Necessariamente vadias, necessariamente livres!

Foto por Augusto Pontual

Janeiro de 2011. Um policial ministrava uma palestra sobre segurança na Escola de Direito de Osgoode Hall, universidade localizada em Toronto, Canadá.  Em uma de suas falas, ele aconselhava as mulheres a evitar saírem vestidas como vadias para, assim, não se tornarem vítimas de estupro. Desse contexto, surgiu a primeira Slut Walk (nome que foi traduzido para Marcha das Vadias aqui no Brasil). Dessa maneira, estudantes da mesma universidade saíram às ruas em 3 de abril do mesmo ano, em protesto contra esse discurso de culpabilização das vítimas de violência sexual ou de qualquer outra forma de violência contra as mulheres. O protesto disseminou-se internacionalmente, chegando inclusive às cidades brasileiras.

Foto por Alexandra Martins

No último sábado, ocorreu a segunda Marcha das Vadias aqui em Brasília. Milhares de mulheres e homens foram às ruas marchar, cantar e lutar pela igualdade entre os gêneros, pela liberdade e pela autonomia femininas. A marcha, sem dúvida, foi linda! Todas e todos marchando por uma sociedade diferente. Nesse contexto de luta, porém, a atitude de um homem presente na marcha foi também destaque na mídia. Ele acabou preso por atentado violento ao pudor, por ter mostrado seu pênis para a marcha. Diversas pessoas fizeram comentários em defesa do homem nas diferentes redes sociais. Muitas opiniões voltaram-se novamente para um discurso de culpabilização das vítimas (sim, o mesmo discurso utilizado pelo policial do Canadá), criticando a reação e a revolta das mulheres em relação ao homem. O problema não está no homem ter mostrado seu pênis em pleno protesto. O problema está no homem ter ofendido as diversas mulheres ali presentes, ter tomado atitudes machistas, além de ter ameaçado todas ali ao seu redor. As mulheres não estavam ali sem motivo algum. Todas estavam ali em busca de uma igualdade entre os gêneros, questionando o status quo, a sociedade que procura sempre delimitar como nós (mulheres, meninas, gurias,) devemos nos vestir e nos comportar, como devemos sentir ou falar.

Foto por Túlio Fortuna

O mais impressionante do falo masculino ter aparecido em plena Marcha das Vadias é a violência simbólica que ele carrega. Fica claro que se uma mulher mostrar seu corpo em público, todos os homens têm o direito de tratá-la da forma com bem entenderem. Vemos a diferença de significação entre um homem nu e uma mulher nua. Um homem nu, em plena avenida pública, poderia causar um escândalo e todas as mulheres – pelo menos as de “boa índole” – não tardariam em tapar seus olhos para aquela “indecência”. Já uma mulher nua, em público – na verdade três mil mulheres nuas – não causa espanto por ser uma visão proibida e os homens ao redor sentem-se quase que na obrigação de mostrar o seu sexo, mostrar para ela o que significa o corpo dela exposto. Além disso, para as outras mulheres, isso significa mera base de comparação, primeiro se ela é tão bonita quanto você, depois o quão despudorada é aquela vadia em relação a você.

O termo “vadia” também é alvo de críticas. Muitos falam “como elas podem exigir respeito e autonomia se elas próprias se denominam vadias?”. Mais uma vez presenciamos pessoas julgando as mulheres pelo seu comportamento sexual ou pelo modo como se vestem. Antes de opinar, é preciso pesquisar e entender o motivo de usar esse termo. Com a escolha do termo “vadia”, busca-se a ressignificação da palavra. É uma verdadeira desconstrução da concepção tradicionalmente negativa da palavra vadia, mostrando essa visão da sociedade que busca ter o controle moral sobre as vidas, os corpos, os sentimentos, as escolhas e os destinos de toda mulher.

O grande grito de guerra “Se ser vadia é ser livre, então somos todas vadias” resume bem essa ressignificação. Somos ofensivas por sermos mulheres, somos um pecado ambulante. Não importa nossa vida sexual: se somos “recatadas”, somos vadias frígidas; se temos uma vida sexual ativa, somos vadias que dão para qualquer um; se somos mulheres somos vadias por essência, não temos escolha! O que a marcha propõe é abraçar isso: seja o que for, mulher, seja uma vadia! Liberte-se!

Temos que nos questionar, temos que nos desconstruir. A articulação feita nas ruas pela igualdade entre mulheres e homens é uma das formas de não ficarmos caladas/os. Enquanto todas nós não formos livres, seguiremos na luta!

Por fim, uma reflexão da Marcha das Vadias de Campinas:

Vá-dia de violência contra a mulher

Vá-dia de estupro

Vá-dia de soco, pontapé, pancada

Vá-dia da palavra mal colocada.

Hoje é dia de não adiar:

Não adiar os milênios

de Pudor

de Medo

de Violação

Se somos iguais, me mostre a diferença:

não sacrifique seu desejo em mim!

Vá-dia, e adia o silêncio:

das mães

das filhas

das santas e das putas

Dessas nós, mulheres

Que de corpo marcado

Trazemos a cara pintada

Pra ter a alma lavada:

Por Luciana Forgiarini e Gabriela Tavares

2 pensamentos sobre “Necessariamente vadias, necessariamente livres!

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