto debate e que está fervilhando com a proximidade de um novo Projeto Pedagógico na Faculdade de Direito). Quão interessante pode ser a utilização de mídias diversas para introduzir um debate, no sentido de criar uma referência para se discutir. Parece realmente dar muito certo. Ademais, como esse formato, aliado a um grupo reduzido de pessoas (vulgo ‘turmas pequenas’) e uma proposta de democratização do debate (onde todas/os são ouvidas/os e falam suas opiniões e percepções sem receio) pode ser eficaz e engrandecedor para quem participa.

Voltemos à oficina. O filme de Clint não apresenta nenhum rompimento com os comportamentos e sentimentos comumente relacionados ao homem, ao “macho”. O filme realmente não tem a pretensão de discutir alguma divisão desigual dos sexos ou algo do tipo. É mais uma abordagem de choque cultural (no caso, entre os famigerados “chinas” e o homem americano). Porém, por conta de reforçar tão enfaticamente os papeis sociais de gênero, o filme acaba por ser uma grande chave para se iniciar essa discussão.

Sr. Kowalski (Clint Eastwood) é um veterano de guerra americano que mora num bairro hoje tomado por imigrantes orientais. A morte de sua esposa e o desprezo por seu filho e sua neta o levam a uma situação de isolamento, que por variadas circunstâncias e acontecimentos, aproximam-no de seus vizinhos orientais. Um dos moradores da casa, Thao, é um garoto tímido, que arruma o jardim, lava a louça, entre outras tarefas domésticas, e é pressionado por seus familiares a se tornar o homem da casa. Seu primo, que é de uma gangue, também insatisfeito com suas atividades de “menina”, quer cooptá-lo para entrar na gangue. Kowalski o conhece nessa situação, e passa a ser seu mentor na intenção de torná-lo um “homem”.

Nesse ponto cabe ressaltar um fato curioso do filme: Thao tem comportamentos e atitudes que não combinam com os papeis sociais que um homem deve assumir, segundo a clássica divisão entre masculino/feminino. Nesse sentido, tanto sua família, quanto seu primo, quanto Kowalski, quase que inimigos entre si, concordam que Thao precisa assumir-se como “homem”, se quiser se inserir na sociedade. No fim, essa tarefa acaba ficando para Kowalski: o homem americano branco com uma moral tradicional ultrapassada, mas ainda assim a melhor opção.

A partir daí começa uma verdadeira aula de como ser homem, na visão limitada de Clint Eastwood: cuspir, falar palavrão, consertar coisas, beber cerveja, ter um carro, um emprego, uma mulher e fazer com que os outros homens saibam disso. A cena final é bem ilustrativa: Thao toma o lugar de Kowalski, com seu Gran Torino, seu cachorro, sua namorada, seu emprego, sua “american way of life”.

Há mimúcias muito interessantes no filme, sobre as quais eu poderia me debruçar e analisar (coisa que fizemos na oficina, em grande medida)*. Mas quero apenas pegar o que eu já expus para tratar mais refletidamente sobre os impactos da masculinidade sobre nós, homens.

Bourdieu estabelece claramente que os homens são quem detêm mais capital simbólico na relação entre as pessoas. Nossos símbolos, comportamentos, papeis, linguagem, atitudes, etc. etc. etc. são os dominantes na sociedade. Não nos custa muito sermos homens, afinal, ao assumirmos essa condição, já estamos no topo das relações de poder.

Isso se torna uma violência contra as mulheres. Tudo que elas fazem e representam é desvalorizado. Ser mulher, com efeito, é aceitar se subjugar. E ser homem é aceitar subjugar. É assumir essa responsabilidade.

Isso cria alguns problemas. As mulheres já há muito tempo dizem: “ser mulher não é aceitar se subjugar, nem, ao contrário, subjugar. É apenas ser igual.” A reivindicação é por igualdade, por liberdade de ser o que se quer. Essas mulheres existem e, ainda que exista muita gente que não goste delas, suas lutas avançam e crescem.

E com relação aos homens que não querem subjugar? Pode ser difícil estabelecer essa relação entre dominação e ter um carro, mas deem uma olhada em blogs como testosterona ou similar (e constatem como as feministas não são esquizofrênicas). O que um homem gosta? Cerveja, futebol, carros, mulheres. E também ter sexo oral da sua mulher a hora que ele quiser. O que um homem não gosta? Sensibilidade, conversa fiada, músicas que não sejam “de homem”, e uma lista enorme de coisas que “só mulheres gostam”.

Eu penso que a masculinidade normativa tradicional é uma forma de violência, não apenas com as mulheres, mas também os homens que não se encaixam nessa forma limitada de viver. Isso nos limita como seres humanos. Eu gosto muito de cerveja, futebol, carros, mulheres, mas também quero poder desenvolver minha sensibilidade, poder falar muito, curtir qualquer tipo de música/dança/arte etc. Assim como tem mulher que usa maquiagem, se depila e gosta de assistir futebol ou MMA. Desvalorizar comportamentos e papeis sociais (e conformá-los, homonegeizando erroneamente uma mistura de identidade de gênero, sexo e opção sexual) só porque eles não se encaixam em uma divisão rígida binária daquilo que é permitido para homens e mulheres é desvalorizar todas as pessoas. Não nascemos brutamontes ou dondocas, querer essa divisão é eliminar subjetividades e possibilidades de ser. Acho que Hannah Arendt dizia que o que nos iguala é o fato de que cada um/a de nós é única/o. A diferença é o que nos torna humanas e humanos. Clint Eastwood renuncia a essa discussão. E você, não acha que é hora dos homens começarem a discutir suas possibilidades de ser mais (como diria Paulo Freire)?

Por Guilherme Crespo

* Pensemos, por exemplo, no papel por vezes secundário da irmã de Thao, que funciona como sensibilizadora de Kowalski, uma ponte entre ele e Thao. Como, após ser violentada, o foco da dor que ela sofreu recai muito menos sobre ela do que sobre a consciência de Kowalski e o sentimento de vingança de Thao. Como a cultura machista, racista etc. do homem branco americano é melhor só por ser “americana” (Sue diz isso), e como funciona, no fim, como fator estabilizador dos conflitos naquela comunidade. Há muita coisa que pode ser discutida no filme, além dessas.

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