“Quem se importa com os professores?”

Por Ana Paula Duque

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Deflagrada no último dia 17, a greve dos professores já conta a adesão de mais de 50 Instituições Federais de Ensino Superior (IFES) do país. Reconhecida como uma das maiores greves docentes dos últimos tempos, mais do que reivindicações pontuais, as demandas se estendem para uma profunda reformulação do plano de carreira e das condições de trabalho, além de insuflar a necessidade de repensar radicalmente o modelo de educação vigente.

Atualmente, o piso salarial de um docente universitário de dedicação exclusiva (regime de 40 horas semanais) é de R$2.872,85. Docentes em regime de 20 horas tem o piso salarial de R$1.597,92.

Segundo acordo firmado ao final do ano passado (Termo de acordo nº 04/2011*) entre o governo federal e o Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (ANDES), tanto o ministério da Educação quanto o Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão (MPOG) concordaram com uma valorização do piso salarial docente mediante reajuste de 4%, incorporação das gratificações em 13 níveis remuneratórios e revisão do plano de carreira, este último com data limite para 31 de março de 2012, meta esta que não foi cumprida.

Diante desse quadro de profundo descaso com as negociações já firmadas e a falta de abertura do governo para novas negociações que de fato repensem a universidade de maneira estrutural, a greve segue adiante e a cada dia encontra novos reforços.

Com uma duração que ultrapassa 20 dias, a paralisação conta com o apoio de discentes de todo o país. Segundo a Assembléia Nacional dos Estudantes – Livre (ANEL), alunos de 30 Instituições Federais de Ensino deflagraram greve estudantil em solidariedade aos professores. Além disso, existe a possibilidade de, a partir do dia 11 de junho, servidores federais se juntarem à paralisação.

A adesão maciça desses setores à greve mostra o reconhecimento da sociedade frente ao sucateamento das universidades públicas e à insatisfação crescente quanto ao ensino que nos tem sido oferecido (este, indiscutivelmente, cada vez mais distante tão almejado “público, gratuito e de qualidade”).

A greve nada mais é do que um reflexo da priorização do governo no investimento em setores privados em detrimento de uma expansão e melhoria organizada do ensino público.

Programas como o REUNI, que forçaram uma política expansionista desregrada e feita às pressas, com a consequente lotação das salas de aula, falta de laboratórios e estruturas de pesquisa e extensão, além da precarização do trabalho do professor mediante a queda nas condições de trabalho, são parte do problema.

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Outro programa problemático, o PROUNI, ainda que tenha seu mérito ao garantir o acesso de estudantes de baixa renda ao ensino superior, retira do governo sua responsabilidade de garantir a estes uma educação pública e de qualidade. Além de tratar-se de uma maneira de transferir dinheiro público a setores privados, favorecendo a mercantilização da educação. Realocar esses alunos para universidades particulares ao invés de viabilizar formas de acolhê-los em instituições públicas é a marca da ineficiência e descaso do governo no que tange a garantia de acesso à educação do seu povo.

No último dia 5, cerca de cinco mil pessoas se reuniram na Marcha Unificada na Esplanada dos Ministérios, em Brasília. O ato pretendia dar apoio e visibilidade às demandas dos grevistas. Em ocasião semelhante, num ato pela valorização da educação, manifestantes seguravam uma placa que indagava: Quem se importa com os professores?

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Eu me arrogo o direito de responder: Nós.

Nós, que lutamos pela valorização da educação. Nós, alunos e alunas que entendemos a luta dos professores como nossa. Reivindicamos não apenas acesso, mas reais possibilidades de permanência nas Universidades. Exigimos moradias estudantis, creches e restaurantes universitários, bolsas de pesquisa e extensão, laboratórios estruturados, bibliotecas e salas de aula em condições salubres de uso.

