Educação para quem?

Estava eu escrevendo um artigo sobre acesso à educação para as pessoas com autismo, entendendo que, por meio da educação, seria possível, entre outras coisas, efetivar o respeito pela dignidade dessas pessoas. Foi quando me deparei com um questionamento: o modelo de educação atual realmente possibilitaria isso? Creio que a resposta seja negativa.

Utilizei como exemplo inicial a situação das pessoas com autismo, mas percebe-se que a dita educação que temos hoje pode excluir brancos, negros, gordos, magros, pessoas “normais”, pessoas com deficiência, mulheres, homens… ou seja, todas as pessoas que eventualmente se inserirem no sistema educacional.

Inicialmente, é importante verificar que a instituição escola não somente está inserida num contexto capitalista, mas serve a ele. A escola é um dos primeiros lugares em que somos vigiadxs, em que somos bombardeadxs com ideias de competitividade, de que para ser alguém você precisa ter um diploma, de hierarquias – em que você aprende qual é o seu lugar, entre outras.

De acordo com Foucault [1], a escola é uma estrutura panóptica, traço característico da nossa sociedade, sendo que o panoptismo “é uma forma de poder que se exerce sobre os indivíduos em forma de vigilância individual e contínua, em forma de correção, isto é, de formação e transformação dos indivíduos em função de certas normas.” [2]. Essas normas são as de produção, de consumo, de mercado. Basta que se olhe o comércio das escolas de nível médio instaurado no DF. Tem-se, basicamente, uma fábrica de passar pessoas no vestibular da Universidade de Brasília. A educação das escolas, destacando aqui as particulares, restringe-se a ensinar x alunx apenas aquilo que será cobrado no vestibular para que, posteriormente, elx se especialize em alguma área e consiga um bom emprego.

Essa visão extremamente restrita de educação nem sequer chega a ter esse nome. Isso seria o ensino, mas exacerbado, concebido como o acúmulo excessivo de conhecimentos, os quais não são articulados entre si e que vão ser esquecidos em um curto espaço de tempo. O ensino tem um sentido estrito, mais relacionado ao cognitivo, o que normalmente é reproduzido nas escolas hoje em dia, enquanto que a educação seria “utilização de meios que permitem assegurar a formação e o desenvolvimento de um ser humano; esses próprios meios” [3], tendo em vista que a formação não poderia esquecer de estimular o autodidatismo, a autonomia do sujeito.

No caso de se promover somente o ensino, onde ficaria a realização da pessoa como indivíduo, sua autonomia, suas peculiaridades, características singulares? Cada dia na escola, a cada prova, em que há uma tentativa de avaliar por critério “justo” todo mundo da mesma forma, vai se matando aos pouquinhos aquele indivíduo, juntamente com sua criatividade e vontade de aprender. Como utilizar um mesmo critério de avaliação para todos se são diferentes, se aprendem de formas distintas, se gostam de coisas diversas? Não há justiça nisso, apenas desigualdade, exclusão, frustração, assassinato educacional.

No livro de Edgar Morin, A Cabeça Bem-Feita, chama muito minha atenção sua, por assim dizer, dedicatória: Este livro é dirigido a todos, mas poderia ajudar particularmente professores e alunas. Gostaria de que estes últimos, se tiverem acesso a este livro, e se o ensino os entedia, desanima, deprime ou aborrece, pudessem utilizar meus capítulos para assumir sua própria educação [4]. A fala do autor faz uma genial síntese da crise do ensino, que aborrece, deprime, desanima, ou seja, que pode gerar um efeito totalmente negativo no sujeito, pois este não é sujeito autônomo e ativo do seu processo educacional, é forçado, por meio da vigilância, do controle e da correção, a ser apenas espectador dele, sujeito passivo.

Pode-se transpor esse cenário deprimente para a situação do ensino jurídico no Brasil, com algumas restrições. Frases como “não quero que tenha greve, eu só quero me formar logo e ganhar dinheiro à custa dos outros” demonstram o objetivo distorcido de algumas/ alguns alunxs de direito ao escolher tal curso. Penso que a motivação aí é totalmente errada e desvinculada da realidade. Não é moralismo ou defesa para fazer voto de pobreza, apenas quero chamar atenção para refletirmos quais são os valores da nossa sociedade, quais são os motivos e objetivos de pessoas que, em tese, deveriam pregar o bem-estar da sociedade, a igualdade entre as pessoas, a justiça, e até que ponto essa situação não é culpa de nossas escolas.

