Severino, Biopolítica e Stanley.

Mesmo sendo clichê, é inescapável: todo mundo pensa no dilema da seca no nordeste. Falando como nordestino, ainda que da “degenerada raça do litoral”, como diria Euclides da cunha, o problema do sertão se assemelha a uma ontologia: sempre ronda o imaginário, principalmente o sulista/sudestista, sobre como é a vida no nordeste. Quando se pensa em nordeste, se pensa em seca, chão rachado e miséria. (Isso sem entrar no mérito da controversa questão sobre se o nordeste é ou não uma grande Bahia, leia-se: terra do acarajé e do axé o ano todo.).

Porém, fora carnaval (Salvador, Recife e Olinda), festas juninas (interior, Campina Grande, Caicó e Mossoró) e praias, restam ao nordeste, e ao seu sertão, à seca. Até pra nós, nordestinos, se ensina que a seca é política. Que é uma indústria, majoritariamente, eleitoral. É uma das formas que o coronelismo encontra para se sustentar, fato que só foi agravado com a SUDENE (cuja grande contribuição foi combater a seca melhorando as terras dos já coronéis, aumentando a dependência da população).

Entretanto, esse meio e esse imaginário criaram um sujeito muito peculiar ao nordeste: o sertanejo-retirante. Figura muito presente em diversos elementos de cultura popular: da música Asa-Branca até romances como Vidas Secas, passando pela poesia, como é o caso de “Morte e Vida Severina”, poema que eu gostaria de pedir uma atenção especial.

Se for necessário, para entender um contexto, a descrição, ou melhor, a análise dos sujeitos que dele emergem (como mostra Foucault, que faz suas análises a partir de como o social penetra na subjetividade) então para melhor entender a questão da miséria no sertão é necessário tentar se compreender o retirante. E existem poucas descrições tão breves, belas e acuradas como a feita pelo João Cabral de Melo Neto. A começar pelo título: a própria inversão (falando em morte antes da vida) já é uma pista sobre qual paradigma, digamos, se desenrola o poema.

Foucault no seu Vigiar e Punir descreve a inversão da estrutura de funcionamento do poder, a partir do nascimento da prisão e da “mordernização” do código penal. Antes, o poder, encarnado na figura do rei, podia ser descrito como aquele que “causa a morte e deixa viver”, ou seja, com uma estrutura majoritariamente “inercial”: que espera uma situação extraordinária (um crime) que o desafie para só então agir (punindo), não se importando, de maneira efetiva, com a normalidade, “deixando” a vida acontecer.

A lógica atual, entretanto, é outra: o poder, agora difuso na microfísica social, cuida, principalmente, da normalidade. Ele é responsável por gerir a vida, por aproveitar dela o máximo, num esquema racionalista, onde o objetivo é o maior aproveitamento dos materiais disponíveis, ou seja, dos corpos. Exemplos não faltam: o caso dos trabalhadores na China ou na Indonésia, imigrantes ilegais e a própria figura do retirante, que trabalha, literalmente, como um escravo. Mas também é importante lembrar que a inversão é total: se o poder agora “causa vida” ele também “deixa morrer”, ou seja, aqueles que são invisibilizados, que não importam por não serem mais úteis, são condenados a definhar. O que também é o outro lado do que acontece com o retirante.

Esse, digamos, paradoxo representado pela figura do retirante (que une em si as duas facetas do poder: “causar a vida e deixar morrer) foi muito bem notado por Agamben, em seu livro “O que resta de Auschwitz”. Com um insight notável ele vai argumentar que essas faces do poder não apenas são complementares, como também, em seus extremos, se cruzam. Como aconteceu nos campos de concentração nazista, onde a vida só não era mais explorada, que deixada de lado, tanto que eram os próprios concentrados que cuidavam do campo, ao mesmo tempo que eram obrigados a trabalhar ao máximo e serem completamente invisibilizados.

Esse ponto nos traz de volta ao poema. Em seus primeiros verso há a seguinte definição de “morte severina”: “ [É] a morte de que se morre/de velhice antes dos trinta,/de emboscada antes dos vinte/de fome um pouco por dia”. Vemos aí como essa “morte severina” se enquadra no “deixar morrer”: é uma morte pelo abandono, uma morte que segue a vida, que atua como estrutura desta.

Para explicitar ainda mais esse fato, o autor do poema ainda faz com que o nosso “herói”, retirante, severino encontre com a morte em cada etapa do poema: assim que sai de sua terra, encontra um cortejo fúnebre, ajudando a carregar o morto; em seguida quando vai procurar emprego, numa cidadezinha, se encontra com uma rezadeira especialista em funerais, curas e afins; por fim, quando chega a cidade, conversa com alguns habitantes na frente de um cemitério.

Não ocorre, porém, apenas essa coincidência entre o severino e o cativo do campo de concentração. Ambos não podem falar, testemunhar. Ou melhor dizendo, ao perderem sua humanidade por causa do poder excessivo, que tanto “causa vida” quanto “deixa morrer”, eles perdem a capacidade de se comunicar: seu testemunho é algo que se torna inaudito.

Tomemos apenas dois exemplos: o caso da família de retirantes em Vidas Secas, cujo membro mais humano é Baleia, a cachorra que se contenta com os poucos ossos que

ganha quando pega o preá, onde há um medo injustificado de Fabiano do “Governo” (representado pelo guarda amarelo) e na qual todos os humanos só grunhem e sobrevivem, um dia de cada vez.

O outro é de uma música de Cordel do Fogo Encantado, clara paráfrase do poema que vimos, chamada “Morte e Vida Stanley” (cuja aparição no CD “Transfiguração” se dá em seguida a música chamada “Canto dos Emigrantes”). Peguemos esse seguinte trecho: “O seu nome é Stanley/Mais um filho das pedras dos gaviões/Mais um homem pra trabalhar/Na cidade sem sol/E eu aqui vou cantar/Sua morte sua vida/Seu retrato sem cor/Seu recado sem voz”.

Não resta dúvida da impossibilidade do testemunho ( trecho “vou cantar […] seu recado sem voz”), bem como da existência atormentada pela morte Severina (“seu retrato sem cor”), ou então de sua invisibilidade e da sua exploração (“mais um homem pra trabalhar”).

A única dúvida que resta é se é essa a (bio)política que queremos para o (nosso) nordeste.

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Por Pedro Godeiro

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