Por uma outra economia: Banco Comunitário Estrutural

ImagemA história da Estrutural é uma história de luta. Primeiro, a luta era pelo direito de permanecer, seguida pelo direito de morar e, agora, é a luta pelo direito de se desenvolver plenamente, com amplo acesso a direitos. E terça (05.06.2012) a comunidade da Estrutural avançou nessa luta: inaugurou o Banco Comunitário da Estrutural.

Fruto da organização da propria comunidade em torno de um objetivo comum, o Banco Estrutural surge como ferramenta para incentivar e financiar o desenvolvimento local. Na boca dos moradores, a fala é uma só: o banco é a possibilidade da realização de projetos e direitos e a esperança de uma Estrutural desenvolvida social e economicamente.

Trabalhando com uma lógica completamente diferente daquela praticada pelas instituições financeiras tradicionais, para o Banco Estrutural pouco importa se o morador que busca um empréstimo tem ou não o nome negativado. Como a comunidade diz, você nunca sabe por qual situação uma pessoa passava no momento em que não conseguiu honrar suas dívidas, afinal, não é levado em consideração pelos Banco tradicionais se você estava doente, por exemplo, o que representa uma impossibilidade aceitável para não pagar seus débitos. Mas para o Banco Comunitário isso importa. A trajetória de vida do morador é fundamental para concessão do crédito, principalmente, o vínculo com a comunidade, já que é ela quem dá a última palavra sobre quem deve ou não deve receber o crédito. A máxima é: vale mais ser um bom vizinho que contribui com a comunidade do que um exímio pagador que nada faz para melhorar a Estrutural.

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Deuzani e Solange, integrantes do Comitê Gestor do Banco Estrutural

É a humanização das relações econômicas. Aqui os desejos não são infinitos e as ações não são tomadas com base em um cálculo utilitarista de maximização dos ganhos. As necessidades devem ser atendidas e as ações devem ser pautadas sempre buscando beneficiar a comunidade como um todo, mesmo que isso signifique não ter lucro. E não ter lucro não é sinônimo de perda ou ausência de ganho, pelo contrário: pode-se não ganhar monetariamente, mas ganha-se em inclusão e em desenvolvimento social, através da melhoria da qualidade de vida dos habitantes e da coletividade. Os juros são quase simbólicos, apenas o suficiente para manter o Banco em funcionamento. O dinheiro para o crédito vem da própria comunidade, de doações e de projetos construídos pelo Banco, como, por exemplo, cooperativas ou feiras solidárias.

Através das linhas de crédito (habitacional, produtivo e de consumo), o Banco Estrutural, para além de garantir o acesso dos moradores ao tão almejado direito ao crédito – negado pelo sistema financeiro nacional -, viabiliza as condições materiais para que eles tenham a possibilidade de encaminhar seus projetos de vida. É claro que o Banco não será a solução para todos os problemas, mas é uma alternativa diante de políticas de redistribuição inexistentes ou insuficientes e de processos que cada vez mais empobrecem as periferias em relação aos centros. Há incentivo para as atividades locais e para que os moradores façam circular a riqueza ali na comunidade, fazendo com que ela permaneça e fomente o desenvolvimento local.

Vale lembrar que não é um desenvolvimento que vem de fora, mas o desenvolvimento levado à frente pelos moradores que, insatisfeitos com a situação na qual se encontravam, não permaneceram de braços cruzados. Conscientizando-se de suas potencialidades lançaram mão de uma forma criativa e inovadora de concretizar direitos a partir de demandas e soluções próprias, ressignificando as relações econômicas por meio de relações que são, antes de qualquer outra coisa, solidárias.