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Diante disso, faço minhas as palavras de Mauro Iasi, professor da UERJ e presidente da ADUFRJ: “Nós não podemos impedir que os exploradores se comportem como tal, da mesma forma que não nos cabe mudar o comportamento de seus aliados e serviçais que hoje no governo implementam o desmonte das políticas públicas, do Estado e, portanto, da Universidade Pública. Mas, podemos e devemos decidir não ser seus cúmplices e dizer em alto e bom tom: se quiserem destruir a Universidade Pública terão que fazer sem nosso consentimento, sem nossa omissão, terão que fazê-lo contra nós e isso não se dará sem luta.**”

 

 

* http://portal.andes.org.br/imprensa/noticias/imp-pri-27430976.pdf

**http://boitempoeditorial.wordpress.com/2012/05/30/a-greve-nacional-dos-professores-das-universidades-federais/

Por uma outra economia: Banco Comunitário Estrutural

ImagemA história da Estrutural é uma história de luta. Primeiro, a luta era pelo direito de permanecer, seguida pelo direito de morar e, agora, é a luta pelo direito de se desenvolver plenamente, com amplo acesso a direitos. E terça (05.06.2012) a comunidade da Estrutural avançou nessa luta: inaugurou o Banco Comunitário da Estrutural.

Fruto da organização da propria comunidade em torno de um objetivo comum, o Banco Estrutural surge como ferramenta para incentivar e financiar o desenvolvimento local. Na boca dos moradores, a fala é uma só: o banco é a possibilidade da realização de projetos e direitos e a esperança de uma Estrutural desenvolvida social e economicamente.

Trabalhando com uma lógica completamente diferente daquela praticada pelas instituições financeiras tradicionais, para o Banco Estrutural pouco importa se o morador que busca um empréstimo tem ou não o nome negativado. Como a comunidade diz, você nunca sabe por qual situação uma pessoa passava no momento em que não conseguiu honrar suas dívidas, afinal, não é levado em consideração pelos Banco tradicionais se você estava doente, por exemplo, o que representa uma impossibilidade aceitável para não pagar seus débitos. Mas para o Banco Comunitário isso importa. A trajetória de vida do morador é fundamental para concessão do crédito, principalmente, o vínculo com a comunidade, já que é ela quem dá a última palavra sobre quem deve ou não deve receber o crédito. A máxima é: vale mais ser um bom vizinho que contribui com a comunidade do que um exímio pagador que nada faz para melhorar a Estrutural.

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Deuzani e Solange, integrantes do Comitê Gestor do Banco Estrutural

É a humanização das relações econômicas. Aqui os desejos não são infinitos e as ações não são tomadas com base em um cálculo utilitarista de maximização dos ganhos. As necessidades devem ser atendidas e as ações devem ser pautadas sempre buscando beneficiar a comunidade como um todo, mesmo que isso signifique não ter lucro. E não ter lucro não é sinônimo de perda ou ausência de ganho, pelo contrário: pode-se não ganhar monetariamente, mas ganha-se em inclusão e em desenvolvimento social, através da melhoria da qualidade de vida dos habitantes e da coletividade. Os juros são quase simbólicos, apenas o suficiente para manter o Banco em funcionamento. O dinheiro para o crédito vem da própria comunidade, de doações e de projetos construídos pelo Banco, como, por exemplo, cooperativas ou feiras solidárias.

Através das linhas de crédito (habitacional, produtivo e de consumo), o Banco Estrutural, para além de garantir o acesso dos moradores ao tão almejado direito ao crédito – negado pelo sistema financeiro nacional -, viabiliza as condições materiais para que eles tenham a possibilidade de encaminhar seus projetos de vida. É claro que o Banco não será a solução para todos os problemas, mas é uma alternativa diante de políticas de redistribuição inexistentes ou insuficientes e de processos que cada vez mais empobrecem as periferias em relação aos centros. Há incentivo para as atividades locais e para que os moradores façam circular a riqueza ali na comunidade, fazendo com que ela permaneça e fomente o desenvolvimento local.

Vale lembrar que não é um desenvolvimento que vem de fora, mas o desenvolvimento levado à frente pelos moradores que, insatisfeitos com a situação na qual se encontravam, não permaneceram de braços cruzados. Conscientizando-se de suas potencialidades lançaram mão de uma forma criativa e inovadora de concretizar direitos a partir de demandas e soluções próprias, ressignificando as relações econômicas por meio de relações que são, antes de qualquer outra coisa, solidárias.

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