Outro problema enfrentado pelos cursos jurídicos, a meu ver, é o engessamento de seus currículos e a falta de autonomia dx estudante para escolher seu “caminho” dentro da faculdade. É exigida uma quantidade enorme de créditos obrigatórios, de forma que há pouca possibilidade de que x alunx escolha as matérias que quer fazer. Acaba que somos obrigados, como na escola, a estudar assuntos que não desejamos, a frequentar aulas que odiamos sobre temas que não serão utilizados por nós em nossa vida (profissional).

Além disso, ainda há a questão da tecnicização do ensino. Aprendemos (ou não) a ser ótimos “memorizadores” das leis, mas será que sabemos lidar com a realidade em que ela será aplicada? Será que conseguimos “encaixar” a lei na complexidade social? Para ajudar no desenvolvimento dessa “habilidade”, seria ideal que os alunos participassem, por exemplo, da extensão, que é um dos três pilares essenciais (extensão, ensino e pesquisa, não necessariamente nessa ordem) da educação universitária.

O curso de direito da UnB passa atualmente por uma importante transformação, buscando discutir e solucionar esses e outros problemas que seu currículo apresenta. Encontra-se em discussão o Projeto Político-Pedagógico, essencial para que sejam redefinidos, principalmente, quais os objetivos desejados para a formação do bacharel em direito.

Deparamo-nos com realidades e problemas cada vez mais complexos, multidisciplinares, transnacionais, globais, enquanto continuamos ainda com uma “inadequação cada vez mais ampla, profunda e grave entre os saberes separados, fragmentados, compartimentados entre disciplinas” [5]. Precisamos revolucionar nosso sistema educacional em todos os seus sentidos (ou, quem sabe, acabar com as escolas [6]), sob pena de que, se não o fizermos, ele esteja esgotado e ineficiente em pouco tempo.

Por fim, gostaria de deixar como reflexão uma frase de Morin no livro já citado: “A educação pode ajudar a nos tornarmos melhores, se não mais felizes, e nos ensinar a assumir a parte prosaica e viver a parte poética de nossas vidas.”.

Por Natália Guedes

Notas:
1 – FOUCAULT, Michel. A verdade e as formas jurídicas. Rio de Janeiro: NAU Editora, 2003, p. 103-126.
2 – FOUCAULT, Michel. A verdade e as formas jurídicas, p. 103.
3 – MORIN, Edgar. A cabeça bem-feita: repensar a reforma, reformar o pensamento. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003, p. 10.
4 – Indico a leitura desse livro (Edgar Morin, A Cabeça Bem-Feita), que tem uma ótima crítica do sistema educacional. Indico também uma leitura maravilhosa, com a qual me emocionei, do Rubem Alves, que chama O Desejo de Ensinar e a Arte de Aprender. Esse livro é sensacional, principalmente porque foi nele que descobri a Escola da Ponte, de Portugal.
5 – MORIN, Edgar. A cabeça bem-feita, p. 13.
6 – Sobre o abolimento das escolas, leia, se assim o desejar, o livro de Ivan Illich, Sociedade Sem Escolas.

2 pensamentos sobre “Educação para quem?

  1. Fernanda

    Muito bacana!!
    Percebo as falhas sempre! Outro dia dei aula para um menino hiperativo. Ele não conseguia ficar sentado. Ele me pediu para assistir a aula em pé.

    Quando observei isso e todo o comportamento dele em sala, percebi que ele JAMAIS terá uma “nota boa” fazendo uma prova de 1 + hrs em que ele tem que ficar o tempo todo sentado lendo e respondendo questões. Impossível.
    =/

  2. Natália

    É verdade, Fernanda! A educação tem que levar em conta as características da pessoa…na minha opinião, uma prova nem sequer vai avaliar esse menino! Eu tenho um irmão autista de 6 anos…a aula dele é completamente diferente do que a gente vê nas escolas regulares. Mas, mesmo que ele não tivesse autismo, ainda assim teria que ser! Se você tiver interesse, leia esses livros que eu cito no texto. Sério, o do Rubem Alves é maravilhoso, bem fácil de ler, pois é em contos. Os outros são ótimos também, porém mais acâdemicos. Abraços!

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