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15 thoughts on “Por uma outra economia: Banco Comunitário Estrutural

  1. Hoje a Caixa anunciou que havia diminuído os juros de financiamento da casa própria. Fui pesquisar a quantia e eis o que encontro: apenas para famílias com renda acima de 5mil reais, o prazo foi ampliado de 30 para 35 anos. Imóveis de até 500.000 reais (o que em Brasília nem é muita coisa) têm os juros diminuídos de 9% para 8.85%, por exemplo. Para imóveis de mais de 500.000 reais, a taxa cai de 10% para 9.9%. Eu já estranhava por que o Brasil era o único país em que as pessoas podiam dividir seus débitos, em outras palavras, poder parcelá-los… O crédito é mesmo necessário. É mais que necessário. Para uma pessoa comprar um apartamento de 500.000 reais por aqui, supondo que ela ganhe 20mil ao mês (um salário bem alto) e economizasse 5mil todo mês, ela teria que esperar mais de 8 anos para comprar a casa, ou então se sujeitar ao empréstimo do banco e pagar 49.500 a mais de juros! Em outras palavras, o dinheiro do povo brasileiro não vale absolutamente nada. Ele mal consegue pagar a moradia! que, inclusive, virou sinônimo de luxo. Meu avô já falava que gerente de banco não ri, porque ele sabe que se começar a rir ele acaba morrendo sem ar, hahah… Isso que a Caixa é um banco do governo! Quando o povo é dependente dos bancos tradicionais e um banco como esse surge para ressignificar (ou renomear) essa dependência, não poderíamos ficar mais contentes. Parabéns pelo texto.

  2. Esses bancos são muito interessantes, particularmente num país como o Brasil em que os spreads são absurdos e a concorrência no setor financeiro é muito fraca. Mas faltou falar da nova moeda social da Estrutural: a Conquista. Ela é um dos fatores-chave para o sucesso da proposta do banco! Abs

    • Henrique, faltou mesmo. Quando cheguei em casa ontem já estava bem tarde e escrevi o texto para marcar a data e cristalizar a memória do Banco. Mas, se tudo der certo, dia 22 eu vou escrever um texto sobre a moeda.

      Mas ae Henrique, vamos combinar um dia para trocar uma ideia! Eu ando estudando teoria monetária, mas é sempre bom escutar quem já entende alguma coisa.

      Abraços

  3. Quero saber mais deste projeto , o ocaso me levou a estrutural estou querendo participar em algo pra ajudar a comunidade mas não sei como?

    • Goreth, a partir de segunda feira o Banco estará funcionando diariamente na área central da Estrutural, próximo ao posto policial. Apareça por lá para conhecer um pouco mais sobre o Banco.

  4. Parabéns pelo texto, Nardi! Quem já leu e ouviu um pouco da história da Estrutural sabe como conquistas como essa estão relacionadas a um protagonismo social de uma população que, entre altos e baixos, sempre lutou por seus direitos. Espero que dê tudo certo para o Banco, que além de ser uma insitutição que atua para/com o povo, se fundamenta em outros objetivos que não os tradicionais de um banco comum.

    Muito massa ler isso =D

  5. O sonho de inclusão social, continua vivo, através de iniciativas viáveis como essa. O grito de união em torno do desenvolvimento comunitário e social que ecoa ai, precisa ser gritado em todos os Bairros que necessitam de inclusão social. PARABENS ESTRUTURAL!!!.

  6. […] Segundo Deuzani Noleto, participante do Conselho Gestor do Banco Estrutural, foi formada uma rede de bancos comunitários do Centro-Oeste, que já teve sua primeira reunião realizada. Em meados de março o Banco Estrutural e outros bancos comunitários do DF participarão do Encontro Internacional de Bancos Comunitários, que ocorrerá em Fortaleza, CE.https://petdirunb.wordpress.com/2012/06/06/por-uma-outra-economia-banco-comunitario-estrutural/ […]

  7. […] Segundo Deuzani Noleto, participante do Conselho Gestor do Banco Estrutural, foi formada uma rede de bancos comunitários do Centro-Oeste, que já teve sua primeira reunião realizada. Em meados de março o Banco Estrutural e outros bancos comunitários do DF participarão do Encontro Internacional de Bancos Comunitários, que ocorrerá em Fortaleza, CE.https://petdirunb.wordpress.com/2012/06/06/por-uma-outra-economia-banco-comunitario-estrutural/ […]

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