Uma história de resistência no Vale dos Pirineus

Minas de Nossa Senhora do Rosário de Meia Ponte. Atualmente – e desde 1890 -Pirenópolis. Cidade dos Pirineus e das Folias do Divino Espírito Santo. Cidade das feitiçarias, dos Anhangueras e dos espíritos malignos. Cidade do sonho – e da ilusão. Cidade da opulência do Ouro e da miséria da Mineração. Cidade dos massacres e dos milagres. Dos encantos e desencontros. Cidade de folclore intenso e ainda preservado. A decadência econômica sofrida pela região com o fim do ouro de aluvião, já evidenciada em meados do século XVIII, contribuiu para a conservação de hábitos e costumes daquele século na região. De natureza magnífica, o território, antes cuidado e acariciado pelos indígenas que o habitavam, rapidamente se tornou uma área de exclusão e de excluídos. Construída exatamente sobre o entroncamento de paisagens incrivelmente distintas entre si, planaltos, chapadas e planícies, também houve ali um forçoso encontro entre indivíduos amplamente diferentes, em que o humano, graciosamente, repetiu o que a Natureza levara milhares de anos para concluir. Esses indivíduos trouxeram suas experiências e visões de mundo propiciando condições para que, futuramente, fossem construídas as bases do que se tornaria a Cidade de Pirenópolis. Mas para que se materializasse essa união forçada – obrigada mesmo, no caso de escravos negros e cativos da terra – era necessária a construção de um marco, um símbolo que ratificasse o já explícito – que a Cidade de Meia Ponte apenas foi possível pelo contributo de todos e todas que ao longo de quase 300 anos de história por lá viveram em algum momento.

E esse marco fundante – exatamente algo pelo qual apenas se pode realizar por meio dessa união de experiências – é a Igreja Matriz. Construída, ao menos em seu formato inicial que nunca deixou de se transformar, por volta dos anos de 1728 e 1731, a belíssima igreja de Pirenópolis é hoje considerada a mais antiga do território que atualmente conhecemos como Goiás. Edificada de forma a que a qualquer hora do dia tenha sua fachada iluminada, a Igreja Matriz situa-se na parte histórica do centro de uma Pirenópolis que comporta 20 mil habitantes – o que, evidentemente, se amplia enormemente nos períodos de visitação intensa à cidade. A matriz tem alicerces de cantaria (pedra) e as paredes feitas de taipa de pilão (barro socado). Apenas as paredes mais altas das torres são feitas de adobe (tijolo cozido ao sol). Na parte frontal, a taipa é reforçada por uma gaiola de madeira (aroeira), externa e internamente.

Mas para além de toda a beleza exuberante da Igreja, construída nos moldes arquitetônicos de um Brasil Colonial ainda no alvorecer do século XVIII, o mais impressionante é imaginar – ou criar alegorias acerca do feito – de como foi tocada a construção desse templo que tão profundamente deve ter marcado as vidas dos que sobreviveram àquela época. Pelas pedras calçadas do antes chão batido devem ter transitado pessoas de toda sorte. O calçamento da avenida principal – que deve ter surgido durante o período que hora falamos – provavelmente causou reboliço nas jovens senhoritas que por lá caminhavam em busca de um bom casamento – e da estabilidade que apenas dessa forma poderiam obter. As marcas das centenas de mulas que trotavam imponentes pelas ruas da cidade ainda estão lá. Elas eram o motor e o meio de transporte que carregava as diversas quinquilharias e mercadorias que o lucro da mineração financiava. Armas, roupas, espelhos, bebidas, tecidos, lascas de ferro e caixas de pólvora, tudo era vendido a preços exorbitantes e inacessíveis pelos pobres caixeiros-viajantes recém-chegados de Portugal que singravam todo o interior do país. Famílias inteiras da elite caminhavam por aquela rua exibindo os cativos que nesse contexto simbolizavam o poder, o status e a honra de um chefe de família. Também nas escadarias da Igreja era onde se encontravam os esquecidos daquele período – órfãos, bêbados e famintos conseguiam o mínimo necessário à sua sobrevivência apelando para a decadente e sempre insuficiente caridade cristã. A vida pulsante das cidades do interior do país nesse momento girava em torno de suas avenidas principais e ao destaque inegável e central que as Igrejas possuíam durante o período colonial – e que em muitos locais ainda não deixaram de ocupar. A Igreja Matriz de Pirenópolis deve ter, e continua, sem dúvida, a povoar o imaginário de todos e todas que por ela passam. Seja em visitas rápidas de um ou dois dias, ou em estadias de toda uma vida, o papel central que desempenham ainda é evidente.

Ao longo de todo o interior do país é possível perceber que a própria construção dessas edificações religiosas representa formas de resistência ao trabalho cativo. Negros e indígenas tiveram na própria duração e beleza centenária das Igrejas a sua desforra. Em cada pedaço de pedra batida, em cada pilar erguido e em cada santo esculpido, o sofrimento e a enorme contribuição das populações aprisionadas dessas regiões devem ser buscados e entendidos. Diversos crônicos atestam as várias influências – inclusive arquitetônica e estilisticamente – que as culturas africanas e indígenas tributaram à beleza de nossas igrejas. Ao embutirem em projetos de brancos que os escravizam marcas de suas vivências, as classes oprimidas dessa sociedade reinterpretaram e resignificaram o conceito de religiosidade que o grupo hegemônico do Brasil Colonial lhes impingia. E ao entender o conceito de religião que os oprimia, se tornaram ainda mais religiosos. Religiosos a sua maneira. Religiosos de uma forma ainda mais intensa que seus opressores. Verdadeiramente religiosos. Em um mundo de opressão criaram as mais belas expressões de fé de um Brasil desigual e injusto. Combateram o preconceito e a estigmatização – ao menos em ideal e em vontade – utilizando a única língua que todos e todas são suscetíveis ou atingíveis – a arte que liberta, a arte que subverte.

Invocamos a arte criada por escravos – negros e indígenas – com a clara intenção, e um sentimento do fundo do peito, de que apenas ao entendermos a contribuição dos invisibilizados de seu tempo é que poderemos entender o desenrolar não só da história brasileira, mas também do combate a toda forma de opressão que ocorreu e ainda ocorre em solo tupiniquim. Oprimidos e oprimidas também resistem à opressão ao resignificar formas de ver o mundo impostas por setores hegemônicos da sociedade ao incluir, mesmo que confusamente e na penumbra, as visões de mundo que o mundo oficial lhes diz que são indignas e menores. Trazemos à baila pequenas cidades históricas do interior de um Brasil quase esquecido, e suas belas igrejas, para que brademos em alto e bom som, que toda dor pode ser suportada apenas se sobre ela puder ser contada uma história. Uma história de resistência. O próprio nome dado à atual cidade de Pirenópolis – Cidade de Meia-Ponte- é talvez uma indicação de que ainda não foi concluída uma real união dos diversos setores que, em diversos casos, ainda não abriram mão de privilégios que ocupavam durante a construção da Igreja Matriz de Meia- Ponte. Apenas concluiremos essa ponte quando a vida urbana – e todos os preconceitos antigos que subjazem em suas ruas e becos – efetivamente se tornar um indicio de uma democracia e de uma vivência renovadas.

Por Edson de Sousa

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