Cocô, etc

Alguém já parou para pensar na pluralidade de nomes que temos para nos referir ao que sai de nosso ânus no fim do processo digestivo?[1] Ou nos inúmeros verbos capazes de representar tal ato? Cocô, bosta, merda, fezes, tolete, barro, marrom, trança, moreno e etc para o primeiro; ir ao banheiro, obrar, borrar a louça, escorregar o moreno e etc para o segundo. Essas foram as palavras que eu consegui lembrar agora, de cabeça e em um pulo rápido. E em que pese algumas expressões de tom pejorativo, e até preconceituoso, o intuito desse texto não é fazer um catálogo de palavras sobre “cocô” e derivados, mas questionar como algo que está tão entranhado nas nossas falas e nas nossas vidas parece estar ausente do discurso, daquilo que pode ser dito.

Como diria Barthes, a língua é fascista. Fascista na medida em que é o código da linguagem que trata de classificar cada objeto e ato da vida. Classificar significa separar, fragmentar, excluir, negar e retirar. Classificar, por mais que necessário seja, oprime. Mas a língua não tem existência por si, independente e fora da história, pelo contrário, ela é fruto de processos políticos e de uma economia de saberes que como causa e consequência, refletirão diretamente naquilo que pode ser dito, onde pode ser dito e por quem pode ser dito.

Nesse sentido, a “produção do discurso é ao mesmo tempo controlada, selecionada, organizada e redistribuída por certo número de procedimentos que têm por função conjurar seus poderes e perigos, dominar seu acontecimento aleatório, esquivar sua temível materialidade”.[2] Mas o que chama atenção em relação ao “cocô” e ao “cagar” são suas ambigüidades na territorialidade daquilo que pode ser dito ou não. Encontram-se em uma espaço turvo entre uma zona discursiva até certo ponto descontrolada, o que pode ser extraído da pluralidade de palavras e expressões para designá-los, e outra, de caráter “oficial”, da qual são excluídos ou negados. Em um momento representam a liberdade violadora das regras padrões; em outro são o indizível, o “feio”, aquilo que absolutamente não deve ser dito.

Bauman[3], ao tratar de um dos aspectos da formação da racionalidade moderna, chama a atenção para o que ele denomina de processo de cartografia. A modernidade teve como grande projeto a formação de uma racionalidade única, a qual, de forma homogeneizadora, se imporia sobre todas as outras narrativas existentes nos diversos campos sociais, visando, assim, acabar com o imprevisível e irregular. Para tanto, fez-se um mapa de todas as racionalidades e discursos fragmentados que perambulavam pelas práticas sociais. No segundo momento, haveria a imposição de um novo mapa – agora regular, previsível, categorizador, uniforme e reproduzível em todas as instâncias – sobre aquela territorialidade fragmentada por várias racionalidades. Um só mapa, uma só razão.

Se me permitem o salto e uma nova conexão, tenho a acreditar que o mesmo processo de descrição utilizado por Bauman pode ser aplicado ao fenômeno de formação que a língua possui ao tentar padronizar e possibilitar a comunicação entre diversos sujeitos. A língua, enquanto parte do discurso oficial, deve ser una e a mesma para todos. A polissemia e os erros de comunicação devem ser afastados ao máximo.[4] Não só isso, a língua do discurso oficial deve ser vigiada, blindada perante os atos violentos que tentem desestabilizar sua coerência interna ou aquilo que essa coerência interna visa sustentar.

Dentro desse contexto de ideias, o discurso apresenta um caráter político claro, pois ao tentar se manter coerente, impermeável e padronizador, ele serve de sustentáculo de uma distribuição do poder que tem como forma de manutenção, entre outras, o controle daquilo que pode ser dito. A delimitação do campo de fala, portanto, serve como controle dos corpos, pois é por ele que se exterioriza e mediatiza o ser com o mundo; o ser com o outro. O controle do âmbito do discurso é, em ultima instância, o controle das próprias possibilidades do sujeito.

Voltando à bosta, visualiza-se a importância da abertura hermenêutica quando se diz aquilo que não pode ser dito, pois esse ato, de certa forma, representa um confronto direto com toda uma coerência discursiva que tem como pano de fundo uma tradição de relações de poder que delimita e controla os campos de manifestações que se podem tomar como racionais. Mas o “cagar” e seus derivados ganham um caráter mais importante quando notamos que eles ainda possuem um campo de manifestação discursiva minimamente livre, um campo de fala e comunicação longe do constantemente controlado e vigiado.

Nesse sentido, a “merda” estaria presente em um discurso livre, violento e fora dos padrões controlados pela “língua oficial”. No entanto, esse seu aspecto de liberdade não se conecta nem influi no discurso padrão, pois esse ainda se mantém asséptico e impermeável; coerente e uniformizador; longe e sem contato com os discursos “extraoficiais”. Talvez a desconexão histórica que retirou as “merdas”, agora em sentido figurado, do único discurso legítimo deva ser revisitada e questionada, para que as “merdas” possam voltar ao corrente e ao dizível do público. Talvez a volta das “merdas” seja e represente o fim do oficial, ou daquilo que podemos chamar, hoje, de único. As “merdas” como uma “reaproximação do ser humano em todas as suas dimensões”.[5]

Por Marcos Vinícius

[1] Esse texto é dedicado a Ana Paula Duque, a qual, apesar de sua contrariedade, é a pessoa que mais debato sobre bosta na vida.

[2] FOUCAULT, A Ordem do Discurso, p. 9

[3] BAUMAN, Globalização: As Consequências Humanas, p. 43

[4] Nesse sentido, seria interessante uma análise da polêmica gerada em torno da Cartilha do MEC e as acusações de que ela estaria ensinando a escrever e falar “errado”.

[5] Luisa Hedler do PET.

3 pensamentos sobre “Cocô, etc

  1. Natália

    Marcos, muito bom o texto!!!! Me fez pensar uma porrada de coisas, paguei muito pau para essa merda toda! Hahahahaha 😀

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