Mas eu não consigo viver sem isso!

Já parou para pensar o quanto você faz mal a outrem para manter seu padrão de vida? Quando você compra um tênis de marca ou, mais recentemente, uma roupa da Zara, você consegue sentir quanto sofrimento foi necessário para aquilo chegar as suas mãos? Se você soubesse, se você sentisse, você ainda consumiria? Foi pensando nisso que a 5 anos eu parei de comer carne e, hoje, eu vou falar do porquê você também deveria pensar nisso.

Nunca gostei daqueles documentários a la “Terráqueros” ou “A Carne e Fraca”, porque não gosto de terrorismo mesmo – nem quando é pela minha própria causa. Deixo os links se alguém quiser se aventurar. O meu pensamento é mais teórico e parte do seguinte questionamento: quantas vidas você sacrificaria para manter a sua? A princípio, a minha resposta seria: quantas forem necessárias! Mas a situação muda se formos adicionando complexidade. Você sacrificaria seus amigos? Sua família? Desconhecidos? Até chegarmos nos animais. Parece bobo, parece claro que a resposta é sim! O que vale a vida de um animal? Eles não pensam, não sentem, não raciocinam. Os animais foram criados pelos deuses e dados aos humanos para fazer deles o que bem entenderem. Mas… É isso mesmo? E se esse animal fosse o seu animal de família? Seria tão fácil descartá-lo, como um utensílio – um bem semovente? Não sei. A resposta para mim é não. Não nego que outras pessoas possam ter outras respostas, afinal, aqui saímos do campo das certezas e passamos a pensar quais vidas são importantes e quais são descartáveis.

Não quero que você pare de comer carne. O que eu quero é que você tenha bem claro o que está fazendo: você está matando um animal. Se você está O.K. com isso, eu estou mais O.K. ainda! Só não venha me dizer “poxa, eu até que nem gosto de matar os animais, mas não consigo viver sem isso”. Nunca vi um argumento tão ruim quanto esse. É a mesma coisa de uma madame falar que não consegue viver sem diamantes, mesmo sabendo dos terríveis processos para que aquilo possa ter chegado ao pescoço dela! É um completo absurdo! Eu até aceito quem diga que seu paladar é mais importante que a vida de um animal. Por incrível que pareça, este é um argumento melhor do que “não consigo viver sem isso, por mais que concorde com você”.

A outra grande pérola é: mas as plantas também são seres vivos. Pois é, mas, sinceramente, não dou a mínima para a vida delas. Lembra que eu falei que respeito o seu desprezo pela vida dos animais? Respeite o meu desprezo pela vida das plantas! Se um dia eu puder sobreviver de luz, posso até pensar no caso delas, mas, enquanto elas são necessárias para o meu sustento, sinto muito. Lembre-se, existe uma grande diferença entre ser necessário e ser gostoso.

Bom, mas agora vamos falar de coisas mais lights, coisas que todo mundo concorda (pelo menos eu espero) que é errado, que é o tema do post desde o início. Não é legal mal tratar animais. Animais que não vão virar comida ou que suas partes não são destinadas a confecção de produtos. Encontramos na lei penal brasileira o crime de maus-tratos como um pequeno indício de que os animais também tem direitos – restritos, mas direitos.

O que dizer então dos testes em animais? Caso você não saiba ainda, animais são utilizados pelos mais diversos ramos para condução de testes. Recentemente, uma mulher se submeteu aos testes que fazem com animais em uma vitrine, pelo menos àqueles que não causam a morte e isso gerou alguma polêmica no mundo. Não seria a prática uma incidência no artigo de maus-tratos? A resposta é não, na verdade. Leia com atenção o artigo da lei abaixo:

LEI Nº 9.605, DE 12 DE FEVEREIRO DE 1998

Art. 32. Praticar ato de abuso, maus-tratos, ferir ou mutilar animais silvestres, domésticos ou domesticados, nativos ou exóticos:

Pena – detenção, de três meses a um ano, e multa.

§ 1º Incorre nas mesmas penas quem realiza experiência dolorosa ou cruel em animal vivo, ainda que para fins didáticos ou científicos, quando existirem recursos alternativos.

§ 2º A pena é aumentada de um sexto a um terço, se ocorre morte do animal.

O que ela diz é: não se pode maltratar animais. Quem realiza experiência com animais comete crime, contudo, pode fazer se não houver meios alternativos. Entramos aqui na questão mais sensível: o que são meios alternativos? Eles existem, eu garanto, mas será que são tão confiáveis quanto o uso de animais?

Diversas marcas já aboliram a prática por acreditarem que, em verdade, os testes em animais não são a alternativa mais confiável. Os seres humanos são bem diferentes de coelhos, cachorros e macacos e, por isso, conduzir testes com animais em nada garante a mesma reação em humanos. Ainda não entendo o porquê da indústria insistir na prática – tenho uma suspeita: menor custo. Mas empresas são empresas e nem sempre – quase nunca – estão preocupadas com o bem estar do consumidor. O que me salta aos olhos ainda é o porquê de as pessoas ainda comprarem dessas empresas!

Para o caso de você ainda estar com um pé atrás em usar produtos sem esse tipo de experimento, dê uma olhada em três exemplos de testes conduzidos com animais que resultaram em consequências fatais para a humanidade – veja uma lista maior aqui:

Pensava-se que fumar não provocava câncer, porque câncer relacionado ao fumo é difícil de ser reproduzido em animais de laboratório. As pessoas continuam fumando e morrendo de câncer.

Cirurgiões pensaram que haviam aperfeiçoado a Keratotomia Radial (cirurgia para melhorar a visão) em coelhos, mas o procedimento cegou os primeiros pacientes humanos. Isso porque a córnea do coelho tem capacidade de se regenerar internamente, enquanto a córnea humana se regenera apenas superficialmente. Atualmente, a cirurgia é feita apenas na superfície da córnea humana.

Há séculos a planta Digitalis tem sido usada no tratamento de problemas do coração. Entretanto, tentativas clínicas de uso da droga derivada da Digitalis foram adiadas porque a mesma causava pressão alta em animais. Evidências da eficácia do medicamento em humanos acabaram invalidando a pesquisa em cobaias. Como resultado, a digoxina, um análogo da Digitalis, tem salvo inúmeras vidas. Muitas outras pessoas poderiam ter sobrevivido se a droga tivesse sido lançada antes.

Portanto, da próxima vez que estiver na prateleira do mercado, pense bem antes de levar um produto. Responda para si: eu sei o que isso significou em sofrimento e morte? Eu me importo? Você não consegue viver sem isso?

Por Gabriela Tavares

Pelo consumo consciente

Links:

– Lista de empresas que não testam em animais.

– Lista de empresas que testam em animais.

– Testes mais comuns e alternativas (PEA)

Observação: as opiniões expressas nesse texto são de responsabilidade da autora, o PET-Direito UnB não é um grupo de vegetarianos.

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